Máscaras liberadas: entre o alívio e a ponderação

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Foi no fim da tarde da quinta-feira, 17, que a Prefeitura de Venâncio Aires decretou, oficialmente, a desobrigatoriedade do uso de máscaras também em locais fechados. A decisão ‘complementou’ a determinação do Estado, que um dia antes autorizou a liberação do item em ambientes ao ar livre.

O que não deve mudar, conforme o Município, é a utilização de máscaras nas unidades de saúde públicas e privadas, como o Hospital São Sebastião Mártir (HSSM), os postos e a Unidade de Pronto Atendimento (UPA); as casas geriátricas, como o Lar Novo Horizonte, e outras atividades de saúde em ambientes fechados – com exceção de farmácias (veja ao lado), consideram-se as clínicas, consultórios, laboratórios e locais de exames e procedimentos.

Embora há muito tempo boa parte da população já tinha deixado o medo e a máscara de lado em locais abertos, os ambientes fechados continuavam quase ‘sagrados’ nesse quesito. Agora, a população já voltou a experimentar a sensação de entrar num estabelecimento comercial de ‘cara limpa’. Foi o caso de Rejane Vanice Peiter Oswald, 51 anos. Ontem pela manhã ela veio de Linha Brasil para o Centro da cidade comprar roupas de inverno. “Acho que foi uma boa ideia a liberação. As pessoas vão se animar mais, a gente está precisando disso. Mas acho que precisamos continuar carregando junto, caso apareço algum sintoma de gripe”, avaliou.

A caixa da loja onde Rejane fez as compras, Eliana Agnes, 40 anos, também é favorável à liberação em ambientes fechados. “É um alívio. Quase dois anos usando e ainda era difícil se acostumar, era difícil respirar. Acho que se continuarmos nos cuidando, com higiene principalmente, podemos seguir assim”, opinou, também fazendo referência ao álcool em gel.

Vera, que manteve a máscara durante as compras num supermercado na manhã de ontem, disse que continuará usando em ambientes fechados (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Prudência

Por ainda ser uma decisão recente ou apenas porque há quem prefira manter a cautela, muitas pessoas ainda circularam mascaradas nesta sexta-feira, 18, mesmo onde não precisavam mais. “Não sei se não é muito cedo para liberar em locais fechados”, destacou a técnica em Enfermagem, Vera Lucia Hochscheidt, 40 anos, enquanto realizava compras, com máscara, num supermercado na manhã de ontem.

Elani relatou ‘estranhamento’ ao entrar no mercado sem máscara (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Vera relatou que é totalmente favorável à liberação ao ar livre, mas ponderou que os ambientes fechados ainda podem ser ‘perigosos’. “Logo vem o inverno e, mesmo que com sintoma gripal é para usar, tem gente que vai ignorar isso e vai circular livremente. Tenho receio de uma nova variante, de uma nova onda. Muitos países estão registrando aumento de casos. Então acho que em local fechado deveríamos continuar usando. Eu vou fazer isso.”

Quem também falou em tom cauteloso foi a agricultora Elani Wenzel, 56 anos, moradora de Linha Maria Madalena. Ela também foi ao supermercado ontem, mas a máscara ficou dentro da bolsa. “Eu entrei e fiquei olhando para as pessoas. Elas também me olhando. Tudo mundo está estranhando ainda. Mas acho que, em ambiente fechado, quem quiser ou está com sintoma de gripe, deve usar sim”, avaliou a agricultora.

João Paulo, gerente operacional de um supermercado, optou por não usar (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Escolha

Considerando que trabalham em ambiente fechado, com grande circulação de pessoas, muitos funcionários do supermercado onde a Vera e a Elani fizeram compras, estavam usando máscaras. “Entre os colegas, muitos já comentaram que querem continuar usando”, comentou o gerente operacional, João Paulo Siebert, 58 anos.

Com a função que tem, Siebert conta que circula muito pelo mercado, mas que está entre os que decidiu tirar a máscara. “Achei válida a decisão, mas também entendo que a partir de agora cabe a cada pessoa continuar usando ou não. E é bom senso, né. Se tiver algum sintoma gripal, precisa usar.”

