Casa de Maria Clotilde Reis
Maria Clotilde segue preservando uma das oito casas construídas pelos primeiros imigrantes alemães de Linha Harmonia da Costa (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Por Ana Carolina Becker e Rosana Wessling

Quem passa despercebido pela localidade de Linha Harmonia da Costa, no quarto distrito de Venâncio Aires, não imagina a riqueza histórica do local. Conforme relato de moradores, o nome se deu em alusão à família Costa, que na época, comprou terras e depois revendeu-as. No entanto, a história vai além disso. Afinal, a família de Johann Schwendler deu origem a maioria das famílias que ainda residem no local. Após casar-se com Anna, em Sinimbu, eles tiveram 20 filhos.

Oito dos filhos de um dos ‘caras’ mais conhecidos da região, fixaram residência em Linha Harmonia da Costa. Cinco permaneceram em Sinimbu, cidade onde os Schwendler se instalaram quando chegaram da Alemanha. Uma das filhas do casal Johann e Anna foi morar em Arroio Bonito, interior de Mato Leitão. Além disso, tiveram seis filhos que faleceram ainda jovens.

A família de Johann deu características às terras compradas de Costa. Simbologia preservada até hoje no estilo dos oito casarões de pedra (seis ainda de pé) distribuídos entre os limites da localidade, a maioria delas ainda é habitada por descendentes. Chama atenção que as casas, construídas por volta de 1900, foram erguidas com grandes pedras, a maioria com quatro janelas e uma porta na parte frontal.

Uma das oito casas

Uma das casas ainda preservadas é a de Maria Clotilde Schwendler Reis, 79 anos. Nascida e crescida no local, a neta de Johann e Maria Thome Schwendler, filho do imigrante alemão, tem poucas lembranças, mas o que guarda conta com carinho sentada em uma cadeira de madeira, em meio à residência construída pelos antepassados. “Antigamente eles não contavam muito sobre a história da família. Não é como hoje em dia”, observa.

Maria Clotilde Schwendler Reis é a moradora de um dos casarões (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Entre as três fortes recordações listadas pela descendente, está a de que a grande cozinha, construída há mais de 100 anos, era utilizada pela família para celebrações de casamentos e outras comemorações. “A vó também sempre contava que o vô ia de cavalo até o rio Taquari e depois pegava um barco para ir até Porto Alegre pagar os impostos para o consulado alemão. Em uma dessas noites, a vó estava sozinha em casa com os filhos quando um tigre apareceu e ele acabou mordendo um menino negro que precisou ser adotado pela vó”, relembra. Outra história que está na ‘ponta da língua’ é a de que os índios roubavam o aipim e o melado da família.

Na casa de dona Maria Clotilde uma tradição é preservada com um prédio para cozinha e sala e outro para os cinco dormitórios. Por isso, faça chuva ou faça sol, ela precisa atravessar o corredor sem telhado para circular entre os dois espaços. “Sempre morei aqui. Quando me mudei com o meu marido Alcido José Reis para Três Passos, logo voltamos porque o pai pediu para eu vir cuidar dele depois que a mãe faleceu”, diz. A moradora de Linha Harmonia da Costa tem cinco filhos, seis netos e um bisneto.

Um estudo pela família Schwendler

A árvore genealógica de Marisa Schwengber Schwendler, 52 anos, se entrelaça com a do marido Ricardo José Schwendler, 56 anos. A explicação, pode até ser confusa, mas está em ambos serem descendentes de Johann. Marisa é tataraneta e Ricardo bisneto.

A moradora de Linha Harmonia da Costa conta que os oito filhos de Johann ‘fundaram’ a Picada Schwendler, por conta disso, a comunidade também é conhecida dessa forma até hoje. Devido aos inúmeros vínculos familiares, em 2013, Marisa resolveu realizar um estudo sobre a história dos descendentes e a forma como chegaram ao Brasil e em Venâncio Aires. “Primeiro ele chegou aqui e comprou seis colônias de terra do senhor Costa, anos depois, comprou mais duas para outros dois filhos”, lembra.

As primeiras cinco casas foram construídas na mesma estrada, uma próxima da outra. As divisas, segundo moradores, eram sempre feitas por grandes muros de pedras, alguns preservados e possíveis de visualizar ainda hoje.

