29 de fevereiro

Hoje é 29 de fevereiro. Uma oportunidade, dizem alguns bordões (ou memes) que versam sobre empreendedorismo. Nunca tive uma coluna publicada neste dia, tampouco tendo a própria data como assunto preponderante. É muita emoção. O que você já fez num 29 de fevereiro? Difícil de lembrar, né? Vamos dar um desconto: esse dia só acontece de quatro em quatro anos. Se não conseguimos lembrar nem quem foram os candidatos em quem votamos em igual período, imagina preservar memórias de um dia que, ainda por cima, costuma cair em época de pura e turva ressaca carnavalesca.

Quantas músicas já ouvimos em nossas vidas que foram verdadeiros 29 de fevereiro nas carreiras de seus executores? Paulo Ricardo e o RPM são convidados para ir à TV até hoje por causa do disco Revoluções por Minuto, o debut da banda, de 85. Rádio Pirata, Olhar 43, A Cruz e a Espada… está tudo lá. O Ultraje a Rigor de Roger Moreira não é tão diferente com Nós Vamos Invadir Sua Praia. Também disco de estreia, no mesmo ano, igualmente carregado de pérolas, como a faixa-título, Rebelde sem Causa, Ciúme, Inútil, Marylou e por aí vai. O que dizer do Los Hermanos? Certo, muita gente lembra deles para detestá-los pelos mais variados motivos, mas musicalmente são e serão sinônimos vitalícios de Anna Júlia, um 29/02 parido em 1999.

O 29 de fevereiro, lembremos, é a reposição de uma sobra. A Terra demora 365 dias e mais cinco horas, 45 minutos e 46 segundos para dar a volta completa ao redor do sol. A cada quatro anos, arredonda-se isso para seis horas, transforma-se num dia completo e… eureca! É como o 13º salário: o ano tem 52 semanas, mas sem ele você só ganharia 12 pagamentos, referentes a quatro semanas cada. OK, tal qual o calendário, a lógica trabalhista pode se modernizar, mas pagar o complemento não chega a ser o ataque sanguinário deste câncer chamado trabalhador contra o pobre e indefeso empresário, como volta e meia tentam vender para você. É mais matemático e racional que boa parte das coisas do dia a dia.

Este 29 de fevereiro é sinônimo de ano bissexto, que, por sua vez, remete a período olímpico e eleitoral. Aos atletas, é preciso juntar todo o sacrifício repartido em quatro anos de preparação, para transformá-lo em desempenho, resultados, medalhas, na obtenção do próprio êxito e superação, que valem muito mais do que um adereço de pendurar no pescoço. Aos políticos, é hora de acumular o mínimo possível feito no período para tentar se reeleger. Mostrar a valeta limpa como se canalizasse um bairro; a draga tombada como se fosse para a construção de lago ou barragem para captar água; ou um caro aquário seco com a suntuosidade de um novo parque temático. Transformar em votos o resultado de quatro anos de reuniões que levam horas e não são concluídas, para assuntos que qualquer normal resolveria via WhatsApp.

Que bom se algumas práticas fossem raras como o 29 de fevereiro, não corriqueiras como o andar do ponteiro de um relógio…

O 29 de fevereiro é alheio a isso. É poesia pura. É as semanas não pagas transformadas em salário. A comida de ontem que virou carreteiro. É Macarena e Mambo No. 5, Virgulóides e Fat Family, Vanessa Rangel e Tetê Espíndola. É a estrada do amigo arrumada convertida em voto, a bandeira na esquina balançada transformada em cargo. É o Carnaval fora do Carnaval, sem segurança armado, corte ou microfone. Não chega a ser mãe, pai e avô nem início, fim e meio. Só é ímpar demais para a gente esperar por quatro anos pra fazer algo de bom nele. Façamos hoje.

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