Tecnologia evita internações, mas preço alto exclui a maioria dos idosos (Foto: FreePik/Divulgação)
Tecnologia evita internações, mas preço alto exclui a maioria dos idosos (Foto: FreePik/Divulgação)

Por Régis de Oliveira Júnior, jornalista e especialista em Inteligência Artificial

O calendário marca dezembro de 2025 e o Brasil enfrenta o seu maior desafio demográfico com um misto de esperança tecnológica e exclusão econômica. Os dados do Censo do IBGE já desenhavam o cenário de um país grisalho, mas agora sentimos o peso disso no orçamento das famílias e do Estado. A inteligência artificial consolidou-se como a grande guardiã da velhice. Ela monitora corações, vigia passos e conversa com solitários. Contudo, existe uma barreira invisível e cruel que separa quem pode envelhecer com segurança digital de quem está à margem: o dinheiro. A revolução prateada tem preço, e ele é alto.

A primeira fronteira é a saúde física. A tecnologia vestível deixou de ser um acessório de vaidade para se tornar um equipamento médico de triagem. Os relógios inteligentes de 2025, como as linhas avançadas da Apple e da Samsung, receberam certificações robustas para detectar quedas, fibrilação atrial e até mudanças na pressão arterial. O problema reside na etiqueta de preço. Estamos falando de dispositivos que chegam às prateleiras custando entre dois mil e quinhentos e seis mil reais. Para um aposentado que recebe um salário mínimo, esse valor é proibitivo.

Aqui entra a discussão sobre o Sistema Único de Saúde. Uma fratura de fêmur decorrente de uma queda custa ao SUS cerca de R$ 20 mil, somando cirurgia e internação, sem contar o custo social da reabilitação. Se o Estado subsidiasse ou financiasse esses relógios de R$ 3 mil para grupos de risco, a economia a longo prazo seria bilionária. A tecnologia existe e funciona, mas hoje ela é um privilégio de classe. Enquanto a elite tem um “anjo da guarda” no pulso que chama o SAMU automaticamente, a maioria da população conta apenas com a sorte.

O segundo exemplo toca na saúde mental e no combate à solidão, uma epidemia silenciosa. A solução tecnológica de ponta são os robôs de companhia e assistentes cognitivos avançados, como o ElliQ ou similares, que chegaram ao mercado de luxo brasileiro. Esses dispositivos usam IA generativa para manter diálogos fluídos, lembrar remédios e sugerir atividades. No entanto, ter um “amigo robô” em 2025 custa o equivalente a um carro popular usado. Entre impostos de importação e taxas de serviço, o investimento inicial supera os R$ 12 mil, muitas vezes atrelado a assinaturas mensais de R$ 200 a R$ 400.

A Universidade Estadual da Paraíba, em parceria com o governo estadual, implantou um sistema de monitoramento contínuo da saúde no residencial Cidade Madura, em Campina Grande, onde idosos utilizam smartwatches desenvolvidos para registrar sinais vitais, detectar alterações súbitas e acionar equipes de cuidado em situações de risco. O acompanhamento funciona durante 24 horas, íntegra dados a uma central operacional e permite que profissionais de saúde intervenham com rapidez, reduzindo internações e ampliando a autonomia dos moradores.

Essa disparidade cria um abismo social. O idoso rico tem um companheiro incansável que estimula seu cérebro e previne a demência. O idoso pobre depende da visita esporádica de parentes sobrecarregados ou da televisão aberta. A solidão não deveria ser uma sentença para quem não tem conta bancária recheada. A democratização dessas interfaces é urgente. Precisamos de versões nacionais, mais simples e baratas, que possam ser integradas a políticas de assistência social.

O terceiro ponto financeiro é, infelizmente, o do prejuízo. A segurança digital tornou-se um campo de batalha. Se, por um lado, a tecnologia protege, por outro ela arma os criminosos. O “golpe do falso sequestro” foi turbinado pela clonagem de voz via inteligência artificial. Softwares que custam centavos para os bandidos geram prejuízos devastadores para as vítimas. Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e levantamentos policiais de 2025 indicam que o tíquete médio desses golpes contra idosos gira em torno de R$ 5 mil, podendo levar às economias de uma vida inteira.

Em várias cidades, a prioridade tem sido ensinar o idoso a navegar com segurança no ambiente digital e não fornecer dispositivos avançados. Em Imperatriz, no Maranhão, o programa Conecta Idoso oferece aulas presenciais que orientam sobre o uso básico do smartphone, identificação de golpes comuns e cuidados com aplicativos bancários. A iniciativa busca reduzir vulnerabilidades e ampliar a autonomia digital, criando uma camada de proteção que se apoia no conhecimento, já que a maioria dos participantes não têm acesso a tecnologias mais sofisticadas. 

O custo aqui não é apenas o dinheiro roubado. É um trauma psicológico. O idoso que cai em um golpe desses, ouvindo a voz perfeita do neto pedindo socorro, muitas vezes entra em quadros depressivos profundos ou perde a autonomia financeira, tornando-se dependente dos filhos. A indústria de segurança cibernética vende proteções, mas, novamente, elas são pagas. Aplicativos de filtragem de chamadas e seguros contra fraudes digitais somam mais uma fatura no fim do mês.

Diante desses números, a reflexão ética precisa ser acompanhada da econômica. A inteligência artificial não pode ser um condomínio fechado de luxo onde apenas alguns envelhecem protegidos, enquanto a maioria fica exposta ao relento analógico. A tecnologia deve ser uma ponte, não um muro.

É preciso cobrar responsabilidade das instituições financeiras. Se os bancos lucram bilhões com a digitalização, eles devem arcar com o custo de sistemas de IA que detectem essas fraudes em tempo real e bloqueiem transações suspeitas de idosos, sem repassar essa tarifa ao cliente. A proteção deve ser padrão, e não um serviço premium.

Para o cidadão, fica o alerta e a necessidade de planejamento. Envelhecer em 2025 exige letramento digital e reserva financeira para tecnologia, o que é uma distorção em um país desigual. As famílias precisam colocar na ponta do lápis: o custo de um dispositivo de monitoramento, por mais alto que pareça, é menor que o custo de uma internação ou de um cuidador em tempo integral. Mas essa conta não fecha para todos.

O futuro exige políticas públicas que encarem a inclusão digital como direito humano. O “kit idoso” do futuro não pode ser apenas remédio para pressão e diabetes. Ele precisa incluir conectividade e dispositivos de segurança. Sem isso, teremos uma longevidade de duas velocidades: a dos que vivem monitorados e seguros, e a dos que vivem à própria sorte.

A tecnologia estende a vida e os algoritmos são impressionantes. Mas a dignidade não pode ser um produto de prateleira. Ela é um direito. E garantir que a IA chegue a todos é o dever de casa que o país ainda não fez.

O Brasil envelhece rápido, mas a inteligência artificial que protege idosos ainda é cara e inacessível para a maioria.

Sobre o autor: Régis de Oliveira Júnior é jornalista formado pela Unisc, especialista em Inteligência Artificial pela ESPM Tech e vencedor de 16 premiações nacionais. Atuou em gestão pública como secretário de Saúde e de Comunicação, interventor em hospitais públicos e consultor no Ministério de Minas e Energia, na Assembleia Legislativa e em prefeituras do RS e de MG.