Um procedimento ainda pouco conhecido pode garantir a reconstituição da flora intestinal de pacientes que sofrem com danos nas mucosas do intestino: o transplante de microbiota fecal. A implantação de um líquido à base de fezes de um doador da família, no intestino grosso do paciente, possibilita uma colonização de bactérias saudáveis e a recuperação das funções normais do órgão.

“É uma opção de tratamento em casos em que a flora intestinal fica modificada pelo uso de antibióticos, em pacientes idosos, pessoas que passaram por quimioterapia, estiveram na UTI ou utilizaram antibióticos por um longo período”, explica o médico coloproctologista Paulo Abrahão.

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateAbrahão explica que, por meio de uma colonoscopia, é possível transplantar bactérias saudáveis para um intestino danificado
Abrahão explica que, por meio de uma colonoscopia, é possível transplantar bactérias saudáveis para um intestino danificado

De acordo com ele, os antibióticos utilizados para combater bactérias ruins também matam as bactérias boas, causando uma destruição da flora intestinal. “É como se ocorresse um desequilíbrio no ‘ecossistema’ intestinal. Isso faz com o clostrídio prevaleça e cause dano à mucosa do intestino, causando a colite pseudomembranosa. Às vezes, isso se torna extremamente grave e, além de diarreia, pode causar inflamações, hemorragia e perfuração intestinal, se não houver um diagnóstico adequado.”

Abrahão esclarece que, embora nunca tenha sido realizado em Venâncio Aires, o transplante de microbiota fecal é conhecido na Medicina desde 1958 e é uma possibilidade para casos resistentes ao tratamento convencional. “Pretendemos fazer, em breve, esse transplante. Se houver necessidade, o hospital tem todas as condições de realizar, pois se trata de um procedimento simples. Em 90% dos casos, um procedimento desses é suficiente para restaurar a flora intestinal do paciente.”

Como funciona

O transplante de microbiota fecal ocorre a partir da doação de fezes por um familiar do paciente. “Pode ser o pai, a mãe, um irmão, um primo, algum familiar saudável que não tenha utilizado antibiótico nos últimos três meses”, afirma o médico Paulo Abrahão. A pessoa realiza a coleta de 50 a 100 gramas de fezes, em casa, em um recipiente. A partir disso, o material precisa ser preparado em, no máximo, seis horas, para que seja realizado o transplante. As fezes são diluídas em soro fisiológico, liquidificadas e, posteriormente, centrifugadas.

O resultado desse processo é um líquido espesso, que contém a microbiota normal. A introdução dele no intestino grosso do paciente pode ocorrer de quatro formas: endoscopia, colonoscopia, enema e sonda nasogástrica.Para Abrahão, a colonoscopia é a melhor opção pois permite que a inserção de 300 a 400 mililitros do líquido ocorra com o paciente sedado.

Além disso, a técnica possibilita a visualização do intestino grosso, com uma microcâmera, e a aplicação do líquido nos pontos de maior inflamação. “Em geral, a colite ocorre mais no reto e no sigmoide. Com a colonoscopia, é possível visualizar isso e realizar o transplante das fezes nos pontos exatos”, observa.

O procedimento dura de 20 a 30 minutos e, de acordo com o médico, o ideal é que as fezes transplantadas permaneçam em contato com o intestino por cerca de duas horas. “O intestino doente vai absorver essa colonização de bactérias saudáveis, elas vão interagir e restaurar a flora intestinal do paciente que foi destruída pela ação dos antibióticos”, explica Abrahão.