Panela do diabo

Quarta-feira, 21 de agosto. No dia que marcava os 30 anos da morte de Raul Seixas, a manchete principal da Folha do Mate anunciava: uma Bíblia gigante seria construída na Praça da Bandeira. Com três metros de altura, um mapa colorido do município como base, uma frase catequizante em evidência nas páginas do livro aberto e o melhor: tudo pago pelo poder público, ao custo de 42 mil reais. Foi preciso coçar os olhos algumas vezes depois de ver aquilo: era cômico – ou ridículo – demais para ser verdade. Mas o mestre já ensinava: é preciso tentar outra vez. E se não sou eu quem decide ou não o que acontece – e como quem não tem colírio, usa óculos escuros –, cabe a mim a reflexão.

Paupérrimo

Raulzito, ao ter o carro varrido pela ressaca do mar em Copacabana nos anos 80, dava razão à natureza, que não pediu para construírem uma selva de pedra onde ela muito bem já estava. Por certo, lamentaria ou daria risada da mais nova invencione bisonha de Sebastianfield. Tão pobre de estética quanto de espírito: não se trata de usar local público para obra de cunho religioso, mas com inegável beleza arquitetônica, como a catedral central. Tampouco se preocupa em envolver a população interessada na busca de meios para concretizar a obra – dinheiro de impostos serve para saúde, educação, segurança e outras obviedades. É puro vácuo. Fere os olhos, o bom senso e a laicidade.

Raulzito & o Pantera

Até onde me consta, Deus quer o amor entre as pessoas. Quem viabilizou tal fanfarrice quer somente posar de bom samaritano – olha a parábola bíblica aí – para seus fieis e/ou eleitores. Não são doutores, padres ou policiais, mas políticos e pastores, que acreditam contribuir com sua parte para o nosso belo quadro social e assim precisam se manter. Esta Bíblia gigante, ainda que estejamos em celebração a Raulzito, obriga a invocar o Pantera – o americano, no singular; não o grupo de músicos que acompanhava o baiano em sua primeira incursão musical, na década de 60 –, com o título de seu segundo disco, que define com clareza a situação: é uma absoluta demonstração vulgar de poder.

Viva, viva

No auge dos anos 70, Seixas cantava sobre a Sociedade Alternativa, mundo paralelo ao da maioria e de lema famoso: faz o que tu queres, há de ser tudo da lei. Em 2019, tal máxima parece se aplicar à sociedade estabelecida, esta da qual todos nós somos parte. Dane-se o bom senso: com iniciativa ou respaldo de quem detém o poder – e obtê-lo é cada vez mais banal –, faz-se o que quiser. Retira-se o limite de velocidade da estrada, limita-se a autoridade do Juiz, deixa-se a Amazônia à deriva. Sigamos, pois, a obra do maioral, que recomenda fé em Deus e na vida. Aliás, o Senhor ficaria muito mais contente em ver o rebanho são e salvo, protegido das intempéries enquanto espera o ônibus, do que contemplado com um bloco de concreto mais sodomita do que altruísta.

Três acordes

# Fiquei a imaginar se seria chamado de herege, anticristo ou coisa similar por traçar as linhas acima. Soou-me provável que alguém atribuísse a este escriba e/ou espaço algum trecho das escrituras sagradas, interpretado de forma estúpida e que causasse impacto.
# Me despreocupei logo. Aí está, entre outras, a história de Ozzy Osbourne e o infame Jimmy Swaggart, o Jimmy Sinner de seu clássico Miracle Man, para provar que o tempo se encarrega de resolver as coisas. Afinal, os últimos serão os primeiros.
# Com isso tudo, não lamentarei, neste ano, que a sempre aprazível e necessária Feira do Livro ocorra outra vez distante de onde as pessoas mais circulam. Que, por exemplo, não siga o exemplo da vizinha Santa Cruz do Sul e aconteça numa praça. Eu disse… praça? Bom show para quem for ver o Nenhum de Nós esta noite.

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