“Não é o momento de interromper o uso de máscara”, alerta infectologista

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Sair de casa com máscara já virou um hábito, mas não há como negar o quanto se espera pelo dia que elas não serão mais necessárias e a vida retorne – pelo menos em parte – ao que era antes da pandemia do novo coronavírus. O que no Brasil ainda é um desejo, já está se tornando realidade em países onde a situação já está mais controlada e com altos índices de vacinação contra a Covid-19. É o caso da França, de Israel e dos Estados Unidos. Na Espanha, o item não serão mais obrigatório ao ar livre a partir do dia 26.

Na semana passada, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, sinalizou a possibilidade, ao anunciar que havia solicitado ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, um parecer para desobrigar o uso de máscaras por pessoas vacinadas contra a Covid-19 ou que já tenham contraído a doença. A declaração gerou polêmica e, mais tarde, Bolsonaro reiterou que havia pedido o estudo, mas a decisão ficaria a cargo do ministro e, principalmente, de governadores e prefeitos. Mas, afinal, a medida é segura?

Para a infectologista Sandra Knudsen, de Venâncio Aires, “não é o momento, de forma alguma, de interromper o uso de máscara”, por conta da alta de casos e de óbitos no país e dos hospitais lotados. “Não podemos largar essa medida, que é uma das mais importantes barreiras para tentar diminuir a circulação do vírus”, enfatiza.

O principal argumento da profissional é de que, mesmo estando vacinada, uma pessoa pode se contaminar e transmitir o vírus. “Nenhuma vacina é 100% eficaz. Mesmo com duas doses, a pessoa pode, sim, se contaminar e até mesmo evoluir para formas graves”, alerta. Além disso, mesmo que a pessoa não tenha um caso grave, pode transmitir para outras, até mesmo sem saber.

De acordo com Sandra, ainda não é possível definir uma data para que se possa sair sem usar máscara. “Vai depender dos números de contaminação, casos, internações, óbitos por Covid. O tempo vai nos mostrar”, afirma, ao observar que a perspectiva de que os indicadores comecem a melhor à medida que aumenta a população vacinada. “Antes de ter 70%,75% da população com imunidade, ele vai continuar circulando como está e vamos precisar manter o distanciamento social.”

“Não é o fato de ter duas vacinas que nos autoriza a não fazer mais uso de máscara, porque nós podemos nos contaminar, e principalmente em respeito ao restante da população que ainda não se vacinou. Não dá para pensar só na gente em uma epidemia.”

SANDRA KNUDSEN – Médica infectologista

Onde a máscara não é mais regra, a consciência fala mais alto

Os 70% de cobertura vacinal na população citados pela médica Sandra Knudsen já são realidade em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Apesar disso, a venâncio-airense Jordana Rex, 26 anos, que reside em Nova Iorque, conta que a grande maioria das pessoas segue utilizando o equipamento de proteção.

“É muito difícil ver alguém sem máscara na rua ou nos parques, onde já não é mais obrigatório, mesmo que o presidente Joe Biden tenha autorizado. Acho que é uma questão de consciência, porque a cidade sofreu muito, foi um baque muito forte”, considera, ao lembrar que Nova Iorque chegou a registrar mil mortes por dia. “Parecia que eu estava em um filme apocalíptico, foram meses terríveis”, afirma a jovem, que mora há três anos e três meses nos Estados Unidos e trabalha em uma instituição sem fins lucrativos.

Ela observa, no entanto, que cada estado norte-americano tem regras próprias e realidades distintas de uso da máscara. Em Nova Iorque, a sensação é que a vida está voltando ao normal, mas sem que a população abra mão da máscara. “Restaurantes e museus já estão operando com quase toda a capacidade”, comenta Jordana. Ela ressalta que, ao mesmo tempo, há uma campanha muito forte para que toda a população se vacine. “Clubes de beisebol estão dando um mês de ingressos grátis para quem se vacinar, companhias aéreas estão sorteando viagens e também estão sendo sorteadas bolsas de estudos de 100 mil dólares entre as pessoas que forem se vacinar. Inclusive os turistas já estão sendo vacinados”, cita.

