Entregas são feitas de bicicleta na comunidade, semanalmente, conforme a demanda (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate

Surpresa e alegria. Esse foi o clima da entrevista com a jovem moradora de Linha Maria Madalena, Iasmin Emanueli Becker, 17 anos, estudante do segundo ano do ensino médio na Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul (Efasc). Na tarde da quarta-feira, 14, Iasmin recebeu, da equipe de reportagem da Folha, a notícia de que foi contemplada com uma bolsa de estudos.

Iasmin fez a inscrição em abril deste ano e estava no aguardo da resposta. A lista publicada na terça-feira, 13, no Diário Oficial do Estado, apresentou os nomes dos candidatos habilitados, inabilitados e daqueles que não se enquadram nos requisitos definidos pelo programa. Iasmin foi habilitada na Bolsa Juventude Rural, um programa da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr) que visa estimular a permanência do jovem no campo através da concessão de bolsas mensais por meio do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais (Feaper).

Neste ano, o programa recebeu a inscrição de 1.169 jovens estudantes, entre eles, uma venâncio-airense. “Eu estava na expectativa, mas devido à pandemia o cronograma mudou. Nem sabia que havia sido contemplada. Foi uma verdadeira surpresa”, conta a jovem, entusiasmada.

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O programa prevê 200 bolsas para alunos regularmente matriculados no 2º ano e 271 para alunos do 3º ano do Ensino Médio, com idade entre 15 e 29 anos. Nesta edição, foram 471 bolsas disponíveis no valor de R$ 200 mensais, pagas por um período de 10 meses. O auxílio é pago a alunos matriculados em escolas públicas estaduais ou instituições educacionais sem fins lucrativos e de caráter comunitário que trabalham com a pedagogia de alternância. Esta pedagogia prevê que o aluno fique uma semana na escola e uma semana em casa. O objetivo é garantir a sucessão rural e a permanência do jovem no campo.

Iasmin faz entrega de bicicleta
Entregas são feitas de bicicleta na comunidade, semanalmente, conforme a demanda (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate

Planos

Apesar da notícia ser recente, o planejamento de Iasmin já está traçado. “Quero continuar e expandir minha horta. A meta é utilizar o recurso para fazer a compra de equipamentos e principalmente, instalar canos garantindo a irrigação nas épocas que não chove”, conta a estudante.

O aprendizado com a estiagem que iniciou no ano passado mostrou para a jovem que para continuar e ter alimentos o ano todo, o ideal é ter irrigação. “Nós temos um açude longe da horta. Algo em torno de um quilômetro. Como nossa terra é de saibro, fica difícil ter poço, por isso, essa seria nossa única alternativa para garantir água para regar as hortaliças”, explica a mãe da garota, Lisiane Inês Becker, 39 anos.

Iasmin ficou sabendo da bolsa na escola e logo tratou de esboçar um projeto, e com ajuda dos professores, inscreveu-se no programa. “Fiz um resumo da nossa propriedade, e falei que queria fazer um projeto focado na produção de orgânicos e iniciar um possível comercialização. Agora, estava aguardando, mas executando o projeto aos poucos com os ensinamentos das aulas remotas”, frisa Iasmin.

Iasmin cesta
A área experimental de Iasmin aumentou de tamanho para conseguir produzir várias variedades de hortaliças (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

De bicicleta, Iasmin realiza o escoamento da produção na comunidade

Incentivados pela escola, os estudantes contemplados com a bolsa precisam ter sua área experimental em casa. Uma horta com chás, temperos, hortaliças e muita dedicação para aplicar as técnicas apresentadas na sala de aula. Iasmin iniciou com um pequeno pedaço, nos fundos da residência, e com o passar do tempo a área foi expandindo. “Hoje já tem uma área de 800 metros só com verduras. Sem contar as frutíferas que plantei ano passado, pois fui beneficiada com o Projeto Quintais Orgânicos”, cita a jovem.

Com a pedagogia da alternância, o estudante da Efasc fica uma semana na escola e uma na propriedade. “No ano passado além de ter a possibilidade da feira na escola, começamos a comercializar em outros pontos de Santa Cruz do Sul, mas com a pandemia, as aulas e nossas atividades foram suspensas. Porém, aqui na horta as verduras estavam crescendo, era hora do plano B”, comenta Iasmin.

Surpresa com a notícia
O anúncio da contemplação na Bolsa Juventude Rural foi uma surpresa para a jovem (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Incentivada pelos pais, Lisiane e Marnei, a opção encontrada foi inciar a entrega dos produtos na comunidade. “Se a gente fosse levar ela de carro o lucro ia todo para gasolina. Foi nesse momento que usamos a criatividade. Adaptei a bicicleta dela para acoplar uma cesta e utilizei itens de uma outra bicicleta para reforçar o suporte da cesta”, conta o pai, orgulhoso.

Uma divulgação entre vizinhos no famoso ‘boca a boca’, mensagens em grupos de WhatsApp e as vendas começaram a surgir. Hoje, ela divide as tarefas das aulas on-line, afazeres domésticos, cuidados com a horta e entrega de produtos na comunidade. As encomendas são realizadas e Iasmin colhe os produtos, coloca-os na cesta e vai até Linha Brasil, comunidade vizinha, comercializar os produtos orgânicos de porta em porta. “Além disso, a escola junto com outros estudantes da Efasc e egressos está comercializando cestas de produtos para a Diocese em Santa Cruz do Sul. Então, é mais um mercado que preciso atender”, comenta a jovem, feliz com os resultados obtidos.

Paixão e infância

Filha de produtores rurais e proprietários da Agroindústria de Bolachas da Tia Leci, a vontade de ficar no campo vem desde a infância. O pai de Iasmin, Marnei Becker, é o atual presidente da Cooperativa do Produtores Rurais de Venâncio Aires (Cooprova) e destaca que desde pequena Iasmin queria acompanhar tudo. “Ela sempre queria estar junto nas entregas. Às vezes, a gente sai cedo, na madrugada e ela ali ‘pai, quero ir junto’. Feiras como Expoagro e Expointer, ela sempre tinha o interesse de se envolver no negócio da família”, conta.

Cultivo de chás
Iasmin também foi contemplada com uma bolsa de Jovem Aprendiz, em junho deste ano. O projeto é ampliar a área de frutíferas e no futuro ter outra fonte de renda com as frutas (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Hoje, os pais retribuem o carinho incentivando e ajudando com o cultivo dos orgânicos. “Quero garantir a sucessão rural. Meu próximo objetivo é me formar como técnica, seguir nos estudos e aumentar minha produção. As bolsas que conseguimos só reforçam isso, pois nos incentivam a ficar no interior”, enfatiza Iasmin.

“As bolsas são um incentivo para o jovem permanecer no campo. Isso só fortalece a sucessão rural pois realizamos projetos dentro da propriedade e nos sentimos valorizados com o trabalho no campo.”

IASMIN EMANUELI BECKER-Estudante da Efasc e contemplada com a Bolsa Juventude Rural

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