Na família Keller, uma história de conquistas e avanços com o tabaco

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Noemia e Lotario Keller não recordam exatamente quando a família iniciou com o cultivo do tabaco, mas o que é certo é que, além dos pais, os avós já tinham a cultura como fonte de renda principal da família. Noemia, 56 anos, lembra que, em Linha Silva Tavares ela ajudava os pais e, com 12 anos, já tinha a responsabilidade de auxiliar na safra.

O casal, que hoje mora em Linha Antão, relembra que, durante a infância, as famílias plantavam o fumo Burley. “Depois veio um tal de amarelinho e as coisas foram modernizando até esse que cultivamos agora, o Virgínia. Naquela época era tudo muito diferente, começando pelos fornos que eram de madeira, bem diferentes dos de hoje, que são de tijolos ou elétricos”, comenta Keller, 62 anos, ao frisar que, na época, não aconteciam queimas de estufas como nas últimas safras.

Cultivo do tabaco perdura gerações na família Keller, que atua há 39 anos como fornecedora da Alliance One (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Em 1981, Noemia e Lotario casaram e iniciaram a primeira safra juntos, em Linha Silva Tavares. “O fumo era bem barato na época e a gente trabalhava um monte. Era tudo mais difícil”, recorda a agricultora. Eles comentam que, devido ao trabalho ser mais manual do que atualmente, a família plantava pouco, cerca de 20 a 25 mil pés. “Não adiantava plantar um monte, pois o serviço era tudo na mão. Era capinar, arrancar as florzinhas, não tinha essa praticidade de hoje”, cita Noemia.

A família enfatiza que todas as conquistas estão atreladas, de maneira direta ou indiretamente, ao tabaco. “Compramos terras, construímos casa e galpão. Mas nunca vou esquecer que casamos e só em 1998 conseguimos comprar nosso primeiro carro, um fusca. Foram anos trabalhando até conquistar esse sonho”, conta o agricultor.

Os dois filhos do casal, Claudio, 39 anos, e Clairton, 37 anos, também cultivam o tabaco. Hoje, todos residem há 19 anos em Linha Antão e trabalham juntos na mesma propriedade. A família planta cerca de 120 mil pés por safra e divide as lutas e conquistas diariamente. “Plantamos, colhemos, pagamos as despesas e dividimos os lucros todos juntos”, destaca Keller. Dessa forma, cada aquisição de implementos ou alguma modernização para o tabaco é discutida com toda a família.

Continuidade no tabaco

Claudio ainda recorda do sistema antigo que os pais plantavam o tabaco. “Lembro que tinha noites que eles saiam do galpão às 3h e iam cedo para a lavoura de novo para encher mais um forno, pois não tinha essa praticidade para amarrar o fumo.” Ele considera que a chegada da tecedeira já foi uma grande modernidade. “Foi um baita avanço, mas lembro que custou caro, foram anos trabalhando.”

Ele, que iniciou na atividade aos 16 anos, se casou em 2003 com Tatiana Cristine Kramer Keller, 33 anos, que ajudava a família desde os 14 anos com o cultivo do tabaco. “Naquela época lembro que terminei o último ano na escola e tive que ajudar em casa na colheita, foi bem puxado”, relata a produtora.

O casal salienta que a família obteve grandes conquistas e melhorias com a renda do tabaco. “Construímos nossa casa, compramos mais terra. Em 2011, adquirimos um trator e implementos, agora já temos quatro fornos. Podemos dizer que sem o tabaco nada disso seria possível”, reforça Claudio.

O casal, que tem dois filhos, Suele e José, sonha com a permanência deles no interior e o interesse pelo cultivo do tabaco. “Para continuar, a gente sabe que tem tudo, basta querer. Com o tempo a gente decide”, argumenta Suele.

Altos e baixos em quase quatro décadas

Para a família que cultiva tabaco há 39 anos, a safra mais triste foi em 1993, quando Noemia e Lotario Keller ainda moravam em Linha Silva Tavares. “A gente tinha colhido o baixeiro e veio um granizo tão forte que não sobrou nada. Até as cascas das árvores foram afetadas. Era um fumo bem bonito, mas não sobrou nada”, recorda a agricultora.