Jordana, que contraiu o coronavírus no início da pandemia, no ano passado, já está imunizada, com a vacina da Pfizer. “Recebi a primeira dose em março e a outra no fim do mês passado. Fiquei muito emocionada quando fui vacinada”, afirma.

“Mesmo com 70% da população vacinada, é muito difícil ver alguém sem máscara na rua ou nos parques, onde já não é mais obrigatório. É uma questão de consciência, por tudo o que passamos.”

JORDANA REX – Venâncio-airense que mora em Nova Iorque

Relembre

• Em Venâncio Aires, a obrigatoriedade de máscara para toda a comunidade começou em 27 de abril de 2020.
• No Rio Grande do Sul, a medida passou a valer semanas depois, com o Decreto Nº 55.240, de 10 de maio de 2020.
• No Brasil, a obrigatoriedade passou a vigorar em 3 de julho, com a publicação da Lei nº 14.019/2020.

Fiscalização

De acordo com a fiscal de posturas e coordenadora técnica da Secretaria da Fazenda de Venâncio Aires, Daniele Mohr, em geral, as multas estão relacionadas a estabelecimentos comerciais e são aplicadas em casos de reincidência ou dependendo do histórico da empresa com relação ao descumprimento dos protocolos sanitários.

“A fiscalização sempre tende a ser orientativa, com advertência, num primeiro momento, mas dependendo do histórico, se é um estabelecimento que já vem descumprindo as medidas, é aplicada a multa.”

Ela reforça que, em momentos de piora do cenário epidemiológico, como é o atual, as medidas são ainda mais fiscalizadas e exigidas.

Com relação ao número de multas já aplicadas em Venâncio, Daniele explica que ainda não é possível afirmar pois a grande maioria dos processos sanitários não estão concluídos para saber a penalidade que resultaram. O valor da multa segue a legislação federal e pode variar de R$ 2 mil a R$ 75 mil.

Máscaras são oportunidade de renda há mais de um ano

A confecção de máscaras virou oportunidade para a designer de moda Ana Rafaela Pauli, 29 anos. Com o avanço da pandemia e as restrições sanitárias, a profissional precisou interromper as atividades no ateliê para confecção de vestidos de noiva e formatura, no ano passado. “Nas primeiras semanas, aproveitei para tirar umas férias, mas quando vi que a pandemia não iria parar tão cedo, comecei a fazer máscaras para vender.”

A ideia deu tão certo que, em um mês, precisou contar com a ajuda de duas amigas para dar conta da demanda. “Uma ajudava a cortar o elástico e a outra saía para entregar e vender, fazia os fretes”, lembra.

Com o passar do tempo e a vida se adaptando ao ‘novo normal’, os pedidos acalmaram, mas nunca deixaram de aparecer. Atualmente, Ana concilia a confecção de máscaras nas horas de folga, com o trabalho em uma empresa. “Depois daquele primeiro ‘boom’, quando teve até falta de materiais, consegui fazer um estoque de máscaras e seguir fazendo”, conta a designer de Moda, que também foi testando modelos e materiais.

Ana Rafaela começou a confeccionar máscaras no ano passado e segue comercializando as peças Foto: Juliana Bencke/Folha do Mate)

Ela produz as peças nos formatos 3D e bico de pato, com ajuste nasal, o que garante que a máscara fique melhor acomodada no rosto e auxilie quem usa óculos, para não embaçar as lentes. “Uso tecido 100% algodão e também tecido antiviral, com íons de prata que protegem contra o vírus”, comenta.

De acordo com Ana, apesar da expectativa inicial de que as máscaras logo deixadas de lado, como a pandemia ainda não terminou, muitos clientes voltaram para renovar o estoque. “Tenho clientes fixos, revendedoras e também deixo em lojas. Não imaginávamos, mas vamos seguir por um bom tempo usando máscaras.” A designer de moda observa, inclusive, que a máscara virou um acessório e muitas pessoas aproveitam para combinar a cor ou o tecido com a roupa ou faixa de cabelo. “Inclusive já fiz máscaras combinando com os vestidos, para um casamento”, compartilha.

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