Leandro construiu um açude
Ampliação de açude dobrou a capacidade e abastece as seis mil mudas de moranguinhos na propriedade em Linha Antão (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Sem dúvida alguma, a estiagem que assolou as cidades do Sul do país durante cinco meses, entre dezembro de 2019 a abril de 2020, deixou aprendizados para agricultores e para todos que tiveram dificuldades com abastecimento de água e cultivo de culturas. Em Venâncio Aires, mais de R$ 108 milhões de prejuízos foram contabilizados na agricultura no período.

Conforme laudos da Emater/RS-Ascar, o milho safrinha e a soja (safra e safrinha) foram as culturas mais afetadas, com uma perda de 62,5% e de 57,67% nas lavouras, respectivamente. Em termos financeiros, o tabaco foi o produto com maior prejuízo: mais de R$ 35,6 milhões.

Em muitos locais, faltava água para manter verduras, hortaliças e frutas. Até mesmo água para consumo humano e animal faltou em diversas propriedades. Todo esse cenário trouxe uma série de aprendizados e levou muitas pessoas a buscarem informações para aberturas de açudes, perfurações de poços e outras optaram por métodos de irrigação.

Dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural de Venâncio Aires mostram que após a normalização das chuvas os produtores passaram a se precaver. “A gente percebeu que muitos passaram a buscar informações e ver a possibilidade de abertura de açudes e poços”, cita o secretário Gilmar Möhr.

Porém, nas últimas semanas, com a informação de que uma nova estiagem estaria se aproximando, os produtores tentam se preparar de todas as maneiras. “Nas últimas semanas estamos trabalhando fortemente com abertura de açudes para produtores rurais que atendem os programas institucionais como PNAE e PAA. São pessoas que estavam com problemas no abastecimento para as plantações que atendem programas importantes para a renda e para a agricultura familiar do município”, comenta Möhr.

O secretário também ressalta que a demanda de produtores interessados em abertura de açudes, poços e manutenção de reservatórios vem aumentando nos últimos dias. “A gente está atendendo na medida que recebe os pedidos e tem disponibilidade. Só de produtores da cooperativa vamos atender vinte”, cita.

Tranquilidade

Quem visita a propriedade do casal Carine Pires e Leandro Hickmann, em Linha Antão, e vê o casal tranquilo em relação à água para abastecer as seis mil mudas de morango não imagina os prejuízos que tiveram na estiagem. “A gente tinha necessidade de ter mais reservatórios de água, mas em março e abril o açude secou e tivemos que correr nos vizinhos para buscar água”, relembra Hickmann ao destacar que, por dia, o sistema de gotejamento precisa de dois a três mil litros de água.

A aflição pela busca de água e a morte de peixes fez com que o casal se cadastrasse para receber horas-máquina. Além disso, efetuou a limpeza dos reservatórios e ampliou os açudes. “A gente nunca achava que ia faltar. E quando vê não tinha mais, um calorão e os morangos baixando a produção. Foi um sufoco”, relembra o produtor de morangos semi-hidropônicos em estufa.

Além disso, a água para consumo humano não faltou, pois o vizinho Clécio Gartner efetuou a recuperação de uma nascente na propriedade que permitiu o abastecimento das duas famílias.

“Agora estamos tranquilos para produzir. Somos autossuficientes. Dobramos a capacidade dos reservatórios.”
LEANDRO HICKMANN – Produtor de morangos

Previsão indica ocorrência de estiagem

O Núcleo de Informações Hidrometeorológicas da Univates (NIH) alerta para uma primavera semelhante com a do ano passado. Para esta segunda quinzena de outubro, a tendência é que as chuvas retornem, com chance de temporais, típicos da primavera. As temperaturas ficam elevadas, com anomalias positivas. “Mesmo com o retorno da chuva para a região, o mês de outubro deve ter precipitação abaixo da normal climática. Para novembro e dezembro, a situação não é promissora, com chuvas distribuídas de forma irregular e pouco volumosa. Sendo assim, a primavera deve fechar com chuvas abaixo da média histórica.”

Ainda conforme o NIH, ao que tudo indica, até o verão vai ocorrer a atuação do fenômeno La Niña. Com isso, a chuva deve se tornar irregular e mais espaçada entre um evento e outro. “Um dos reflexos de evento La Niña neste período é de irregularidade no padrão de precipitação. Porém, isso não indica que não vá ter ocorrência de chuva, mas, que se tornam irregulares. A tendência de temperaturas aponta noites mais frias e dias mais quentes, padrão característico de períodos secos”, informa o instituto.

Leia mais: Prejuízo final da estiagem fica em R$ 108 milhões em Venâncio Aires

Prejuízo na lavoura

Conforme o engenheiro agrícola da Emater, Diego Barden do Santos, com essa previsão o produtor consegue ter uma boa estimativa dos períodos que serão de baixa pluviosidade. “É importante que os produtores se previnam, pensando no momento da floração das lavouras e não pegar seca nesse período”, comenta.

A estiagem é um fenômeno climático que tem como principal consequência a falta de chuva por períodos prolongados. Diferentemente da seca, que tem duração permanente, a estiagem é sazonal. Santos destaca que o produtor precisa estar preparado e as culturas de verão devem de ser as mais afetadas. “Culturas de verão podem ser uma das mais afetadas pois irão pegar a época da floração se essa previsão se confirmar. Além do milho e pastagens, a soja plantada mais cedo também pode ser prejudicada.”

Santos comenta que o produtor estava acostumado com boas safras e não estava armazenando alimentos para períodos mais longos. “É importante trabalhar com uma reserva de pastagens em piquetes e ter alimentos conservados para os animais. Esse último período de estiagem nos mostrou que precisamos de organização para armazenar alimentos. Estávamos acostumados com boas colheitas e acabávamos reservando alimentos para poucos meses”, observa o profissional.

Estiagem

  1. Segundo o NIH, da Univates, os padrões previstos de chuva abaixo do normal combinados com as temperaturas acima da normal climática indicam a ocorrência de estiagem na região. “Com isso, chamamos a atenção para o controle de uso dos recursos hídricos, sem desperdício.”
  2. Segundo o último boletim emitido pelo National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), o evento La Niña deve se estender até meados do outono de 2021.

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