Vista da juventude, a vida pode ser encarada como um longo caminho a ser percorrido, mas é justamente nessa fase da nossa existência que tem crescido o número de suicídios no mundo. Trata-se de uma questão de saúde pública, mas que se evita falar.

O medo de estimular tal comportamento por meio da divulgação dos casos, o sofrimento e a sensação de culpa das pessoas próximas ao suicida e também a ignorância sobre o assunto fizeram dele um tabu social. à sombra desse silêncio, porém, o suicídio figura como a segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos, aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS) – ainda que, estatisticamente, pessoas com mais de 70 anos sejam mais propensas a tirar a própria vida.

Em Venâncio Aires, que historicamente apresenta um dos maiores índices de suicídio do país, também se verifica o aumento do número de casos entre jovens, sobretudo na área urbana. Apesar da ausência de números atualizados, a terapeuta ocupacional especializada em saúde mental ângela Cristina Martins diz que essa tendência se explicita por meio dos casos que regularmente chegam aos serviços de saúde mental do município e causam comoção na comunidade.

Uma das situações mais recentes envolveu quatro meninas de uma escola em um pacto de morte realizado através das redes sociais, que resultou em dois casos consumados e uma tentativa de suicídio ao longo do ano passado e deste ano. O acontecido tem sido acompanhado de perto pelos serviços de saúde, que têm buscado dar suporte aos ‘sobreviventes’, termo utilizado para designar as pessoas próximas àquelas que cometeram suicídio.

VONTADE DE VIVER

Segundo a terapeuta ocupacional, as muitas tentativas de suicídio de que se têm notícia no município são motivo de preocupação. Representam um pedido de socorro, muitas vezes, banalizado pelas pessoas mais próximas, que não entendem e não sabem como lidar com a situação.

Ao tentarem o suicídio, as pessoas estão buscando ajuda. Na real, elas não querem morrer, elas querem terminar com a sua dor, terminar com o seu sofrimento. Elas já não conseguem mais enxergar outra saída que não essa.

Em um momento de impulso, tiram a própria vida.

ângela destaca que agir de forma preventiva passa por educar a população para entender o suicídio e os transtornos mentais, que estão associados à maioria dos casos em âmbito mundial. Salienta que a conscientização de que a questão é um problema de saúde pública estimula a busca por ajuda tanto de quem está pensando em tirar a vida quanto das pessoas próximas que notam essa intenção, que precisa ser levada a sério. “O mais importante é que a pessoa não fique com o pensamento só para si”, ressalta.

TíTULO INDESEJADO

Devido às altas taxas de mortalidade por suicídio no município, Venâncio Aires já ficou conhecida como ‘Capital do Suicídio’. Dados do Departamento de Informática do Sistema único de Saúde (DataSUS) apontam que entre 2007 e 2011 foram registrados 79 casos no município.

A partir de pesquisa realizada entre 2004 e 2008 e mencionada por ângela, constatou-se que os homens são maioria e fazem uso de métodos mais violentos, como por meio de arma de fogo e enforcamento. Já entre as mulheres predomina a ingestão de componentes químicos, como remédios e venenos, o que permite que muitos óbitos consigam ser evitados.

Conforme ângela, também se percebe uma tendência genética devido aos recorrentes casos numa mesma família. “Torna-se cultural, a resolução dos problemas através do suicídio.”

Confira a matéria completa na edição desta sexta-feira, 18 de dezembro de 2015