Outras duas casas

Os outros dois casarões -que integram os oito construídos na localidade – foram erguidos por Peter Schwendler e Catharina Heinen e Wilhelm Schwendler e Rosa Müller, mas as residências não estão mais de pé.

Uma comunidade que sempre teve de tudo

Além de colonizar a localidade, Johann também se preocupou com a fé e a educação. Por isso, por volta de 1910 auxiliou na abertura da primeira escola católica de Linha Harmonia da Costa. O nome do primeiro professor, que veio da Alemanha, todos sabem: Gautch.

Neli Maria Schwendler, 85 anos, exibe orgulhosa uma das únicas fotos da primeira turma com o professor alemão. Além de ensinar as crianças da comunidade, Gautch fixou residência no local e a ‘casa dos professores’ é preservada pela família de dona Neli. Além das fotografias, as características do espaço ainda são da época. “A comunidade construiu essa casa para o professor morar”, relembra. Ela ainda conta que inúmeros professores ficaram na residência durante o período em que lecionaram.

Neli guarda uma fotografia da primeira turma do professor alemão Gautch (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Na residência em que morou com Arnoldo Schwendler viu os cinco filhos crescerem e hoje recebe os oito netos e três bisnetos. Das tantas lembranças que guarda, estão os bailes realizados em casa e que Neli sempre dançava com o pai. Logo acima da porta principal está a data da construção da casa, erguida em 1910.

Comércio

Mesmo que não tenha nenhuma relação com a família Schwendler, Valéria Stertz, 70 anos, sabe muitos detalhes da comunidade e da história dos descendentes de Johann. Afinal, é proprietária do estabelecimento comercial mais antigo e que fica no ‘coração’ de Linha Harmonia da Costa.

Casada com Daly Odilo Stertz, 77 anos, vieram para a localidade há 50 anos. Desde então, o casal é engajado nos compromissos da picada dos Schwendler. Por muitos anos, Valéria foi a responsável por puxar o sino da igreja Católica São Braz, construída em 1938.

Daly e Valéria são proprietários do único armazém de Linha Harmonia da Costa (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

A proprietária do armazém relembra que durante muitos anos a principal fonte de renda dos moradores foi o leite. “Todos tinham vaca de leite aqui. Nós também vendíamos”, diz. Uma das lembranças é de que os moradores precisavam deixar o leite em frente as casas e que quando o leiteiro recolhia, deixava o dinheiro embaixo do tarro de leite. “Todo mundo era honesto e só pegava a quantia de dinheiro que as pertencia”, ressalta. Hoje, a comunidade tem dois grandes carros chefes: o setor leiteiro e o suínos.

Além das atividades que desempenhou em prol da comunidade, também atuou como merendeira da Escola Municipal de Ensino Fundamental São Braz. O educandário foi fechado em 2010. Dona Valéria também era responsável pela central telefônica da comunidade que foi exinguida devido à evolução tecnológica.

Curiosidades da comunidade

  1. Johann nasceu em Mettnich, na Alemanha. Ele veio ao Brasil ainda solteiro, mas casou-se com Anna Maria Henkes em fevereiro de 1860.
  2. Os primeiros filhos de Johann vieram para Linha Harmonia da Costa entre os anos de 1890 a 1900.
  3. O padroeiro São Brás da comunidade foi escolhido por Clara Schwendler e a imagem foi doada por Vendolino Schwendler.
  4. O primeiro batizado na comunidade foi de Reinaldo José, filho de João e Susana Schwendler, no dia 3 de fevereiro de 1947.
  5. A primeira diretoria da comunidade foi: presidente Romano Frey, secretário Arnaldo Schwendler e tesoureiro João Adão Schwengber.
  6. Moradores contam que, na época, muitas crianças tinham a doença de coqueluche e algumas até morrem. Por isso que escolheram o padroeiro da garganta São Brás.
  7. Alguns dos descendentes de Johann estão enterrados no cemitério católico da comunidade.

LEIA MAIS: O homem da Kombi táxi

Deixe um comentário

Digite seu comentário
Digite seu nome