“Sou a favor de liberar ao ar livre, mas ambientes fechados ainda precisariam ser respeitados. Em mercados, por exemplo, acho que deveria ser gradual, porque tem muita aglomeração. Mas o principal é a consciência de cada um: se sentir qualquer sintoma, deve usar.”
IRMGARD COLOMBO
Aposentada, 66 anos. Ela estava de máscara, na rua, quando foi abordada pela reportagem (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Cobertura vacinal e poucas internações sustentam decisão

“Depois do decreto estadual e das manifestações de diversos especialistas, não é mais plausível manter o uso de máscaras entre trabalhadores e estudantes, enquanto os eventos estão liberados”, considerou o prefeito de Venâncio Aires, Jarbas da Rosa, durante reunião do Comitê Técnico Municipal na quinta, após o comitê regional transferir aos municípios a deliberação sobre o assunto.

Entre os motivos para o Município se sentir mais seguro com a decisão, está o não registro de internações graves e o elevado índice de vacinação contra a Covid. Venâncio tem 97% da população adulta vacinada com primeira dose; 91% com segunda dose, 45% com dose de reforço e 50% das crianças imunizadas, além de poucas internações hospitalares.

“Nesse momento, temos uma situação mais tranquila, com baixo número de casos novos e são casos leves, que não necessitam de internações. Além disso, já há uma grande parcela da população vacinada e muitos tiveram a doença recentemente. Por tudo isso, a Sociedade Gaúcha de Infectologia emitiu um parecer, flexibilizando o uso”, explicou a médica infectologista de Venâncio Aires, Sandra Knudsen.

No entanto, ela faz duas ressalvas, para que as pessoas continuem alertas. “Toda pessoa que tiver sintoma respiratório deve usar tanto em ambiente externo e interno. E quem tem doenças graves, imunidade baixa ou comorbidades, pode e deve continuar usando em ambientes fechados. Todas as medidas podem ser revistas se o cenário da pandemia mudar novamente.”

Microrregião

  • Um dia antes de Venâncio liberar o uso, Mato Leitão já havia deixado a critério da população usar a máscara ou não, seja em ambientes abertos ou fechados.
  • A exceção são locais de serviços de saúde, transporte coletivo de passageiros e pessoas com sintomas gripais e doenças crônicas. A decisão também se sustentou na grande cobertura vacinal e de que a última internação por causa da doença aconteceu em julho de 2021.
  • Em Passo do Sobrado, conforme a Assessoria de Comunicação, a informação é de que a Administração, a Secretaria de Saúde e o COE Municipal ainda estão analisando a situação.
  • Já em Vale Verde, também segundo informado pela assessoria, é de que a tendência é seguir pela liberação em ambientes abertos e fechados, com exceção da Unidade de Saúde. A decisão será informada nos próximos dias.
Na farmácia onde Cláudia trabalha, a recomendação é que os funcionários continuem usando máscara (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Farmácias

Conforme a Fiscal de Posturas da Prefeitura de Venâncio, Daniele Mohr, as farmácias não estão incluídas dentro das ‘outras atividades de saúde’ em ambientes fechados. “Nas farmácias muitas pessoas entram apenas para comprar algo, não precisam de máscara para isso. Então o item é apenas para locais onde têm procedimentos e atendimentos de saúde.”

Mesmo assim, por ser um local onde geralmente circulam pessoas doentes, entre muitos profissionais a opção é pelo uso. É o caso da farmácia onde trabalha Cláudia Carolina Barden, 26 anos. “Como é um local onde chegam pessoas com problemas de saúde, a recomendação da nossa rede é que os funcionários continuem usando”, informou a balco farmacista.

Pandemia para endemia?

A máscara foi e ainda é uma espécie de símbolo no combate ao coronavírus, mas com a melhora no cenário mundial, desobrigar o uso apenas segue a esteira de outras medidas de flexibilização, como a possibilidade de frequentar eventos e até mesmo já falar na mudança do status de pandemia para endemia.

Mas, afinal, o que essa alteração de nome significa? Conforme a médica Sandra Knudsen, a diferença entre pandemia e endemia é basicamente o número de casos e o controle deles. “Na pandemia temos uma situação de emergência em saúde pública, as regras são mais rigorosas e a vigilância dos casos também. Já a endemia significa que a doença está mais controlada, com menos casos. Mas isso não significa que vai desaparecer.”

Ainda segundo Sandra, é possível entender o conceito pelo exemplo da dengue. “A dengue é endêmica. Sempre acabam aparecendo alguns casos, a depender da época e da região. Mas não é uma pandemia, que tem casos extensos e sem controle por todos os lugares.”

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