Almedão
Foto de Almedão clicada em julho de 2020, durante entrevista que marcou os 80 anos dele (Foto: Letícia Wacholz)


Quando uma figura pública morre, os veículos de comunicação preparam conteúdos especiais para registrar a trajetória e destacar o legado de quem, em muitos casos, marcou uma nação inteira. É assim com nomes da música, da televisão, do esporte e da política. Em âmbito nacional, a morte de um cantor, apresentador de TV, jogador de futebol ou presidente da República mobiliza grandes coberturas, à altura do que aquele ídolo representa. No jornalismo local, esse papel não é diferente. Pelo contrário, talvez seja ainda mais desafiador, pela proximidade dos vínculos e pelo sentimento de despedida que está na esquina, nas rodas de conversa, na fila do mercado, na Câmara de Vereadores onde muitas figuras ilustres costumam ser veladas.

Capa da edição desta quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Cabe aos veículos locais e regionais, a missão e a responsabilidade de evidenciar quem são os nossos ‘Pelés’, as nossas figuras populares e fundamentais para a história de uma cidade inteira. Registrar quem foram é um gesto de homenagem e respeito, mas também um compromisso com as próximas gerações.
Em Venâncio Aires, é unânime afirmar que Almedo Dettenborn é o nome mais popular das últimas décadas. Três vezes prefeito — foram 14 anos à frente do Executivo Municipal —, Almedo construiu uma trajetória que ultrapassou os limites da política. Almedão, como todos o conheciam, era aquele homem de voz potente e 1,81 metro de altura, estatura que lhe garantiu a posição de zagueiro do Guarani.

Fez história como o prefeito dos ginásios municipais e ‘lutou’ pela vinda de novas empresas. Foi o gestor que mandou instalar um outdoor no trevo da cidade para destacar Venâncio como campeã nacional na geração de empregos. Foi também fundador da Assoeva, idealizador do Parque do Chimarrão e criador da Festa Nacional do Chimarrão, um dos maiores legados culturais do município.
Quando Almedo encerrava o terceiro mandato como prefeito, eu iniciava minha trajetória no Jornalismo. Mas, como ouvinte e leitora assídua, cresci ouvindo e lendo sobre o Almedão. Ele já estava fora dos “palanques políticos”, quando tive a oportunidade de entrevistá-lo em poucas ocasiões. Uma delas ocorreu durante um trabalho da faculdade, sobre a história da Fenachim. Dessas prosas, aliás, ficaram informações exclusivas, guardadas até hoje para um projeto especial.

Registro da entrevista que fiz em julho de 2020, às vésperas do aniversário de 80 anos de Almedão

A última entrevista foi em julho de 2020, em meio à pandemia de Covid-19. Na ocasião, produzi uma reportagem para a Folha do Mate para marcar os 80 anos de Almedo. Já tinham se passado três anos do acidente doméstico que mudou a rotina daquele homem tão ativo, apaixonado por futebol e por uma boa partida de bocha entre amigos. Mesmo com dificuldades na fala, ele relembrou momentos marcantes da vida pessoal e da trajetória pública. Emoção não faltou. Almedo se emocionou diversas vezes e, com os olhos marejados, disse uma frase que me marcou: “Sinto falta de conviver com o povo”.

Lembro do frio na barriga por estar diante de um gestor que marcou gerações em Venâncio Aires e que foi responsável por escrever um dos capítulos mais especiais da história do município: a criação da Festa Nacional do Chimarrão. Aliás, foi com o chimarrão em mãos e uma camiseta da Assoeva sobre o peito, que aconteceu a nossa última prosa. Essa também foi a última entrevista concedida por Almedo Dettenborn a um veículo de comunicação, o jornal Folha do Mate, que hoje compartilha com os leitores a despedida deste que é, para muitos, “o prefeito dos prefeitos”.

Capa da edição que marcou os 80 anos de Almedo Dettenborn
Reportagem especial publicada em julho de 2020 contou com duas páginas
Reportagem abordou trajetória política e participação na comunidade