Pra contar histórias: A vida ímpar da Eni

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Entre as linhas do quarto de costura, uma camiseta da escola Dois Irmãos. Há 23 anos, Eni é quem faz os uniformes (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)
Um dos maiores prazeres de Eni é o cultivo de orquídeas (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Quando tudo corre dentro da normalidade na nossa formação física, ainda dentro de nossas mães, nascemos com partes duplicadas. Isso vale, por exemplo, para olhos, ouvidos, braços, pernas e rins. Sem entrar no mérito médico, o corpo humano deve ter suas razões para tal. Para os leigos, talvez seja uma forma de garantir que, na falta de um, o outro dará conta. E, sim, há diversos casos de que é possível viver sem os ‘pares’.

Um exemplo dessas vidas ‘ímpares’ está no bairro Aviação, em Venâncio Aires. É lá, pertinho da escola Dois Irmãos, que uma mulher de 60 anos pedala todo dia na sua máquina de costura. Por incrível que pareça, não lhe falta fôlego, apesar de ter apenas um pulmão. Radicada em Venâncio há 37 anos, Eni Gollmann ainda morava em Linha Saraiva, interior de Santa Cruz do Sul, quando descobriu que tinha um pulmão defeituoso. Aos 17 anos, uma infecção apareceu logo abaixo da escápula (a popular paleta) esquerda.

Uma cirurgia no hospital de Monte Alverne removeu um “caroço do tamanho de uma laranja”. Sem mais informações, o médico disse apenas que a tal infecção havia comprometido seu pulmão esquerdo. Numa época sem recursos, seja de dinheiro ou conhecimento, ficou por isso mesmo. Nos anos seguintes, a vontade de trabalhar na cidade a fez trocar o interior de Santa Cruz pela pensão de Clacilda Seidel, no bairro União, em Venâncio. Foi aqui que o problema de saúde voltou.

MEIA-LUA

Em 1982, um exame de rotina enquanto trabalhava na Musa Calçados foi definitivo: Eni precisava ser afastada imediatamente. “Eu vinha sentindo muitas dores. Daí num exame da firma, que fazia raio-x e eletros dentro de um ônibus, descobri que a situação tinha agravado”, lembra a costureira.

Foi o médico Mário Deves quem a encaminhou a Porto Alegre e lá ouviu o veredicto: seria necessário retirar o pulmão esquerdo. Clinicamente, Eni diz que ouviu dos médicos que o órgão sadio ‘preencheria’ o espaço e daria conta para não lhe faltar o fôlego. De fato, isso se confirmou.

Hoje, nas costas, a grande cicatriz é o ‘registro’ da delicada cirurgia feita quando ela tinha 24 anos. Uma marca em forma de meia-lua, desde a coluna até a lateral das costelas. “Mas nem lembro mais. Eu não vejo, porque está nas minhas costas, ficou pra trás, né?”, diz. Pensando assim, em deixar momentos difíceis ‘atrás’, como sua cicatriz, é que Eni seguiu a vida.

Além de ter apenas um pulmão, falta outro ‘par’ no corpo de Eni. Ela conta que, desde que se conhece por gente, é surda do ouvido direito. “Não sei se nasci assim, mas não escuto de um lado.”

Vestindo a escola Dois Irmãos

Depois de trabalhar na Musa, Eni também passou quatro anos pela antiga Venan. Nesse meio tempo, construiu a própria casa, com ajuda do pai Bruno, já falecido, e da mãe Julita, hoje com 92 anos.

Solteira e sem filhos, é nessa residência, onde mora há 34 anos, o endereço, também, do próprio trabalho. Vizinha da Escola Municipal de Ensino Fundamental Dois Irmãos, Eni é a responsável pela confecção dos uniformes dos estudantes. São 23 anos vestindo os alunos e, nessas mais de duas décadas, já perdeu a conta de quantas camisetas, calças e casacos cortou e costurou.

Além da Dois Irmãos, também faz uniformes para as escolas Benno Breunig, no São Francisco Xavier, e Alfredo Scherer, no Loteamento Eisermann. “Faço muito uniforme escolar, mas também para grupos de festeiros de comunidades e uniformes para empresas e fábricas.”

SONHO

Foi na Dallas Confecções, no bairro Gressler, que Eni aprendeu a costurar. Não que o ofício fosse uma novidade, pois quando criança – a única menina entre cinco irmãos – tomava conta da máquina da mãe para fazer as roupinhas das bonecas.

Na escola, a qualquer professor que lhe perguntasse sobre a futura profissão, a resposta era sempre a mesma: costureira. “Não tive influência de ninguém, isso nasceu comigo. Era meu sonho.”

Eni trabalhou para ter o próprio negócio e virou patroa de si mesmo, oficialmente, em 1998. Durante 20 anos, teve microempresa e contava com funcionárias. Em março de 2018, virou apenas ela e mais seis máquinas. “Me organizo. Corto e costuro. Às vezes, trabalho de noite, mas sou patroa e empregada. Quando converso sozinha, é porque estou em reunião”, define, entre risos.

Orquidário particular

É na lateral da casa, em um corredor de menos de dois metros de largura, que Eni construiu uma estrutura para manter um dos seus maiores prazeres: o cultivo de orquídeas. Entre mudas e plantas grandes e floridas, prateleiras, telas e sombrites compõem o orquidário improvisado. “Eu adoro! São muito lindas e é um lazer, um passatempo que me deixa feliz”, resume.

Em meio às flores que mais gosta, Eni revelou um detalhe à reportagem. “Me disseram que eu contaria minha história para alguém”, diz. A ‘previsão’ foi feita, segundo ela, pela pastora Elizandra, da igreja que frequenta. “Se estou tendo essa oportunidade de contar minha história, deve ser por um bom motivo. Que se a gente perde algo, não adianta ficar reclamando. É possível respirar fundo [será um trocadilho?] e seguir.”

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