Autor defendeu temática farroupilha que contempla diversidades culturais

Tema para os festejos farroupilhas/2022, foi escolhido pela Comissão Estadual, no dia 6 de abril. ‘Etnias – Rio Grande Terra de muitas Terras’, com autoria de Maxsoel Bastos de Freitas, do Piquete Fraternidade Gaúcha, de Porto Alegre, foi aprovado por maioria de votos (15 a 1). Confira na íntegra proposta e argumentações do autor.

Exposição técnica de motivos: 

Em que pese o reconhecimento da existência do índio na região seja anterior, a História de estruturação do Rio Grande do Sul[1] e do surgimento do próprio gaúcho inicia-se quase duzentos anos após o Descobrimento do Brasil com a fundação de Colônia do Sacramento (hoje situada no Uruguai), quando tardiamente os portugueses mostraram interesse pela região. 

Pois bem, a partir daí segue-se um longo período de conflitos entre portugueses e espanhóis pela posse da terra. 

A contenda entre os dois países ibéricos só teve fim com a definição das atuais fronteiras do sul do país, em decorrência direta da independência do Uruguai no ano de 1825. 

Cabe destacar que a atuação dos padres jesuítas espanhóis fora de grande relevância porque durante o ano de 1634 iniciaram a catequização dos índios guaranis e introduziram o gado bovino. 

Desta primeira incursão dos padres jesuítas, após sua expulsão em 1641, ficaram espalhado por toda a pampa parte do gado que livre se tornou “chimarrão”, ou selvagem.  Foi este fato que de forma direta colaborou e deu origem ao gaúcho e por consequência toda a tradição campeira do Rio Grande do Sul. 

No mesmo passo, no decorrer do ano de 1682 os padres jesuítas retornam agora fundando oito reduções ou povos. Destas, sete reduções prosperaram tornando-se os “Sete Povos das Missões”. Estas reduções foram verdadeiras cidades em suas estruturas que, sob o comando dos religiosos, prosperaram a ponto de levar preocupações tanto para o governo português como para os espanhóis. A estrutura Guarani teve no Tratado de Madri (1750), quando foi trocada por Colônia do Sacramento, o início de sua ruina total, o que veio a ocorrer em 1756 no massacre de Caiboaté, quando morreram nesta batalha cerca de 1.500 índios. 

Por conta da constante disputa territorial, o sul foi caracterizado por uma civilização militar e ao mesmo tempo pastoril em face das grandes áreas de pasto propícias para a criação de gado bovino, colonizado inicialmente por tropeiros e militares, brasileiros de outras regiões e portugueses, principalmente de origem açoriana. Os açorianos, marcaram profundamente a formação do tipo sul-rio-grandense com a chegada dos casais ao Rio Grande do Sul a partir de 1747. 

Foi durante o século XVIII que se formou mais da metade da população. Assim, a origem do gaúcho é predominantemente luso-brasileira e açoriana. 

Ainda no mesmo norte, complementando o arcabouço cultural do Rio Grande com seu legado estão os índios, primitivos habitantes do país, e os negros que entraram maciçamente no Estado como mão-de-obra escrava com vista a fomentar a produção industrial da carne nas charqueadas, cujo corte temporal remonta a 1780. 

São também etnias integrantes do período inicial, embora em menor número, os judeus e os hispânicos. 

Os alemães (1824) e os italianos (1875), posteriormente chegaram, em território gaúcho em ondas migratórias incentivadas pelo governo brasileiro. Estes imigrantes, carregando e mantendo aqui suas tradições e costumes, enriqueceram o panorama cultural rio-grandense enormemente, constituindo-se em enorme atrativo turístico as regiões em que esses imigrantes, alemães e italianos, se estabeleceram. 

Novos fluxos de migrações continuaram a montar o mosaico cultural do Rio Grande do Sul. No fim do século XIX, os poloneses, aportam com forte contingente e, após a 2ª Guerra Mundial, chegam os japoneses. 

Logo depois de poloneses – já estavam em todo o Estado por volta de 1880 imigrantes árabes, de distinta presença. 

Em número menor, mas de destacada nota, é a presença, de holandeses, chineses, franceses, ucranianos, russos, letonianos, ingleses, americanos, suíços, belgas, húngaros, gregos e suecos que, mais recentemente, chegaram em solo gaúcho. 

Com ênfase na diversidade étnica[2], e por consequência imediata na diversidade cultural[3], hoje podemos afirmar que existem pessoas de praticamente todas as partes do mundo vivendo em solo gaúcho, todos eles trazendo consigo parte de suas culturas e, de modo direto, absorvendo nossas tradições, forjando-se autênticos gaúchos. 

Pode-se afirmar, por fim, que a contar das bases socioculturais que formam o espaço riograndense o gaúcho carrega particularidades intrínsecas ao contexto regional, ou seja, se observa que há “vários” gaúchos, diferenciados na forma e no que se refere às peculiaridades, mas que também guardam traços comuns, relativos ao tradicionalismo e ao nativismo. Entretanto, cada etnia se expressa com sua cultura, seus rostos e suas falas. 

Considerações Operacionais 

Como os Festejos Farroupilhas organizados pela comissão nomeada devem ter abrangência em todo o Estado do Rio Grande do Sul, não podemos escolher temas que sejam restritivos e que abarcam apenas uma parcela do povo gaúcho. 

Os gaúchos não estão apenas por exemplo: na pampa, eles também estão espalhados pela serra, pelo litoral e pelas missões. 

Com vistas a explorar a diversidade étnica, e por consequência imediata a diversidade cultural um tema como o proposto: “Etnias do Gaúcho”, como o subtítulo de “Terra de muitas Terras”, poderá envolver todas as diversas manifestações culturais nos quatro cantos do Estado do RS com um engajamento de todos os povos que ajudaram a construir a fibra de nosso povo gaúcho. 

O tema não visa explorar a origem étnica do gaúcho sob o ponto de vista de acervo tão e somente histórico e/ou de museologia. Vai além. Visa explorar a DIVERSIDADE de nosso povo. 

Um tema tão amplo também poderá ser de fácil captação de recursos em possíveis parceiros em projetos culturais que visem fomentar os meios de atuações, porque envolve um número enorme de possibilidades de enquadramentos para liberação de recursos. 

Da mesma forma este tema tão amplo não impede que determinados segmentos de representações culturais, como o Movimento Tradicionalista Gaúcho por exemplo, possam através de um corte epistemológico trabalhar parte do todo do tema proposto.  

Eram estas as considerações. 

Maxsoel Bastros de Freitas

Porto Alegre, RS, 04 de abril de 2022.

[1] Bibliografia básica consultada:https://websmed.portoalegre.rs.gov.br/escolas/obino/cruzadas1/etnias/etnias1.html

FAGUNDES, Antonio Augusto. Curso de Tradicionalismo Gaúcho, Porto Alegre, Martins Livreiro, 1995)

CASTILLO, Carlos. Fogão Campeiro. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1995. 

[2] A diversidade étnica é a união de diferentes povos em uma mesma sociedade

[3] Diversidade cultural são os vários aspectos que representam particularmente as diferentes culturas, como a linguagem, as tradições, a culinária, a religião, os costumes, o modelo de organização familiar, a política, entre outras características próprias de um grupo de seres humanos que habitam um determinado território.

Texto na integra publicado no Blog do Leo Ribeiro

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