Compost Barn acomoda os animais confortavelmente em uma cama de serragem que serve de compostagem (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Nos próximos dias, a família Frey, em Linha Cecília, vai passar a contar com dois ‘novos ajudantes’ nas lidas da agricultura familiar. São dois robôs que irão operar 24 horas por dia e ordenhar as vacas criadas na propriedade. A criação de gado de leite é a principal atividade da família, que apostou na tecnologia do sistema Compost Barn e hoje tem uma fazenda que é referência não apenas na região, mas para todo país.

Para iniciar o investimento que representou a continuidade da atividade, a família Frey dedicou anos de estudo. A busca constante de conhecimentos incluiu visitas em cidades do Rio Grande do Sul como Paraí e Pontão e, inclusive, uma viagem para a França, há quatro anos.

Há três semanas, as 73 vacas em lactação já estão em fase de adaptação, saíram do sistema free stall – confinamento onde os animais ficam soltos em áreas cercadas- e aos poucos se adaptam ao Compost Barn, um estábulo com cama de serragem em compostagem. A obra já está em fase final, e daqui alguns dias, os dois robôs estarão, literalmente, tirando o leite das vacas, atividade até então exercida pelas mãos da própria família.

Irio José Frey, 64 anos, conta que se criou em meio à atividade leiteira. “São, pelo menos, 50 anos lidando com a produção de leite”, acrescenta. Ele, ao lado da esposa Marlene Henckes Frey, 59 anos, estavam decididos em parar com a atividade, mas uma das três filhas do casal, Marina Henckes Frey, 32 anos, decidiu que era hora de voltar para casa e inovar. “Se você quer continuar no mercado é preciso se adaptar e investir em tecnologia”, reforça.

Marina é bióloga, morava no centro de Venâncio Aires, trabalhava no setor financeiro em uma universidade, mas no início do ano decidiu voltar para casa, ‘largar tudo’ e tocar os negócios da família. Para essa nova etapa ela contaria com um fator essencial: o conhecimento dos pais. “Quem me conhece sabe o quanto gosto disso aqui. Essa atividade me move. É uma satisfação dar continuidade nos negócios da família. Estou realizada”, conta.

Quem não esconde a satisfação de ver a filha engajada e determinada com a continuidade do negócio é Irio. “É um prazer. É gratificante trabalhar a vida toda e ver que agora vai continuar. Tenho esperanças que depois isso aqui não vai acabar.”

O SPA DAS VACAS

A cama farta de serragem agora passa a ser a moradia das vacas. São 75 metros de comprimento por 38 metros de largura, uma construção de 2.948,94 metros quadrados. Uma capacidade para 140 animais distribuídos por 15 metros quadrados por animal. Um verdadeiro spa. Isso porque a regra é clara, segundo Marina, o sistema está divido em um tripé: “conforto, bem-estar animal e qualidade de vida.”

Popularmente conhecido como “celeiro de compostagem”, o sistema Compost Barn consiste em acomodar os animais em um pavilhão de estruturas metálicas e disponibilizar a eles uma cama de material orgânico, no caso da família Frey, a serragem. Uma solução autossustentável, já que, essa cama de serragem receberá 80% dos dejetos – urina e fezes-, transformando-se em adubo para as lavouras que receberão o plantio de pasto para os animais.

Não há divisórias, sendo assim, os animais possuem total liberdade para locomoção e estão protegidos de inúmeras doenças e das intempéries do clima. Para que a compostagem da cama funcione corretamente, é necessário a introdução de oxigênio. É aí que entra o trabalho da família Frey. Pelo menos duas vezes ao dia é necessário fazer o revolvimento da cama, com um escarificador acoplado no trator.

No pavilhão, são distribuídos oito ventiladores que mais parecem hélices de helicóptero, de tão grandes. Eles fazem um controle de temperatura da cama e no verão servem para refrescar as vacas, afinal, segundo Marina, o estresse térmico prejudica a qualidade e quantidade do leite. “O Compost Barn proporciona para a vaca um ambiente como ela está habituada, imita um habitat natural”, explica. Além disso, foram instalados aspersores, na linha do cocho, para controlar a temperatura do gado. Trata-se de um sistema de ‘chuveiro’ para a vaca se refrescar.

