Moradora do bairro Gressler,  Dona Ignêz  Alvina da Fonseca, 92 anos, transita  livremente pelo ‘mundo do faz de contaÂ’.  Entre as muitas habilidades manuais está a confecção de bonecas de pano, com material reciclável até as mais ‘produzidasÂ’, de crochê. Com  passos determinados – a vó Ignêz  – abre o portão e se encaminha para perto do fogão à lenha, onde a filha Maria Reni de Souza já prepara um chimarrão. Mas, dona Ignêz,  faz questão de dizer,  que é no seu ‘cantinhoÂ’ que estão as ‘relíquias que deseja mostrar.

Do alto de sua experiência, as perguntas, vão sendo respondidas com muita profundidade; sobre a vida, as amizades, a fé em Deus e o trabalho beneficente. Especialmente, a  confecção de bonecas que já produziu e que não tem como contabilizar. Mas, compenetrada e de fala mansa, a venâncio-airense dá uma lição de vida e de otimismo. Ela que tem seis filhos, 18 netos, 20 bisnetos e 7 tataranetos, trabalhou por muitos anos em empresa fumageira no município, enfrentou desafios e superou muitos. Para dona Ignêz  a fé e a oração, a amizade e o trabalho beneficente, além do carinho da família, são receitas de  bem viver.

Folha do Mate:  A senhora confecciona os trabalhos manuais desde quando?Ignêz Alvina da Fonseca: Desde que meus filhos eram pequenos. Tudo começou  num Natal, quando a gente não tinha nada para dar de presente a eles. E naquele ano, aconteceu um milagre. Pessoas da igreja que eu já frequentava (Batista da Paz) vieram em nossa casa e trouxeram um presente em dinheiro e 15 metros de fazenda (tecido).

FM: Foi com aqueles presentes que a senhora começou os trabalhos manuais?Ignêz :  Sim. A gente não tinha nada mesmo, mas eu fiz uma promessa que a partir daquele ano, eu ia levar alegria a outras crianças, fazendo bonecas e outros brinquedos, também portas-retratos, panos de prato (pintados e com barra de crochê). E o dinheiro com a venda do material serviria para comprar brinquedos para entregar às crianças. Alguns que eu fazia, também já doava direto.

FM:  Qual o segredo para esta determinação, há tantos anos, com  a confecção de seus trabalhos manuais?Ignêz:  (Pensa um pouco) Em primeiro lugar a fé em Deus. E não é de hoje. São mais de 50 anos que  faço estes  trabalhos. E enquanto Deus me der vida vou ajudar.

FM: Neste mundo que envolve, especialmente, as  crianças, o que pode nos dizer, sobre alegrias e amizades?Ignêz: As crianças ainda acreditam em ‘bonecas de panos’. (pensa mais um pouco). Elas demonstram muita alegria quando recebem o presente. A amizade delas também é verdadeira. Mas também tem as amizades de meninas que  ficam por muito tempo. Eu tenho a Mazilda e a Lili que considero amigas mesmo, e já tem tempo, muitos anos.

FM:  O que a senhora acha  da relação existente hoje entre  pais e filhos, ainda existe amizade?Ignêz:  Hoje vale tudo. Mas acho que não sabem  valorizar as coisas que podem fazer.  Existe muita coisa boa, como a liberdade de falar – isto no meu tempo não existia. Então a amizade dos pais e filhos podia ser melhor.

FM: Fale um pouco sobre esta relação pais e filhos?Ignêz:  Hoje  as pessoas podem falar de tudo, as coisas não ficam ‘trancadas’. Então acho que tudo podia ser melhor. Mas o pecado (a falta de fé), acredito que isto não deixa o diálogo acontecer.  Alguns dizem que acreditam em Deus, mas só da ‘boca pra foraÂ’. Eu não sabia ler, aprendi na Bíblia e vejo que hoje que as coisas são tão fáceis. Então o que falta mesmo é acreditar, conversar, estudar e buscar Deus.

FM: A senhora disse que tem seu ‘cantinhoÂ’, quem lhe ajuda?Ignêz: Moro com minha filha . Ela é quem me cuida. Mas tenho o meu ‘cantinho’ – individualidade, assim como ela tem a dela. A Reni é a filha-mãe-amiga. E também é uma história muito interessante que tenho com ela.

FM: Pode falar um pouco sobre esta história?Ignêz: Fui casada com o ‘DorinhoÂ’ (Theodoro Garcia da Fonseca), por 57 anos, com quem tive 6 filhos (três meninas e três meninos). Quando perdi uma filha com 1,8 meses, entrei em depressão e precisei ser internada em Porto Alegre (se emociona). Depois disso fiz uma ‘grande cirurgiaÂ’. Os médicos disseram que não poderia mais ter filhos. Mas através da oração, três anos mais tarde,  fui abençoada com uma nova filha – a Maria Reni – que hoje me cuida e zela por mim. Sou muita feliz sendo cuidada por ela. Acho que os jovens podiam dar mais atenção para seus pais.

FM: A senhora acha que a amizade é importante para se manter saudável?Ignêz: Não dispenso os cuidados do Doutor Júlio. Mas preciso da minha filha para me ajudar a colocar a meia e os sapatos se não tivesse  estes cuidados da minha  família (filha e genro), tudo ia ser mais difícil, não sei me expressar direito, mas acho que estes cuidados são importantes pra gente se sentir feliz também, a amizade, especialmente, entre as famílias é muito importante. E claro (respira profundo), também levo orações e aconselhamento a quem precisa – então além de receber muito – também preciso me doar. Isto é importante. Além de fazer mais amigos, levo a palavra de Deus para que as famílias se unam cada vez mais. O que a filha Maria Reni complementa, sempre ao lado da mãe, “Muito colo ganhei, amor e dedicação, hoje meu trabalho é cuidar da minha mãe”.

FM: Uma das inúmeras alegrias já vividas?Ignêz: A maior de todas foi ter recebido o dom de ser mãe novamente, quando me foi dito que não mais poderia. Outra foi ver um menino drogado (buscar realmente a fé) e ter se tornado Pastor aqui em Venâncio Aires. E uma muito marcante também foi em um ‘posto de pregaçãoÂ’ (orações), quando uma menina veio me dizer que dorme abraçada com a boneca que lhe dei. Isto no meio de tanta coisa eletrônica, também marca a vida da gente.