Foto: Divulgação / Folha do Mate.

Perder um conhecido e, principalmente, alguém da família, é sempre muito doloroso. Seja em casos de doença ou acidente, a morte sempre é algo inesperado e, para muitos, complicada de se aceitar. Em meio a toda essa situação, uma das tarefas mais difíceis – e também desagradável – é dar a notícia a outra pessoa sobre a morte de alguém próximo. Então surge a dúvida: qual a melhor maneira de dizer que alguém morreu?

No Hospital São Sebastião Mártir, quem dá a notícia da morte é o médico, mas cabe à telefonista ligar para algum familiar e solicitar que compareça à casa de saúde, sem dar maiores informações. De acordo com Angélica da Rocha, telefonista do hospital, em caso de acidente, a maioria das pessoas não espera por uma notícia tão ruim.

Foto: Kethlin Meurer / Folha do MateSegundo Angélica, telefonista do Hospital São Sebastião Mártir, o principal desafio é ligar para um conhecido para que, depois, o médico noticie a morte pessoalmente
Segundo Angélica, telefonista do Hospital São Sebastião Mártir, o principal desafio é ligar para um conhecido para que, depois, o médico noticie a morte pessoalmente

Por outro lado, analisa ela, quando o paciente já está doente e, principalmente, internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), ao ser feita a solicitação de comparecimento ao hospital, já se espera que o pior tenha acontecido. Angélica conta que já se acostumou com o trabalho e leva isso de forma normal. No entanto, o principal desafio é ligar para alguém conhecido. “Geralmente ficam questionando e eu digo que não sou autorizada a passar mais informações”, comenta.

PSICOLOGIAConforme a psicóloga e gerente assistencial do hospital, Susan Artus Dettenborn, os psicólogos hospitalares tentam estar junto ao médico na hora que ele dá a notícia da morte: “Estamos presentes para acompanhar qual vai ser a reação emocional que a família vai ter, até porque alguns óbitos acontecem de forma muito brusca e inesperada”.

Profissionais como enfermeiras, assistentes sociais e psicólogos dão a notícia quando a morte ocorreu fora da instituição, bem como quando o médico não tem conhecimento sobre o motivo da morte. “às vezes, ocorrem situações que a pessoa morre no local do acidente ou em casa, aí entra o serviço de psicologia. A gente busca saber o que envolve o óbito e acompanha o atendimento que a pessoa recebe na instituição”, comenta Susan.

Segundo ela, não existe um tempo específico para dar a notícia. O que ocorre é que os profissionais buscam perceber qual o estado emocional que a pessoa se encontra para receber a informação. Quando não cabe ao médico repassar a triste notícia, Susan conta que, como psicóloga, busca coletar todas as informações possíveis sobre a morte para ter certeza de que o paciente de fato faleceu. “Quando um familiar está junto, a gente conversa com ele, porque normalmente quem vem de fora para acompanhar a pessoa já tem a informação da morte”, ressalta.

Choro e desespero: as reações mais frequentes

Para Susan, sempre é difícil dar a notícia a alguém, porque não se sabe quais as relações que as pessoas têm com a pessoa que morreu. “Eu não sei se conseguiram resolver todas as pendências que elas tinham. Não sei se não brigaram antes da pessoa morrer. A gente nunca sabe o que antecedeu e estava permeando aquela morte”, diz. Ainda acrescenta que algumas pessoas entram em estado de choque, outras choram. “As reação mais frequentes são de choro e desespero”, constata a gerente assistencial.

Quando o falecimento ocorre pós-acidente, para ela, é complicado falar, porque ninguém espera. “A pessoa sai de casa super bem, saudável e, de repente, não volta mais. Então também existe toda uma preocupação de como dar a notícia”, ressalta. Segundo Susan, não há como ter um discurso pronto, pois cada caso é diferente, assim como cada família tem uma crença distinta que também interfere na forma como recebe a notícia.

PALAVRASAs psicólogas, conforme Susan, buscam se colocar no lugar dos familiares e amigos e tomam cuidado com expressões que são pronunciadas na hora de falar sobre a perda. “A gente não costuma dizer ‘fica calmo, isso tinha que acontecer’. Naquele processo, a pessoa não tem condições de entender que aquilo poderia ser o melhor”, explica.

Em momentos como este, Susan ressalta que é dada uma assistência à pessoa: “Deixamos ela chorar, perguntamos se quer que alguém de confiança seja chamado. Se o familiar está na instituição, ficamos observando para ver se a pessoa não vai precisar de um atendimento médico”.

Segundo a profissional, um dos momentos mais difíceis é dar a notícia sobre o falecimento de uma criança. “Tanto acompanhar quanto dar continuação ao atendimento é uma das coisas mais complicadas, porque a grande maioria dos pais têm um desejo muito forte de estar com o filho”, complementa.

Médicos se preocupam com a assistência aos familiares

 

Foto: Kethlin Meurer / Folha do MateConforme a médica Jaqueline, antes de ser dada a notícia, ela relembra todo o estado de saúde do paciente
Conforme a médica Jaqueline, antes de ser dada a notícia, ela relembra todo o estado de saúde do paciente

Conforme Jaqueline Fröemming, médica da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do hospital, noticiar uma morte é difícil, mas, em algumas situações, quando o paciente já sofre muito e está debilitado, os familiares se conformam e até esperam pela notícia. Assim como Susan, Jaqueline acredita que um dos piores momentos é dar a informação sobre o falecimento de uma criança ou jovem, pois a comoção é maior.Para que tudo possa ocorrer bem, ela conta que o familiar é chamado para uma sala reservada e, antes de dar a notícia, a profissional relembra tudo o que ocorreu com o paciente e como o estado de saúde se agravou. Após dada a notícia, o familiar é convidado a ver a pessoa na UTI. “A maioria quer ver o paciente”, completa.

Segundo a médica, após o óbito, o foco passa do paciente para a família. “Quando já fizemos tudo o que podíamos ter feito, temos que dar assistência ao familiar nesse momento difícil”, comenta. Além disso, Jaqueline acrescenta: “Não posso querer que as pessoas saiam daqui aceitando a morte. O que eu posso fazer é que elas saiam confortadas.”