Libertadores de caranguejos: o Gre-Nal do Metallica

Em agosto de 2019, o anúncio: o Metallica tocará em Porto Alegre. Em dezembro do mesmo ano, com boa parte dos ingressos do show vendidos, a Conmebol divulga a tabela da Copa Libertadores. E marca um dos jogos do Grêmio, classificado para a competição, para o mesmíssimo dia e local da apresentação: 21 de abril, na Arena. Uma gafe. Mas há outro estádio, ao mesmo nível e na mesma cidade, que comporta ambos os eventos sem problemas. Basta que um dos dois troque, não? Não. Não quando se vive numa província de pensamento provinciano. E onde o que impera é a mentalidade do caranguejo – e que bom se isso fosse só uma alusão a uma dança folclórica local.

A metáfora do caranguejo diz que, se ele estiver sozinho dentro de um balde, cedo ou tarde conseguirá sair. Se estiver cercado de pares, não conseguirá, pois um ou outro sempre o puxará para baixo. É a maior das leis do RS: o sujeito ao lado jamais pode se dar bem. É melhor eu e ele perdermos do que nós dois ganharmos. O Gre-Nal, como jogo e rivalidade, é a materialização disso: melhor ver o rival rebaixado do que ser campeão. Preferível empatar dois jogos a ganhar um e perder outro. Não à toa, os enfrentamentos diretos, via de regra, são feios, toscos, brigados. Bem mais importante do que jogar é não deixar o outro jogar. Muito maior do que a alegria do gol é aquela de quando um rival se estatela no chão, após carrinho de seu volante mais sanguinário.

Pois bem: todos estes ingredientes forjam uma pura presepada gaúcha à lá sul-americana. O Grêmio diz que vai dar jeito de sediar o jogo e o show. O Inter diz não ter sido procurado para nada e marca um jogo de seu time feminino que inviabilizaria receber a banda em sua casa. A Conmebol, madrinha da baderna, lava as mãos: fala que não poder fazer nada, pois já há compromissos agendados com TV e afins. Corre-se o risco de não haver lugar para um show de milhão de dólares da terceira banda mais bem paga do planeta há dois anos (faturamento de US$ 43,2 milhões só naquela temporada), que ocorre aqui em média a cada uma década – as passagens anteriores do Metallica em POA foram em 1999 e 2010 – e capaz de movimentar na casa de 40 mil pessoas, tanto quanto um jogo de Libertadores.

Ninguém se preocupa com o dinheiro envolvido ou nas formas como podem ganhar ante o imbróglio. Os vermelhos podem faturar. Os azuis podem fazer uma média com sua torcida. E, como se a desgraça já não fosse pouca, o Inter também está na Libertadores – e no mesmo grupo do Grêmio. Tentam se prejudicar mutuamente e nesta semana tem Gre-Nal, o que em geral nunca melhora nada – só tende a piorar. E pensar que, até poucas semanas atrás, o único risco ao show na mente dos fãs era a recaída após 16 anos do vocalista e guitarrista James Hetfield, internado em clínica de reabilitação para se tratar contra o alcoolismo. É assim que funciona: muito mais fácil um homem vencer seus demônios internos e a dependência química do que extirpar a síndrome do caranguejo no balde, enraizada no pensamento do morador do sul do mundo.

Curioso que tudo ocorra na semana do aniversário de quatro anos do show dos Rolling Stones no Beira-Rio: um espetáculo inesquecível, um dos maiores acontecimentos da história da província. Realizado na mesma noite de… jogo da Libertadores, em que o Grêmio tocou 4 a 0 na LDU, o que invocou comentários ao nível de que “o verdadeiro show foi na Arena”. Inacreditável: como pode o futebol idiotizar de tal forma as pessoas? Mais ainda num lugar do mundo em que já é 2020 e continua a se pensar como em 1835. Não é Grêmio ou Inter que precisam de libertadores, mas sim nós, sul-rio-grandenses – e de nós mesmos. Ou então esse 21 de abril será um novo 20 de setembro: uma exaltação da derrota. Mútua. Bem ao gosto masoquista e retrógrado gaúcho.

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