Lisane e Ângelo têm a produção de leite como carro-chefe na propriedade em linha Harmonia da Costa (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

A diversificação agrícola vem sendo destaque em Venâncio Aires nos últimos anos. A procura e o incentivo na busca de outras culturas faz com que inúmeros jovens prevaleçam no meio rural ao lado dos pais, para que o campo continue tendo força e potencial.

De acordo com a Emater-RS/Ascar local, hoje são mais de 24 mil pessoas no meio rural desempenhando atividades de produção agrícola com a finalidade econômica ou de subsistência, ocupando em torno de 25 mil hectares com lavouras anuais (grãos, tabaco, raízes e hortaliças), com um ou dois cultivos por ciclo anual, perenes (fruticultura, erva mate e madeira) e de subsistência (hortas e pomares domésticos) ou até mais que dois ciclos na mesma área. Mais de 20 mil hectares com pastagens para as criações (bovinas, ovino e caprinas) e mais de 420 hectares de viveiros/açudes de peixes (subsistência e comercial).

Conforme o chefe do escritório da Emater, Vicente Fin, a matriz agropecuária sofreu modificações pelo envelhecimento das pessoas do meio rural, pelo aumento de demandas e oportunidades de emprego de membros familiares. “As diversas cadeias produtivas propiciaram o aparecimento de indústrias e agroindústria familiares ligadas a vários setores”, frisa Fin.

Uma das cadeiras que mais vem se consolidando e se expandindo no município é o setor avícola. Recentemente, o município inaugurou o Condomínio Avícola de Linha 17 de Junho, com produção de 275 mil aves por lote, distribuídas em oito aviários. É a cultura que gera maior Valor Bruto da Produção Agrícola (VBPA) para o município, depois do tabaco. “Já tínhamos um número considerável de aviários, mas vamos ter uma crescente nos próximos três anos. Não tenho dúvidas em dizer que esse será o setor mais importante da diversificação em termos de arrecadação”, comenta Fin.

São 3,555 milhões aves de corte e 150 mil ovos e ovos galados, por ano. São 42 produtores envolvidos com a atividade. A expectativa para a safra 20/21 é de um aumento significativo da produção, algo em torno de 6,4 milhões de aves”, conta Fin. Conforme informações da Emater, Venâncio conta com um frigorífico local que abate em torno de 4,8 milhões de frangos por ano.

Nos últimos meses, a Emater atendeu produtores e interessados em expandir no setor avícola. Hoje, já são 15 novos produtores com projetos em andamento. “A cadeia está se consolidando, teremos em breve todas as etapas do processo em Venâncio. Aviários para criação de frangas que depois irão chocar os ovos.”

Expansão

Para o prefeito Giovane Wickert, o município está em plena expansão no setor da proteína. O gestor elenca inúmeros projetos de diversificação que auxiliam os agricultores em subsídios ou horas-máquina. Um dos grandes diferenciais para a região e que irá auxiliar ainda mais na expansão do setor será a criação do Centro de Vocação Tecnológica (CTV) da Proteína . “Estamos abrindo o processo licitatório nos próximos dias. O CVT vai trazer conhecimento e certificação. Vamos trazer a ciência para mais perto e assim qualificar o produtor que, com isso, consegue aumentar a qualidade e produtividade”, frisa Wickert.

O CTV será um local de cursos e pesquisas que tem como objetivo auxiliar no desenvolvimento de produções de diversificação. Esse será o primeiro do Estado direcionado para o segmento. O valor do investimento está avaliado em R$ 900 mil, conquistado junto ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Triângulo da Proteína

