Lúcia e a filha Léia tocam as atividades diárias na propriedade (Foto: Taís Fortes/Folha do Mate)

É de Vila Sampaio, no interior de Mato Leitão, que vêm dois exemplos de jovens que optaram por seguir os passos dos pais no trabalho rural e, assim, garantem visibilidade ao protagonismo feminino no trabalho do campo. Desde que concluiu o Ensino Médio, em 2016, Léia Gabrieli Nyeland, 22 anos, passou a auxiliar em tempo integral a mãe Lúcia Maria Winck Nyeland, 53 anos, na criação de suínos. Antes disso, enquanto ainda estudava, ela já dedicava o tempo livre para auxiliar nas tarefas.

Ela e a mãe são as responsáveis pelo trabalho do dia a dia na propriedade, porque o pai Valmir Nyeland, conhecido como Mego, é servidor público. Depois de decidir permanecer na propriedade, Léia sugeriu aos pais a ampliação da produção de porcos, a partir da construção de mais um chiqueiro. Isso possibilita que a família abrigue 2,3 mil suínos na fase de creche, totalizando seis lotes por ano.

“Sempre gostei de ajudar e me inspiro na minha mãe para tocar a propriedade”, relata. Para o futuro, a jovem pretende dar continuidade ao negócio dos pais, mesmo quando eles se aposentarem. A mãe de Léia acredita que uma importante maneira de manter o jovem trabalhando no campo seja reconhecer o trabalho dele. “Desde criança, ela ganhava uma mesada para valorizar quando ajudava nas tarefas da casa”, recorda.

Produção de leite

Mais nova de três filhas, Greice Isabel Kerber, 22 anos, também iniciou a relação com o campo ainda na infância, acompanhando os pais Heitor Antonio Kerber, 62 anos, e Maria Noeli Capinus Kerber, 63 anos, nas atividades rurais. Por isso, já na adolescência ela auxiliava os dois nas tarefas relacionadas à produção de leite.

Greice com os pais, Maria e Heitor, e a sobrinha Mariana Luíza Kerber dos Santos, de 2 anos e 9 meses (Foto: Taís Fortes/Folha do Mate)

Em 2017, depois que a família perdeu o rebanho por causa da contaminação dos animais por tuberculose, ela optou por procurar um emprego fora. Três anos depois, a jovem resolveu retornar para casa com o objetivo de ajudar os pais. “Alguém teria que tocar a propriedade da família um dia. Por isso, optei por retornar para casa e me dedicar exclusivamente a isso. Talvez, se o problema com a tuberculose não tivesse acontecido, eu nem teria saído para trabalhar fora”, reflete.

Agora, as atividades na propriedade da família Kerber são realizadas por Greice e os pais. O namorado dela também auxilia nas horas vagas e as duas irmãs mais velhas estão sempre prontas para ajudar quando é necessário. Futuramente, Greice pretende investir em tecnologias para facilitar o trabalho no campo. “Quando era pequena, tinha o sonho de trabalhar fora e sair de casa, mas hoje me sinto realizada”, compartilha.

A moradora de Vila Sampaio também pensa em fazer cursos e aplicar os conhecimentos na propriedade. “Penso em inovar e, assim, aumentar a produção. Hoje não penso mais em fazer faculdade. Quero buscar qualificação com o objetivo de investir na propriedade”, projeta a agricultora, que tem nos pais, que trabalham há 35 anos com a produção leiteira, sua fonte de inspiração.

Conquista

Cristina Vergutz é coordenadora pedagógica da Efasc (Foto: Arquivo pessoal)

Para a coordenadora pedagógica da Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul (Efasc), Cristina Vergutz, a maior visibilidade da mulher no campo é reflexo das lutas das mulheres para ocupar outros espaços na sociedade, como a política. Além disso, a profissional observa que a questão da mulher no campo sempre foi uma situação invisibilizada. “Elas sempre existiram na zona rural e dentro das propriedades, mas não na lógica do trabalho remunerado, como chefes ou alguém que ocupa espaço de poder”, avalia.

De acordo com Cristina, conforme informações do Censo Agropecuário 2017, nos municípios do Vale do Rio Pardo apenas 11% das propriedades rurais estão em nome de mulheres. Em Mato Leitão esse percentual é de cerca de 20%. Ela cita que 85% a 95 % do tempo das mulheres é gasto com o trabalho de cuidados domésticos, o que não é visto no contexto geral. “As mulheres agricultoras se dedicam ao trabalho agrícola e ao cuidado doméstico e se não existe o cuidado doméstico, não existe o da lavoura.”

Para Cristina, a transição relacionada a mais mulheres ocuparem o papel de chefe de uma propriedade representa a possibilidade de emancipação delas, de elas conseguirem ter acesso a decisões. A coordenadora da Efasc também explica que o homem ocupar o espaço de autoridade é uma questão historicamente determinada e socialmente construída.
Em relação à permanência dos jovens na agricultura, ela cita dois pontos fundamentais: valorização e o incentivo da família e a importância de uma educação voltada para o campo. “É essencial a compreensão da família de que essa jovem mulher é um sujeito importante e que tem valor para a agricultora como um todo”, menciona.

Em relação ao contexto escolar, ela pontua a inserção de assuntos sobre agricultura estarem inclusos no currículo escolar. Para ela, trabalhar esses assuntos nesse espaço auxilia para que o jovem veja no campo uma possibilidade de vida. “A escola precisa abordar isso, em especial em espaços que são do campo. É preciso preparar os filhos e as filhas dos agricultores para verem a importância de ser um agricultor e dar continuidade a esse trabalho.”

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