Estranha odisseia

Música

Era 20 de julho de 1969, portanto há 50 anos, quando o homem pisava pela primeira vez na lua. A trilha sonora oficial, à época e na comemoração do cinquentenário? Space Oddity, de um então iniciante David Bowie. A canção fora escrita e gravada no ano anterior, inspirada no filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço. O título fazia um trocadilho entre as palavras Oddity (estranheza) e Odissey (odisseia). O relançamento da música, nove dias antes da chegada da tripulação comandada por Neil Armstrong ao quinto maior satélite natural do sistema solar, foi deveras útil para alavancar a carreira daquele jovem, até pouco antes conhecido por seu nome de batismo, David Jones.

Dúbio
Oportuno para a ascensão da carreira de Bowie, nem tanto para o momento: a dúbia letra, sobre a história do Major Tom, é de desfecho pessimista. O astronauta, um heroi da corrida espacial, é tomado por rompante autodestrutivo e se desconecta do comando da nave e da própria Terra, sendo condenado a passar a eternidade como mero dejeto espacial. Ainda assim, a TV britânica BBC escolheu a canção como a trilha sonora oficial da transmissão ao vivo para o desfecho da missão Apollo 11. Ninguém sabe ao certo se o homem realmente foi à lua – vide teorias da conspiração. Ninguém entendeu o que Bowie quis dizer em sua letra. Ou ao menos isso teve importância secundária.

Mundo da lua
O homem chegou ao solo lunar há meio século, mas é hoje que, mais do que nunca, parecemos viver no mundo da lua. Vejamos: o governo acredita que poupará 900 bilhões de taokeis em dez anos com a reforma da Previdência. Mais de 10% deste valor é o que o Congresso Nacional gastará em igual período, mas para estes, lógico, não há reforma ou sequer crise. O que a celebrada e contestada Operação Lava Jato diz ter recuperado em cinco anos, cerca de 13 bilhões, o parlamento gasta em pouco mais de 14 meses – período que renderia o despejo ao Seu Madruga, ou a qualquer outro cidadão normal, se ficasse sem pagar o aluguel de uma casinha humilde. Coisa de lunático.

Grande show
Enquanto isso, no sul do mundo, a Havan, cuja instalação em Santa Cruz do Sul foi confirmada em março, anuncia a inauguração de sua megaloja na cidade vizinha para daqui a dois meses. Em lote de 25 mil metros quadrados, área construída de 8,4 mil metros quadrados e investimento de 30 milhões de taokeis. Aqui, não se consegue administrar 300 mil dinheiros, do meu e do seu, para reformar uma singela praça, cujas obras iniciaram em janeiro. Não está pronto sequer o novo banheiro, com estonteantes 45 metros quadrados de área construída. Como a chegada à lua ao som de Space Oddity, seria um show e tanto para ser transmitido ao vivo, mas não se sabe em que horário: a fronteira entre o humor e o horror é mais tênue do que duas ou três letras.

Três acordes
# Se o Major Tom ficou como ficou na canção de David Bowie, mesmo oriundo de algum rico recanto do hemisfério Norte e protagonista na briga pela supremacia espacial, imagine o que sentiria se vivesse neste país. E fosse parte da briga, eterna e sem previsão de mudança, entre quem gere e quem sustenta a coisa pública.
# Bowie, o camaleão, foi capaz de imaginar o marciano Ziggy Stardust e o andrógeno alienígena Aladdin Sane. Preparou um disco de despedida e o lançou no dia do próprio aniversário de 70 anos, dois antes de sua morte – ocorrida, juram alguns, por suicídio assistido.
# É crível, porém, que não fosse páreo para imaginar o Brasil – e seus belos recantos. Imagine contar a ele a história das tipuanas. Fica para a próxima.

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