Pra contar histórias: A “mãezona” da escola Cidade Nova

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Dos 18 anos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Cidade Nova, 16 contam com Gilvana Bender Hoppe, 58 anos. Ela começou a trabalhar lá no início dos anos 2000, quando a escola ainda era pequena, com poucos alunos e um bairro em formação ao seu redor.

Hoje vice-diretora, Gilvana já foi diretora e supervisora, e viu tudo acontecer e crescer. Mas sua relação com a educação não se restringe ao trabalho na Cidade Nova e começou ainda no fim da década de 1970, quando concluía o curso Normal na Escola Evangélica de Ivoti.

No último ano do curso, quando pensava seriamente em ser pastora luterana e tinha a pretensão de fazer a faculdade de Teologia, a visita de um professor do interior de Lajeado a fez mudar de ideia. “Nem sonhava em ser professora, mas daí veio aquele professor procurando por alguém para trabalhar numa comunidade em Forquetinha. Me apresentei, me prontifiquei e fui pra lá.”

Naquela comunidade, Gilvana fez de tudo na Escola 15 de Novembro: era professora, diretora, merendeira e até secretária do time de futebol. Educadora de outras épocas, ela lembra o respeito que o professor tinha perante à sociedade. Não apenas como uma autoridade, mas em coisas simples, como ser a primeira a sentar na mesa durante uma confraternização, a primeira a se servir de um pedaço de carne e ser presenteada com mimos, como frutas, verduras e potes de nata. Naqueles três anos no interior de Lajeado, Gilvana também se dedicou à faculdade de Pedagogia, em Santa Cruz do Sul, sempre nos meses de férias – janeiro, fevereiro e julho.

Embora sua formação seja com habilitação em supervisão escolar, ela atuou muito tempo na sala de aula, trabalhando em escolas do Estado, como Crescer, Léo João Frolich, 11 de Maio e Wolfram Metzler. Mas “resolveu largar” para se dedicar exclusivamente à EMEF Cidade Nova, onde a atuação e a dedicação lhe renderam um apelido das outras professoras: mãezona. “Sou uma das mais antigas aqui na escola. Ver o crescimento dela e do bairro me deixam orgulhosa de ter participado de tudo.”

Gilvana também destacou a oportunidade que a profissão lhe deu. “Às vezes é algo tão pequeno, mas que vai fazer uma diferença enorme para o outro. Isso eu aprendi, de se colocar no lugar do outro. E quando temos essa sensação de pertencer a algum lugar, de fazer parte da história das pessoas e de que podemos fazer, é o que vale a pena.” No caso da Gilvana, isso inclui ainda uma bela orquídea em uma árvore no pátio. “Faz mais de dois anos que prendi um galhinho com uma linha e olha que flor bonita está hoje.”

SECRETÁRIA E ‘TRADUTORA’ DOS PREFEITOS
Nos anos em que trabalhou no interior de Forquetinha, um dos maiores desafios de Gilvana em sala de aula não era somente ensinar o básico, mas alfabetizar o alunos em português. “A maioria daqueles estudantes só falava alemão, a língua que aprenderam em casa.” Mas, curiosamente, falar a língua da Alemanha também foi importante para ela em outro momento da vida.

Entre os anos 1980 e 1990, Gilvana atuou como secretária dos prefeitos Glauco Scherer, Almedo Dettenborn e Celso Artus. “Fui trabalhar no Gabinete a convite do prefeito Glauco. Foi uma experiência diferente, porque também fazia as vezes de tradutora. Muita gente da comunidade e do interior de Venâncio não falava nada em português, então eu intermediei muita conversa com o Glauco e o Celso. O Almedo se virava e falava em alemão com todo mundo”, lembra.

Depois dos anos na Prefeitura, Gilvana voltou para as escolas e trabalhou dois anos na Odila Rosa Scherer, antes de assumir a supervisão da Cidade Nova, em 2002, e onde segue até hoje.

O AVÔ NOME DE PRAÇA E A RECEITA SECRETA
Criada em um ambiente luterano, sua educação também foi baseada nela. Antes de fazer o magistério na Escola Evangélica de Ivoti, Gilvana estudou, quando criança, no Colégio Gaspar Silveira Martins. A ligação com a religião de Lutero é coisa forte na família e de referência em Venâncio Aires, afinal, Gilvana é neta de Henrique Bender, o homem que dá nome à Praça Evangélica de Venâncio Aires.

Mas o sonho de virar pastora e estudar Teologia são pensamentos que ficaram no passado. “Posso ter essa natureza, mas me contento com as celebrações de Páscoa da escola. E isso já tá bom, né?”

A aposentadoria deve ocorrer daqui a dois anos, “se a escola assim entender”. Mas, até lá, tem muita coisa para fazer. No futuro, a tendência é fazer algum trabalho social.
Moradora do bairro Aviação, Gilvana é casada há 24 anos com Ernani Luis Hoppe, 61 anos, e mãe de Ernani Bender Hoppe, o Naninho, de 21 anos.

Gilvana é quase um livro aberto, porque alguns detalhes da vida ela não revela, nem para os mais chegados. Isso inclui uma receita de pepino em conserva. “Todo mundo me pergunta como faço. Mas tá lá, no meu livro de receitas. Pra saber, só o dia que eu me for ou se alguém descobrir”, afirma, entre risos.

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