  • A diversificação está ‘espalhada’ em todos os distritos do interior de Venâncio. Com a inauguração do Condomínio Avícola da Dália, em Linha 17 de junho, um triângulo da proteína se formou na região.
  • O Condomínio Avícola, o Condomínio de Suínos Progresso e a ordenha robotizada da família Frey em Linha Cecília, mostram um triângulo de proteína no distrito.
  • O Condomínio de Suínos Progresso foi inaugurado na década de 90, com 47 sócios. Hoje, são 25 sócios e o presidente é Irio José Frey. Por semana, são produzidos em torno de 960 leitões, divididos em nove galpões. Conforme o engenheiro agrônomo da Emater o condomínio de suínos serviu de exemplo para Venâncio iniciar com o condomínio de aves.
  • O condomínio Avícola da Dália, em Linha 17 de Junho, irá entregar o primeiro lote de aves nos próximos dias.
  • No setor leiteiro, a Capital Nacional do Chimarrão passou a ser referência no estado do Rio Grande do Sul. Com o sistema Compost Born, a família Frey investiu fortemente no ramo com a ordenha robotizada e já comemora resultados na produção.
  • O engenheiro agrônomo Vicente Fin, chefe da Emater em Venâncio Aires, explica que os três empreendimentos localizados neste triângulo não são coincidência. “Isso se deve à sucessão rural. Os filhos foram permanecendo com a atividade dos pais. Sem contar que antigamente aquele local já tinha atividades no ramo.”
  • Fin reforça o precedente interessante, os três empreendimentos de diversificação estão diretamente ligados à sucessão familiar. “A cadeia local de frangos partiu de uma inovação. Tínhamos o case de suínos que havia dado certo, então por que não investir? No setor do leite, temos um case de produção gerenciada com tecnologia, é um plus de excelência, com volume, qualidade e retorno ao produtor de leite.”

“A gente é feliz por ter tido coragem de investir em outra cultura e diversificar”, diz avicultor

O representante do setor avícola no Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural (Comder), Elton Roberto Hein, 55 anos, produtor de Linha Herval, acredita que o setor vem crescendo nos últimos anos devido à sucessão familiar e à tecnologia. “Para permanecer no campo, o jovem precisa de incentivo, internet de qualidade, estradas boas e muito apoio da família.”

O filho de Elton e da esposa Maria Beatris Hein decidiu permanecer no campo. Gustavo Elias, 25 anos, se formou em técnico agrícola na Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul (Efasc) e hoje atua com os pais na lida diária com os quatro aviários. “Escolhemos a avicultura pois não estamos tão reféns do clima, não tem uso de veneno e assim conseguimos suprir a demanda de serviço”, comenta Gustavo.

O pai ressalta que o mercado está bastante pulverizado e a atividade traz retorno para o município. “O cenário evoluiu bastante, tínhamos uma falta de expansão em outra cultura, demorou um pouco para o município investir em outros segmentos. É só observar nossa região, nosso distrito sempre foi bastante diversificado”, cita Hein.

Trajetória

A família de Hein e a do vizinho plantavam tabaco juntos e, ao longo dos anos, foram amadurecendo a ideia e decidiram apostar na diversificação. Foram muitas visitas e trocas de experiências com avicultores de outros municípios da região. Em 2008, a família decidiu aceitar o desafio e diversificar. “Naquela época, a gente ainda teve que ir no mato descascar as varas para erguer o primeiro galpão”, relembra Maria Beatris. Além da família, o vizinho Juarez dos Santos também ingressou na produção avícola.

Gustavo (centro) optou por seguir no setor avícola ao lado dos pais, Elton e Maria Beatris Hein, em Linha Herval (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Em 2010, decidiram expandir, construíram mais um aviário. Em 2015, ampliaram e construíram mais dois, totalizando quatro aviários. “Tivemos sorte pois, naquela época, construímos um padrão que hoje ainda é aceito. Por mais que a tecnologia muda todo dia, a gente consegue ter boa parte do sistema automático”, conta o produtor. Os quatro aviários da família Hein são modernos com painéis eletrônicos e placas solares.

São oito lotes por ano, 180 mil frangos por lote, divididos em quatro aviários. O ciclo é de 32 dias e o frango vai para o abate em Lajeado e a carne é praticamente toda exportada. “Hoje, a gente é feliz por ter tido coragem de investir em outra cultura e diversificar. Conseguimos diminuir a mão de obra e muita coisa melhorou. Mas não temos fim de semana, o serviço é direto”, enaltece o pai

Conforme o filho do casal, estão acontecendo grandes mudanças no setor em poucos anos.“Estamos vivendo a nova era da avicultura, trabalhamos com automatização, modernização que vem para auxiliar o produtor. A agricultura é uma empresa que precisa ser gerida. Mudamos muita coisa na propriedade depois da minha trajetória na Efasc.”

Suínos e leite: setores em pleno desenvolvimento

Depois do setor da avicultura, a segunda atividade de maior Valor Bruto da Produção Agrícola (VBPA), em Venâncio Aires, é o setor de suinocultura. São 52,2 mil cabeças na suinocultura de corte, além de 4,3 mil de leitões. São 43 produtores envolvidos com o setor. Conforme Fin, os abatedores locais carneiam cerca de 25 mil cabeças por ano.