Após a finalização da instalação do robô, nas próximas semanas, a ordenha estará funcionando 24 horas. Alimento e água estão disponíveis à vontade, sem contar no massageador exclusivo para as vacas. Durante a reportagem, elas chegavam a fazer fila para receber a massagem do aparelho. O coçador automático faz sucesso entre os animais, sem contar na organização, pois cada vaca tem o seu tempo para o ‘luxo’ e a fila é democrática.

Massageador exclusivo faz sucesso no Compost Barn (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Instalação de robôs permitirá aumentar o número de vacas na ordenha

A obra, que tem investimento de quase R$ 3 milhões, iniciou em janeiro do ano passado. Marina conta que, em agosto de 2018, o pai dela visitou uma feira, no Paraná, e voltou de lá com o robô comprado. “A gente visitou duas propriedades, conversamos com muitas pessoas que conhecem do assunto e tivemos a Emater conosco. Esse projeto vem fermentando há dois anos e um trabalho em conjunto resultou na construção dessa inovação”, salienta Marina.

Agora, com a instalação dos robôs, a mão de obra será mecanizada. “Trabalhar com o gado de leite é uma escravidão, você está sempre correndo, é muito serviço braçal. Tu não sabe quando é Natal, Páscoa e nem domingo. Agora não, a gente não se judia mais, é tudo com esses aparelhos”, salienta Irio.

Cada vaca receberá um colar com um chip e cada robô consegue ‘cuidar’ e ordenhar 70 vacas, uma por vez. A construção já está apta para receber o terceiro robô, futuramente, e até julho deste ano o estábulo tecnológico já terá mais de 100 animais. “Em dois anos vamos estar com ele cheio. Mas vamos com calma, pois os animais estão em fase de adaptação. E a vaca é um animal que precisa ter rotina”, explica Marina.

O sonho dos pais de Marina, agora já é realidade e o galpão está em fase final de instalação. “Em 2016, eu e a esposa fomos para a França e vimos a ideia. Nunca imaginávamos ter essa oportunidade de realizar esse sonho aqui na nossa propriedade, em Linha Cecília”, destaca Irio.

PRODUÇÃO

No sistema free stall eram 22 litros vaca/dia e no novo sistema, em três semanas, o número já chega a 26 litros vaca/dia. O resfriador agora tem capacidade para 8 mil litros de leite, e a lavagem também é automatizada. A expectativa da família é de produzir, diariamente, 4 mil litros de leite que são comercializados para a Dália Alimentos.

Segundo o engenheiro agrícola do escritório municipal da Emater/RS-Ascar, Diego Barden dos Santos, que acompanha o trabalho na Fazenda Frey, o foco inicial era aumentar e melhorar o bem-estar animal. “O importante foi o planejamento inicial, além de uma criação conjunta com produtor e assistência técnica e extensão rural. Quando começamos a trabalhar nisso não sabíamos qual sistema de produção usar, só se sabia que o objetivo era melhorar e aumentar a produção”, salienta Santos.

 

Dejetos que ficam na área de alimentação são recolhidos automaticamente por um sistema (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Mulher no agronegócio

Marina é exemplo do protagonismo da mulher no agronegócio. Apesar de ser um ambiente bastante masculino, o cenário vem mudando nos últimos anos. A porteira está se abrindo para as mulheres. Marina concilia o trabalho com os ensinamentos da faculdade de biologia, realiza cursos, treinamentos e capacitações. “Hoje alguns serviços ainda são terceirizados, como o casqueamento. Mas já estou me especializando para poder realizar essa atividade também”, frisa.

Mas o grande ‘trunfo’ de Marina são os ensinamentos do pai. “É uma bênção ter meu pai aqui comigo, me ajudando, me ensinando e dando todo o suporte para tocar o negócio.”

Marina decidiu apostar em uma nova carreira e seguir com o negócio da família (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

AVANÇOS

Com animais mais limpos e saudáveis, em apenas três semanas de adaptação, os resultados observados pela família e pela Emater, através do engenheiro agrícola do escritório municipal da Emater/RS-Ascar, Diego Barden dos Santos, que acompanha a obra e auxilia com a dieta dos animais e planejamento são inúmeros. Confira:

  1. Redução de problemas no casco
  2. Maior facilidade de manifestação de cio e detecção
  3. Melhoria da qualidade do leite e menor incidência de mastite
  4. Melhora das lesões de jarrete, com isso, cada vaca aumentou sua produção em dois litros de leite por dia
  5. Aumento na produção de leite: uma média de 4 litros a mais por vaca
  6. Conforto e bem-estar animal
  7.  Qualidade de vida e conforto para a família

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