Segundo ela, por conta disso, a família sabe da importância da organização. “O produtor precisa saber organizar muito bem suas contas, pois o dinheiro entra uma vez por ano e pode ser que a próxima safra dê prejuízo. Não se pode gastar tudo de uma vez. Precisamos saber administrar muito bem”, frisa.

(Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

As lembranças de anos de trabalho também são boas. O filho Cláudio Keller lembra que a melhor safra foi a de 2003/04. “A gente recém tinha casado, era nossa primeira safra também. Fomos colher o baixeiro e eu queria desistir, pois ele tava pequeno e feio na lavoura. Eu estava prestes a largar tudo, mas, na insistência, demos uma força na terra e, quando iniciamos a segunda apanha, fiquei impressionado. De 820 arrobas colhidas, mais de 700 arrobas vendemos tudo como BO1”, relembra o produtor, entusiasmado.

Entre os maiores desafios elencados pela família, atualmente, está o custo de produção. Eles observam que o preço dos insumos está cada vez mais alto e nem sempre a compra do tabaco é satisfatória. “A gente gosta muito do que faz, é um serviço judiado, a idade vem chegando, mas somos felizes”, afirma Noemia.

Destaque no calendário

Desde que Noemia e Lotario iniciaram com o cultivo do tabaco, há 39 anos, eles plantam o tabaco para a Alliance One. “A firma mudou de nome mas a gente sempre acompanhou”, cita Noemia.

No calendário 2021 da empresa Clairton, Tatiana, Claudio, Noemia e Lotario foram escolhidos para ilustrar as páginas (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

A família conta que sempre participa de cursos e treinamentos para aprimorar os conhecimentos a serem aplicados no dia a dia. Neste ano, a empresa escolheu a família Keller como modelo para o tradicional calendário.
Tatiana relata que foi uma surpresa serem escolhidos. “Eles passaram uma tarde fazendo fotos com a gente. Quando recebemos. vimos que são várias fotos da nossa propriedade no calendário. Ficamos muito felizes com o reconhecimento.”

Durante a colheita do tabaco, bolinho de uva é o lanche preferido

Ao longo da colheita do tabaco, a maioria das famílias torna o momento descontraído e ao mesmo tempo uma diversão. Geralmente, os agricultores passam longos períodos na lavoura para aproveitar os períodos menos quentes. Por isso, o lanche sempre é uma preocupação.

Em Linha Antão, com a família Keller não é diferente. Antes da colheita, a família se organiza para produzir a própria linguiça. “No lanche, a linguiça caseira é algo que não pode faltar. A gente faz todos juntos e guarda no freezer depois na época é só tirar e cozinhar”, conta Suele Keller, 16 anos, que, embora não atue diretamente na produção do tabaco, auxilia a família na preparação do lanche.

Tatiana e bolinho
Bolinhos de uva de Tatiana são semelhantes a uma massa de sonhos recheados com uva e agradam a família e vizinhos (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Durante a colheita do tabaco inicia a safra de uvas e um dos lanches favoritos da família é o bolinho de uva, preparado por Tatiana, Noemia e Suele. A família compartilhou a receita que rende cerca de 25 bolinhos.

Bolinhos de uva

massa do bolinho
(Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Ingredientes

– 2 ovos

– 4 colheres (sopa) de açúcar

– 1 colher (sopa) de óleo ou banha

– 1 colher (chá) de sal

– 6 copos de farinha de trigo

– 2 colheres (chá) fermento biológico seco

– Leite morno até dar o ponto para sovar a massa

– Canela, açúcar baunilha a gosto

Recheio

– Uvas pretas ou rosas

– Açúcar refinado

Modo de preparo

Misturar todos os ingredientes da massa, sovar bem e deixar descansar até dobrar de tamanho.

Abrir a massa, cortar em forma de rodelas, colocar as uvas e o açúcar e fechar com um garfo e fritar em banha.

*Esta reportagem foi originalmente produzida para o caderno Mapa Rural especial Safra de Tabaco 

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