Luís Fernando da Rocha Siqueira assumiu a administração nesta semana (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Hospitais de Viamão, Porto Alegre, Uruguaiana e Pelotas. Instituições e municípios muito maiores que Venâncio Aires, mas que talvez não representem a mesma responsabilidade que será administrar o Hospital São Sebastião Mártir (HSSM).

É com esse entendimento que Luís Fernando da Rocha Siqueira já se estabeleceu no município e, desde a última terça-feira, 13, assumiu como novo administrador. Embora sejam apenas quatro dias por aqui, ele destacou qual deve ser o principal desafio: uma gestão austera dos custos do Sistema Único de Saúde. “O controle do custos SUS precisa estar na ponta do lápis.”

Siqueira se refere aos valores pagos aos prestadores de serviços na saúde pública e que deveriam cobrir os custos com os principais procedimentos. É a chamada ‘tabela SUS’, que, segundo ele, não tem reajuste linear há cerca de 15 anos, embora alguns setores sejam eventualmente corrigidos.

Mas, ao invés de esperar por um reajuste, o novo administrador do HSSM entende que é preciso fazer outro esforço na gestão. “Na minha opinião, se houver um pagamento maior do SUS, vai quebrar o sistema de saúde. O que precisamos é baixar os custos e diminuir as diferenças.”

Na prática, se um procedimento custa R$ 100 para o hospital e o SUS envia R$ 70, o desafio não é apenas buscar receitas para completar os R$ 30 restantes, mas tentar diminuir o valor. “O ideal é que o custo total fique em 95%, 90%, por exemplo.”

Controle

De acordo com Siqueira, há um estudo da Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos que o SUS paga hoje o equivalente a 70% dos custos de um procedimento. Diante desse valor, o administrador destaca que o controle passa pela agilidade no tratamento e resolutividade.

“O SUS paga por pacote. Se tem um paciente com pneumonia, o hospital receberá um valor que equivale a quatro dias de internação, porque há estudos que dizem que esse tempo é suficiente. Mas e se o paciente precisar mais tempo? Aí precisamos ver se ele adquiriu outro problema ou é preciso agilizar os processos. É esse custo que precisa baixar.”

Preocupação

Com a pandemia, a saúde pública tem recebido recursos extras em 2020, mas em 2021 isso não está garantido. “A tendência é de escassez de recursos e será necessário apertar ainda mais o cinto. Acredito que o trabalho feito aqui, como a busca de emendas, deve ser mantido no ano que vem.”

A menção de Siqueira foi à ‘maratona’ nos corredores e gabinetes parlamentares, realizadas por uma comitiva venâncio-airense em novembro do ano passado. O objetivo era sensibilizar políticos a destinar parte de suas emendas para ajudar o hospital. A ida a Brasília rendeu e, conforme o administrador, foram garantidos cerca de R$ 4 milhões em recursos.

Segundo o novo administrador, a dívida do HSSM gira em torno de R$ 15 milhões. A maior parte do déficit corresponde a débitos com agências bancárias. Quanto à folha salarial e fornecedores, Siqueira informou que os pagamentos estão em dia.

Convênios

Luís Fernando Siqueira entende que os atendimentos e internações por convênios não podem ser apenas a contrapartida do que falta na tabela SUS, mas o fazer sobrar. Para conseguir esse equilíbrio e incrementar as receitas, o atendimento particular precisa ser atrativo.

“O tratamento é o mesmo, mas a ‘hotelaria’ é diferente e os quartos têm outra estrutura, mais conforto. Por isso sempre digo que, em convênio e particular, quem tem paciente é o médico, não o hospital. Porque é o médico quem deve indicar para o seu paciente onde se internar.”

O objetivo, segundo Siqueira, é fazer com que o HSSM seja uma unanimidade nos serviços que oferece, em comparação com outros hospitais da região. “Quando perguntarmos para os médicos de particulares onde eles indicam que seus pacientes fiquem, a resposta precisa ser o hospital daqui.”

Certificação

Enquanto o hospital está em processo de certificação junto à Unimed, de qualificação, Siqueira destaca que o objetivo é ampliar essa condição, em 2021, junto à Organização Nacional de Acreditação (ONA). A entidade certifica a qualidade de serviços de saúde com foco na segurança dos pacientes.

“O compromisso é maior”

Luís Fernando da Rocha Siqueira tem 45 anos e é formado em Administração Hospitalar pela Unisinos. Também tem MBA em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e está fazendo mestrado em Ciência Política na Universidade Federal de Pelotas.

Sua experiência dentro de hospitais começou há mais de 20 anos e, além de administrador, também trabalhou como consultor de diretorias.

Natural de Viamão, a proximidade com a região metropolitana, onde moram a filha e a mãe, também pesou na mudança para Venâncio – já está morando no município. Com a possibilidade de aliar o pessoal com o profissional, ele assumiu o cargo nesta semana.

Siqueira conta que recebeu diversas propostas, mas nenhuma lhe deu segurança de participar de um projeto como aqui. “A exigência técnica talvez seja menor em relação aos outros hospitais, mas a responsabilidade e o compromisso são maiores. Porque aqui a comunidade é realmente próxima do hospital. Se percebe que todos abraçam a causa e isso não acontece em qualquer lugar.”

Perfil

Segundo o presidente do HSSM, Luciano Spies, a instituição buscava um administrador com o perfil de Siqueira, indicado pela equipe que desenvolveu um trabalho de consultoria neste ano. As tratativas ocorreram em setembro. “Alguém jovem, com disposição para inovar e ao mesmo tempo experiente. Ele gostou muito do nosso hospital, da cidade, e dos desafios que terá pela frente. É um profissional que trabalhou em hospitais maiores, traz vivência e conhecimento de outras realidades, e que irá agregar muito no nosso processo de recuperação e qualidade.”

Luís Fernando da Rocha Siqueira substitui Fernando Branco, que administrou o hospital durante pouco mais de um ano e foi desligado em novembro de 2019.

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