Fresquinhas

Abro o espaço com um pedido de perdão, por decidir invocar assuntos fresquinhos da semana passada para serem abordados por aqui neste sábado. Vamos lá: a qualidade da música brasileira – em especial o funk – foi o tema da prova de redação do vestibular da UFRGS, ainda na semana passada. A partir da leitura do artigo “Críticas a ‘Que tiro foi esse?’ e outras canções levantam a questão: a música brasileira está pior?”, de autoria do jornalista Leonardo Lichote publicado originalmente no jornal O Globo – a íntegra pode ser acessada via Google –, os estudantes deveriam dissertar a respeito. É o que faremos em partes também por aqui.

You say Goodbye…

À primeira vista, a resposta parece óbvia: sim. As recentes turnês de reunião de Sandy & Júnior, Xuxa, especial Amigos – os sertanejos, que tocaram no último sábado em Porto Alegre – e os movimentos similares planejados por outros artistas de 20 anos atrás ou mais, cujos nomes eram dotados de restrições ainda mais significativas já à época, como o KLB – sim, eles querem voltar –, são argumentos poderosos em prol da hipótese de que a música nacional – ou ao menos sua fatia de largo alcance popular – tornou-se ainda mais precária de uns anos pra cá.

…and I say hello

Mas – e há sempre um mas em tudo… – é preciso ponderar. O processo saudosista de considerar o hoje pior do que o ontem é uma tendência quase irreversível do ser humano, que fica ainda mais aflorada no âmbito musical. Quando os jovens gostavam de Elvis, os pais diziam que boa música mesmo era Dolores Duran e Nelson Gonçalves. Aí os filhos destes pais resolveram ouvir Led Zeppelin e foram execrados por gostar de um bando de cabeludos barulhentos. Na década seguinte, a próxima geração decidiu escutar o Metallica e a família entrou em polvorosa de vez. E assim sucessivamente, até chegar ao ponto em que estamos hoje, em que até um tipo como o Linkin Park – campeão de execração quando surgiu – faz falta.

Agravante

Ainda assim, há um agravante para defender que a música nacional piorou, sei lá, desde os dias de grande sucesso de Gugu Liberato pra cá – e talvez o simpático apresentador tenha ajudado a contribuir para tanto: a perda de vergonha do público em gostar de coisas tão ruins que ele mesmo, o público, sabe que são ruins. O sujeito entende bem que a música de fulano de tal é uma porcaria. Mas ela é fácil de cantar e dançar, ecoa situações rotineiras e constrangedoras da vida de quase todos nós e a pessoa se vê refletida naquilo – e a vida é muito curta e rápida para nadar na contramão com algo tão cotidiano. As pessoas são livres e é bom quando elas saem do armário para admitir do que gostam – mas é interessante que tal preferência seja de algo, no mínimo, razoável.

Três acordes

# Ainda sobre Gugu: os tributos a ele são para relembrar um tempo áureo da TV brasileira ou das nossas próprias vidas, que transcorriam lindas e belas enquanto o pintinho amarelinho (do próprio Gugu, mas também do Van Damme) desfilavam na telinha? O passado é bonito, mas nem sempre tão lustroso quanto parece.

# Tenhamos compaixão e vamos homenagear a figura humana, o profissional talentoso e carismático, mas sem nos esquecer do bombardeio de absurdos aos quais o povo era submetido em horário nobre televisivo dos anos 90. Artistas horríveis, provas da bexiga e banheira e até um falso chupa cabra faziam parte do cardápio televisivo da época.

# Nestas horas me orgulho de conservar um lado rabugento desde criança e ter achado uma porcaria, desde a primeira vista, coisas ainda hoje campeãs em bizarrice, como o funk Tá Dominado, Tá Tudo Dominado ou a Eguinha Pocotó – que, sim, chegaram pela primeira vez ao grande público através do programa-símbolo da época.

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