Catarse

A vida real e as redes sociais mataram a música. Ao menos em várias de suas facetas. Quando a música era de fato relevante, mesmo a tristeza era poética – e até bela, por mais sádico que isso possa soar. Era a catarse. Uma canção lamuriosa, fosse lenta ou acelerada, curta ou longa, pesada ou suave, era a expressão de sentimentos profundos, quase cavernosos. O escarro de processos mentais que levavam uma vida para amadurecer. E eram externados. Berrados ou sussurrados, agressivos ou polidos, de modo a imergir emissor e receptor da mensagem numa mesma frequência.

Transcendental

Veja: não se tratam de músicas de amor ou baladas para chorar – de emoção ou vergonha, conforme a canção e o contexto. Ouvir No Quarter, do Led Zeppelin, no silêncio e escuridão do próprio quarto – este não é um trocadilho, por favor –, quando já se aproximava a hora do Jô Soares na TV, era uma experiência transcendental. A melancolia transformada em arte. Sete minutos intensos e taciturnos. Prostração na voz sussurrada de Robert Plant e no piano conduzido pelo baixista John Paul Jones, num contraste com o berro furioso da guitarra guiada pelo pedal fuzz de Jimmy Page. O modo primitivo e selvagem do homem a serviço da arte e vice-versa.

No buraco

A vida líquida e efêmera que vivemos hoje destruiu a elevação estética de quase tudo, ao passo que acelerou e escancarou a dureza do dia a dia. Uma rápida passagem pelo noticiário da semana faz qualquer um mergulhar em fosso de solo formado por areia movediça.Vejamos: Filipe Luís, lateral da Seleção Brasileira, chega ao seu novo clube, o Flamengo, com uma camiseta do Iron Maiden. E, pasmem, é criticado: o mascote Eddie estampado à frente é utilizado como símbolo por torcida organizada do rival Vasco. No estádio, mãe e filho – uma criança –, torcedores de um clube são, hostilizados por adeptos do outro, em plena área de torcida mista, por terem ganhado uma camisa de seu time. É Down in a Hole pra Layne Staley nenhum botar defeito.

Apocalipse

Enquanto isso, o governo anuncia que vai liberar o saque do FGTS para que você melhore suas finanças com o seu próprio dinheiro, mas limita a cota a 500 míseros taokeis. O gestor máximo, como se o trânsito já não fosse belicoso o suficiente, dobra a cota de infrações toleradas e agora fala em acabar com a necessidade de autoescola –quando o que poderia servir de algo é transformar aulas de direção em testes duros, que eliminassem a grande massa de nós cegos à solta em seus volantes. Aqui, o apocalipse: da torre do castelo, o rei se queixa das queixas de quem o paga, da revolta popular gerada pelas próprias bobagens e diz que, no final, sobra tudo para a administração resolver – quando esta, afinal, é a única razão de a mesma existir. Sad but true.

Três acordes

# Onde foram parar aqueles tão saudosos dias em que a vontade de verter lágrimas era quase pueril e tão mais sonoramente adornada?
# Surgia à audição de Child in Time, Dogs, Ballad of a Thin Man ou Behind Blue Eyes. Não ao abrir o Facebook ou o jornal local.
# Com um dia a dia desses, desligue tudo ao redor e ouça um verso que Cazuza cantava, com extrema propriedade, ecoar no fundo de sua mente: eu ando tão down. Nada é por acaso.

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