Encontro em Vale Verde oportuniza troca de informações sobre sementes crioulas

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Cerca de 240 pessoas participaram na terça-feira, 21, do 5º Encontro Regional de Sementes Crioulas. O último evento ocorreu em 2019 e depois foi suspenso devido à pandemia. No encontro de retomada, agricultores de 18 municípios estiveram no Ginásio Evangélico de Vale Verde. Entre eles, integrantes do Grupo de Agricultores de Sementes e Mudas Crioulas de Venâncio Aires (Gascemva), como Edimar Bohn, 72 anos, de Linha Cecília.

Para Vale Verde, ele levou sementes diversas, como de feijão, milho e a chamada ‘lágrima de Nossa Senhora’, usada para artesanato e confecção de rosários. “É coisa muito antiga”, resume o agricultor, que se tornou ‘guardião’ depois de um convite da Emater, há cerca de seis anos. “Eu trabalhei com fumo e vaca leiteira. E essas sementes sempre tinha em casa, então agora a gente está realmente cuidando e trocando para que dure mais tempo.”

Além de sementes, Bohn também cultiva mudas crioulas e um dos itens mais antigos na propriedade dele é a chamada ‘banana de bugre’ ou ‘costela de adão’. “Isso aqui é do tempo do meu vô materno Alfredo Uhlmann, há mais de 100 anos, junto com um tipo de gengibre, que até fabricavam cerveja”, conta.

Em maio, Bohn também participou como expositor da 16ª Festa Nacional do Chimarrão (Fenachim). “Gosto de participar desses eventos, porque procuro conseguir coisas diferentes, com outros agricultores que também gostam de preservar.”

Encontro regional levou centenas de pessoas ao Ginásio Evangélico de Vale Verde (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Biodiversidade

O técnico agropecuário e extensionista rural da Emater de Venâncio Aires, Alexandre Kreibich, explica que um ponto fundamental nessa prática de preservação das sementes crioulas é a biodiversidade. “Ter aquelas sementes sem interferência genética é também uma segurança alimentar, de que sabe o que está consumindo. E esse consumo tende a se tornar mais variado, porque às vezes de um único grão, existem vários tipos. Então na verdade ampliamos nossa oferta e variamos nossa alimentação.”

O assunto também foi destacado pelo assistente técnico estadual da Emater e que palestrou no evento, Ari Henrique Uriartt. “Muitas dessas sementes guardam princípios orgânicos, que enfrentam a degradação do meio ambiente. São sementes que dialogam com características ambientais importantes, que oferecem diversidade e por isso o cultivo precisa ser protegido.”

Foto: Débora Kist/Folha do Mate

Saiba mais

• O município de Ibarama, na região central do estado, é considerado um exemplo no trabalho em relação à preservação de sementes crioulas, inclusive com um programa municipal de troca-troca de sementes.

• A engenheira agrônoma Tatiana Schiavon de Albuquerque, explica que Canguçu, no Sul, também já fez esse trabalho, mas, de forma geral, a questão precisa evoluir. “Ainda tem muito a crescer. Os agricultores têm muita semente guardada, mas isso ainda não tem valorização como política-pública”, considera.

• Tatiana trabalha na Cooperfumos, uma cooperativa mista que reúne diversos pequenos agricultores de vários municípios da região. Só em Encruzilhada do Sul, onde há uma unidade de beneficiamento de sementes crioulas, são mais 400 famílias produtoras.

O próximo Encontro Regional de Sementes Crioulas está previsto para o primeiro semestre de 2023, em Herveiras.

Lucia de Oliveira, filha de mãe indígena, retomou uma tradição familiar (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

De volta às origens

Entre os expositores e palestrantes do encontro regional, estava Lucia de Oliveira, 63 anos. Natural de Porto Lucena, na fronteira com a Argentina, ela conta que guardar sementes crioulas é uma tradição dos avós e bisavós indígenas. Mas, como a mãe deixou a tribo para casar com um homem branco, Lucia não cresceu com esse hábito.

Foi há alguns anos, quando conheceu o esposo (Romeu Fischer, já falecido), que morava em Vale Verde, que o costume foi resgatado. “Meu marido já gostava de plantar e cultivar essas sementes e eu voltei com as origens dos meus antepassados lá da beira do rio Uruguai.”

No encontro de terça, Lucia levou sete variedades de feijão, além de outros itens. Do que ela planta hoje, tudo é comercializado, principalmente em programas municipais como Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

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