Cerca de quarenta passos dividem a caminhada diária de Selma Müller, 89 anos, até um local sagrado. A moradora de Linha Arroio Grande tem um compromisso, há exatos 34 anos: tocar o sino da Igreja Evangélica da localidade. Um trabalho voluntário, que faz com boa vontade e dedicação.

Tudo começou em 1949, quando Selma se casou com Kuniberto Müller e saiu de sua terra natal, Vila Santa Emília. “Nós nos casamos na igreja da cidade, porque aqui não tinha. Os cultos da comunidade evangélica eram no Salão Riograndense, mas o casamento foi lá fora”, lembra.

A agricultora aposentada conta, que em 1979 a comunidade de Linha Arroio Grande mobilizou-se para a construção de uma igreja. “Cada sócio ajudou um pouco, com o que tinha. Eram umas vinte famílias evangélicas. E no dia 20 de abril de 1980 a pedra fundamental foi lançada”, recorda.

Porém, a igreja foi inaugurada sem o sino. “Depois de alguns anos, nós já utilizávamos a igreja e, em setembro de 1994, recebemos uma verba da Alemanha para a compra do sino e de cadeiras estofadas.” No dia 22 daquele mês, uma assembleia aconteceu, informando os sócios de uma doação da Alemanha no valor de mais de 7,5 milhões de cruzeiros, para a aquisição do sino.

Foto: Rosana Wessling / Folha do MateSelma executa um trabalho que não é mais realidade em comunidades vizinhas, onde o sino já toca automaticamente
Selma executa um trabalho que não é mais realidade em comunidades vizinhas, onde o sino já toca automaticamente

DIE ANKUNFT DER GLOCKE *Com a memória rica em detalhes, Selma recorda que em 1985 ocorreu a festa de inauguração do sino. “A Annita Rosina Peiter foi a madrinha do sino e, naquele dia, nós duas juntas puxamos o sino pela primeira vez na comunidade.” Mal sabia ela, que seria convidada para realizar a atividade diariamente, pelas próximas décadas.

Ao ser questionada como aprendeu a tocar o sino, Selma enfatiza: “É bem fácil, aprendi logo. Hoje devido minha idade, o que cansa é puxar o sino quando alguém morre, são 45 minutos. Eu puxo a corda três vezes e preciso fazer força para segurar ela, porque não pode tocar de novo, tem que dar a pausa de 10 segundos antes de tocar de novo”, explica.

A idosa encara a atividade como profissão. “As pessoas se orientam com o sino. Às 11h30min não posso falhar, pois muitos estão na roça e escutam o sino, é hora de ir para casa. Quando eu ainda ia na roça voltava especialmente no horário para avisar os vizinhos que estava na hora, eu não posso atrasar, é importante para eles.”

Além desse horário, o sino também é badalado à tardinha, nos cultos e casos de falecimentos. Antigamente, quando Selma tocava o sino pausadamente, avisando a perda de um amigo da comunidade, vinham até ela em busca de notícias. Hoje, com a tecnologia, quem toca na sequência é o telefone. Pode parecer um aviso qualquer, mas quando ‘falha’, a preocupação corre solta. “Uma vez precisei ir no médico para fazer uma consulta e não voltei no horário do meio-dia, daí ligaram para minha família perguntando onde eu estava, se estava bem.”

*A chegada do sino

Tenho orgulho de ser a responsável pelo sino da comunidade. Nunca pensei que ia ser convidada, era nova na época. E me orgulho, de junto da Anita, ser a primeira a puxar o sino da nossa comunidade e seguir até hoje. Minha família já pediu para largar o compromisso, mas enquanto eu estiver aqui e puder, vou fazer com muito prazer e boa vontade.”SELMA MÜLLERMoradora de Linha Arroio Grande

Foto: Rosana Wessling / Folha do MateKuniberto e Selma celebram 70 anos de união em setembro
Kuniberto e Selma celebram 70 anos de união em setembro

Companheiro fiel nas idas à igreja

Foto: Rosana Wessling / Rosana WesslingBobi acompanha Selma todos os dias e a espera no portão de entrada da igreja
Bobi acompanha Selma todos os dias e a espera no portão de entrada da igreja

Há 7 anos, Selma Müller não puxa o sino sozinha. Ela têm um companheiro que a segue e aguarda até a conclusão do compromisso. Da cor preta com manchas brancas, o cachorro Bobi, amigo fiel da senhora, a espera no portão da igreja. “Se a gente deixasse ele ia participar do culto, porque sempre fica aqui sentado esperando, é o meu amigo, meu xodó”, enfatiza.

Apaixonada pelas lidas do campo, Selma adora ir para a roça, cultivar aipim, batata, feijão, milho e cuidar dos animais. “Hoje tenho só um terneiro, mas gosto muito de cuidar dos meus bichinhos.”

Reconhecimento da Comunidade Evangélica

O pastor da Comunidade Evangélica, Lair Hessel, explica que existem muitas maneiras de servir a Deus e à comunidade. Ele enfatiza a gratidão e o reconhecimento à Selma.“A dona Selma, encontrou o seu caminho: durante anos responsabilizou-se pelo badalar do sino da Igreja Evangélica de Arroio Grande. Sabemos que ela sempre o fez com capricho, com zelo e com alegria.”

Nem sempre Selma anunciou horário e alegrias, teve dias de tristeza. “Movimentado pelas mãos de Selma, o sino da nossa igreja badalou em dias de alegria e de regozijo: para o culto, festa, casamento e celebração de bodas. Mas anunciou também, muitas vezes, a tristeza, a despedida e o luto. Marcou, pois, pelas mãos de dona Selma, os altos e os baixos, as chegadas e as partidas de toda uma comunidade.”

Percepção de repórterHoje, Selma se recupera de problemas de saúde, ficou alguns dias sem tocar o sino, quando a atividade foi realizada pelos filhos e netos que moram próximos à idosa. A entrevista foi realizada na quinta-feira, 14, toda em língua alemã e marcou a retomada do trabalho. Acompanhada por mim, a idosa fez o trajeto até a igreja, tocou o sino e garantiu que daria sequência à atividade. “Wenn es mir nochmal besser geht, läute ich wieder die Glocke.” Para quem não lê em alemão, segue a tradução: “Quando eu ficar melhor vou voltar a puxar o sino.”

CultosO casal Müller tem cinco filhos, três mulheres e dois homens. Desde que a residência foi fixada na localidade, a participação nos cultos já fazia parte da rotina da família. “Desde o dia que a igreja foi inaugurada nunca faltei um culto, isso é um compromisso”, orgulha-se Selma.