Representante do setor da suinocultura no Comder, o produtor Luís Fernando Hackenhaar, 36 anos, morador de Travessa Santa Emília-Cecília, reforça que o setor tende a ter mercado. “Temos a expectativa que, nos próximos dois anos, o preço vai ser bom para o produtor.” Ele chegou a trabalhar alguns anos em uma empresa da comunidade, mas, depois de quatro anos, percebeu que era hora de voltar e ajudar a família.

O pai de Luís é um dos sócios fundadores do condomínio Progresso de Linha 17 de Junho. “Em 1991, o pai começou com o condomínio. Em 1993, decidiu investir com a suinocultura na nossa propriedade. Quando eu era mais novo, o cenário era totalmente outro”, relembra o produtor.

Atualmente, ele elenca a tecnologia como principal avanço. “Antigamente era tudo no cocho, hoje o sistema é automatizado. O mercado pede esses avanços”, enfatiza Hackenhaar.

Luís Hackenhaar optou por voltar para casa e ao lado dos pais continuar com a criação de suínos em Travessa Santa Emília (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

A família recebe o lote de 400 a 500 porcos divididos em dois pavilhões. “O porco chega aqui com uns 25 dias. Criamos ele até uns 90 dias, depois vai para o abate”, comenta o produtor. Além da criação de suínos, a família tem cotas no condomínio avícola da Dália, recém-inaugurado em Linha 17 de Junho e hoje a família possui bovinos de leite. São 15 vacas em lactação e uma média de 260 litros por dia. “Muito jovem saiu da agricultura pois não tinha incentivos da família ou condições de financiar uma obra dessas. Aqui na localidade, dá para contar nos dedos os jovens que permaneceram com os negócios da família”, comenta Hackenhaar.

Setor leiteiro

A terceira atividade de diversificação em Venâncio Aires no ranking de VBPA é o setor leiteiro: são 165 famílias ligadas a pequenas e médias propriedades. Um dos produtores que ‘se criou na atividade’ é Ângelo Batista Reis, 36 anos, morador de Linha Harmonia da Costa.

Ao lado da esposa, Lisane Michele Franck, 26 anos, ele tem o setor como carro-chefe na propriedade, são 51 animais e destes 28 em lactação. “Quando iniciamos, tínhamos uma média de 70 litros por dia. Hoje, ultrapassamos os 815 litros por dia”, comenta Reis.

O casal crê que as famílias que permanecem com a produção leiteira são pessoas de meia idade. “Vejo poucos jovens tocando o negócio, muitos que já pararam foi porque não teve sucessão na propriedade”, ressalta Reis.

O produtor acredita que, por ser um setor ‘puxado’, muitos não demonstram interesse. “Nós estamos em uma fase de ter bem-estar animal e bem-estar da família.” O compromisso é diário, o ano todo, mas, apesar de o casal ressaltar que é uma atividade trabalhosa, o sistema é totalmente mecanizado. O sistema na propriedade é free stall semiconfinado. “Meu pai começou com a atividade, agora, esse é o carro-chefe da nossa propriedade, a gente se dedica o ano todo para a produção de leite”, cita Reis.

Lisane e Ângelo têm a produção de leite como carro-chefe na propriedade em linha Harmonia da Costa (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

O casal também apostou em outro ramo: adquiriu uma cota no condomínio avícola da Dália em Linha 17 de Junho e está com expectativas no novo negócio. “Era uma novidade, decidimos diversificar e apostar”, conta Lisane.

O desafio diário é se adequar às normativas e estabelecer metas pessoais para produzir quantidade e qualidade. “O setor do leite passa por várias fases durante o ano. Mas somos cobrados a produzir com qualidade e muitas vezes não ganhamos bem por isso. Temos normativas a seguir e nem sempre somos valorizados.”

Gado de corte

O quarto setor de diversificação que começa a novamente ter espaço, segundo o chefe do escritório da Emater de Venâncio Aires, Vicente Fin, é o gado de corte. “Já temos uma maior qualidade genética, raças europeias e cruzadas e frigoríficos que já são referência.” Ao todo, no município, são 160 produtores e sete abatedouros. “Somos o segundo município em abate de bovinos no estado, com mais de 198 mil cabeças por ano”, destaca.

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