Tiloca e o laço de uma vida com o bairro Aviação

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Quem chega hoje no bairro Aviação, em Venâncio Aires, não imagina como o local era há 53 anos. Essas mudanças causadas pelo tempo estão guardadas na memória de Tiloca Frantz, 81 anos. Uma das moradoras mais antigas do bairro, ela lembra que em 1967, quando veio do interior de Santa Cruz do Sul para a Capital do Chimarrão encontrou apenas um “trilho” no meio do mato para acesso ao bairro que hoje está em constante desenvolvimento.

Vinda da cidade vizinha acompanhada do marido Beno Antônio Frantz (in memorian), da filha Liane Staffen e grávida da segunda filha do casal, Rosane Teresinha Frantz, foi no local que a família fixou residência e vive até hoje. “Quando chegamos não tinha água. Precisávamos buscar no centro”, lembra a aposentada. Alguns anos se passaram até que água encanada e luz elétrica fossem uma realidade para a família que chegou sabendo falar apenas o alemão.

“Aprendemos a falar português aqui com alguns vizinhos”, complementa Tiloca. Vizinhos esses que foram solidários e ofertaram água à família. “Não sabíamos nada, fomos mostrando em gestos e com o tempo aprendemos que ‘wasser’ era água em ‘brasileiro’. Eles nos ensinaram o português, mas não aprenderam o alemão”, conta, entre risos. E foi com a família de Erli de Oliveira que os Frantz criaram um laço e puderam contar em diferentes situações ao longo desses 53 anos.

Os primeiros anos na terra do chimarrão foram difíceis. “Ficamos uma semana morando aqui embaixo de uma lona até que conseguimos construir a casa”, recorda sobre a residência que ergueram e moraram durante 30 anos. Hoje, uma nova estrutura foi erguida no local.
Entre as inúmeras lembranças com o bairro, Tiloca lembra que não tinha nenhuma casa próxima da sua. “Ali onde hoje é a escola Dois Irmãos era só mato”, acrescenta.

Crôche

Entre as inúmeras ‘páginas da história’ escrita no bairro Aviação, muitas foram felizes e ao lado da família. Enquanto conversa com a reportagem, é possível visualizar que um amor da infância é cultivado ainda nos dias atuais: o crochê. “Eu tinha cinco anos quando comecei a aprender com dois pauzinhos de madeira e um pedaço de linha de uma roupa. No outro dia, a mãe foi na cidade e comprou as agulhas pra mim”, lembra, enquanto segura em mãos um de seus crochês feitos em panos de prato. O amor por essa arte é passada para a bisneta, Sophia Isabelly da Rosa, 6 anos, que tenta dar os primeiros pontos com a agulha.

Além disso, a pequena também tem outra missão na vida da bisavó: a de ensinar sobre tecnologia. Adepta às redes sociais, ela garante que aprendeu com Sophia e que hoje consegue aprender crochê, conversar com parentes que moram em outras cidades e, inclusive, pesquisa receitas. “Agora estou olhando como fazer aquelas bonecas de crochê”, acrescenta. Uma das coisas que mais gosta de assistir através do Facebook são as transmissões ao vivo das missas na Igreja Matriz São Sebastião Mártir. “A Sophia também gosta muito que eu conte da infância e de como brincávamos na época”, conta a idosa, que é de uma família com oito irmãos.

A aposentada tem quatro netos: Carolini Andreia Severo, Adair Adair Roberto Sttafen, Ana Roberta Sttafen e Gabriel Luís Sttafen e dois bisnetos, Mateus Joaquim Pereira e Sophia.

Trabalho

Depois de chegou em Venâncio, Tiloca conta que ficou algum tempo sem trabalhar porque não tinha onde deixar as duas filhas. No entanto, esse cenário mudou quando elas cresceram um pouco e a família Oliveira auxiliou no cuidado com as crianças. Isso foi o que contribuiu para que Tiloca iniciasse seu vínculo com a antiga Fumossul, em 1972. “Alguns anos eles trouxeram o fumo aqui para que eu conseguisse algum tipo de renda também”, recorda. Quando se aposentou, em 1994, cuidou da neta Carolini. Hoje, divide a rotina diária na companhia da bisneta.

A bisneta Sophia está sempre com a bisavó com quem compartilha ensinamentos (Foto: Ana Carolina Becker/Folha do Mate)

Tiloca: “Deus é bom comigo”

Ao lado do sofá, pendurada em uma cadeira e com uma capa em crochê roxo está a sonda que Tiloca usa há nove anos, depois de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e a bexiga parar de funcionar. No entanto, esse não foi um empecilho para que a vida seguisse e com muita fé mesmo que ela seguisse impondo desafios.

Nos anos 2000, a moradora do bairro Aviação descobriu e tratou um câncer no útero. O tratamento foi feito ao longo de 38 dias com radioterapia em Porto Alegre. “Fiquei lá em uma casa onde precisava pagar um R$ 1 por dia”, conta. Após vencer a doença, retornou e seguiu com a vida na Capital do Chimarrão.

Seguindo as orientações médicas, sempre realiza os exames de pré-câncer de forma rotineira. Há seis anos, depois de realizar o exame no posto de saúde do bairro, a filha Liane que mora ao lado da residência da mãe, conta que recebeu uma ligação da enfermeira solicitando que fosse até o posto “Já imaginei que tinha algo diferente no resultado”, recorda a filha. Os profissionais da saúde acabaram solicitando um novo exame de pré-câncer e fizeram um encaminhamento para uma médica de Venâncio. Era câncer novamente. “Eu cheguei a marcar a data da cirurgia, mas na segunda-feira de manhã antes da operação a mãe me disse para desmarcar que não ia fazer”, complementa Liane.

Tiloca enfatiza que, na época, optou por não fazer a cirurgia que poderia deixar algum tipo de sequela. “O médico bateu nas minhas costas naquele dia e disse que eu tinha ganhado na loteria”, diz ela, ao se referir ao fato de não ter feito a cirurgia. Hoje, a aposenta luta contra o câncer no útero, no intestino e na bexiga. “Eu tenho câncer, mas na minha cabeça eu não tenho.”

A gaita

  • Entre as inúmeras lembranças de Tiloca está uma gaita comprada de Gabriel Thesing e vendida um tempo depois por R$ 500. “Eu gostava muito de tocar, mas nunca aprendi direito”, destaca.

Memórias da infância

  1. As idas para a escola, conforme a aposentada, eram sempre de pé no chão. “Os chinelos de madeira eram muito duros”, lembra, entre risos.
  2. O ‘caderno’ era o quadrinho que se escrevia e logo depois apagava.
  3. Conforme Tiloca, na época, ninguém ganhava merenda nas escolas. “Eu sempre levava pão com ovo ou açúcar em um saquinho de açúcar”, recorda.

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