Sonoridade das lâminas e a arte de declamar

Por si só, a poesia prende a atenção do público por conta da história recitada. A ela se unem acordes musicais, por meio de violão, e a emoção do declamador se expande e da plateia também. Mas quando o som chega aos ouvidos, com uma sonoridade que se aproxima do “vento”, nem pode-se imaginar que seja emitido por uma ferramenta de trabalho, nossa velha conhecida – o serrote.

Foto: Beatriz Colombelli / Folha do MateLuciano Salerno fala sobre a arte de tocar serrote
Luciano Salerno fala sobre a arte de tocar serrote

De ferramenta a instrumento musical, a arte que é antiga, tornou-se conhecida no Rio Grande do Sul, a partir do livro ‘A arte de tocar serrote musical: histórico e métodos secretos’, lançada por Antonio Frizzon, em 1997, durante uma Feira do Livro, em Porto Alegre, (falecido no dia 1º de abril, aos 79 anos). Seguido por Paulinho Pires (falecido no dia 30 de outubro, ao 84 anos), seguem-se outros discípulos da música que parece ‘vir dos anjos’.

Discípulo e declamadorEntre estes seguidores, na arte de tocar ‘Serrote’, está Luciano Salerno, 43 anos.Natural de canoas, atualmente reside em Bento Gonçalves. Tricampeão internacional e campeão nacional em declamação, Salerno que se dedica à arte há mais de 25 anos conta como conheceu os mestres da “música com serrote” e a trajetória dedicada ao aprendizado desde então.

Conheci Salerno, no Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (Enart), em 2017, na condição de amadrinhador ‘com o som do serrote’ para um integrante da modalidade declamação, e o encontramos novamente neste ano. Assim como chamou atenção dele, a primeira vez que ouviu o instrumento em um programa de TV, também desta colunista, ao vê-lo tocar. 

 

Na vida profissional, Luciano Salerno trabalha com eletrônica desde jovem, possui curso técnico e atualmente é Graduando em Engenharia Eletrônica na Universidade de Caxias do Sul – campus de Bento Gonçalves. Sua trajetória como Declamador já tem mais de 25 anos. Na mala de garupa carrega inúmeras conquistas. Entre estas, participação e premiação em diversos eventos tradicionalistas no Rio Grande do Sul. Foi vice-campeão do Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (Enart), em 2003 e 2010; campeão do Enart – 2001 e 2011, neste festival, sendo avaliador nas edições de: 2009, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016.

DESTAQUES

Premiado em diversos rodeios no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Tri-campeão do rodeio internacional de Canoas; campeão do rodeio internacional de Tramandaí; campeão do rodeio internacional de Chapecó, Santa Catarina; campeão do rodeio internacional de Alegrete; campeão do rodeio internacional do Mercosul; campeão do rodeio internacional de Lajes, Santa Catarina.

Aluno de Paulinho Pires (in memoriam) foi premiado como melhor amadrinhador em diversos festivais pelo estado e fora dele: Sesmaria da Poesia, Osório; Querência da Poesia Xucra, Caxias do Sul (2018); Celeiro da Poesia – Abdon Batista – SC (2018).

 Colunista: Em relação à música por meio do Serrote, quando iniciastes a tua trajetória, como, e o que te inspirou?

Luciano Salerno: Minha trajetória se inicia quando declamador assistia os programas de domingo, Galpão Nativo na antiga TVE, em um destes estava um declamador recitando acompanhado de violão e um instrumento diferente que me chamou atenção. Após a apresentação o programa terminou e não soube o nome dos artistas. Entrei em contato com a produção para saber quem era o músico que estava tocando ‘serrote’. A partir daí que conheci Paulinho Pires, que já tocava serrote há mais de 50 anos.

Em 2001 fui apresentado a Antonio Frizzon (in memoriam) que já dava aulas de serrote e estava com a proposta do 1º curso de serrote musical da Amércia Latina, sendo ele o ministrante e realizador na Comissão Gaúcha de Folclore em Porto Alegre, com apoio de Paulinho Pires e da maestrina Rose Marie Reis Garcia (na época também presidente da comissão). Realizei o curso juntamente com mais nove colegas, mas dentro da área gaúcha era somente eu e o Paulinho.

Tenho muito orgulho em ser um dos dez alunos a fazer história na arte de tocar serrote musical. Atualmente sei que existem outros serrotistas em outras áreas, o que me deixa feliz em saber que a arte não morre, mas que ainda é bem pouco conhecida pelas pessoas.

Referente à história do instrumento, fale um pouco a respeito:O serrote, é totalmente acústico, capaz de alcançar notas extremamente agudas, em uma extensão de cinco oitavas. Inicialmente, a ferramenta era produzida somente em ferro e, posteriormente, passou a ser feita em aço. As lâminas se tornaram mais resistentes, flexíveis e, ao tangê-las, emitiam sons. Por ter uma sonoridade próxima ao violino e da voz soprano humana o instrumento proporciona diferentes sons assemelhando alguns a sons espaciais, lembrando o instrumento Teremim (um dos primeiros instrumentos musicais completamente eletrônicos, controlado sem qualquer contato físico pelo músico. Seu nome vem da versão ocidental do nome do seu inventor, o russo Léon Theremin, que patenteou seu dispositivo em 1928). 

Realizas apresentações também em outros eventos, além da modalidade declamação?Já participei de apresentações com músicos de outros estilos musicais, atualmente não realizo apresentações por falta de convite. A música do serrote é universal e pode ser tocada solo ou como acompanhamento das mais diferentes formas. Seria interessante divulgar a arte do serrote nas mais diferentes vertentes musicais, assim como na área do aprendizado musical com crianças ou mesmo em casos de reabilitação ou estudos neurológicos.

Quanto ao acompanhamento nas declamações, podes me falar um pouco sobre a importância para os declamadores?Por também ser declamador, sei como é estar em palco e poder sentir a força da poesia, a mensagem contida no papel e sendo revelada aos ouvintes, poder ouvir o silêncio entre os acordes musicais e fazer com que isso toque o coração de cada pessoa que está ali para ouvir.

Dentro da música o serrote produz um som melódico que se aproxima do vento, logo, se encaixa perfeitamente a temas que retratem nostalgia, sentimentos, amor e natureza (principalmente os ventos), temas estes muito presentes em nossa poesia e canções nativas. Desta forma o declamador pode-se valer de um argumento a mais para ajudar sua interpretação, pois a música dentro da poesia completa e aguça a percepção dos ouvintes. Podemos fazer a comparação com a trilha sonora de uma peça teatral ou um filme.

Quanto a teus ‘Mestres’?Mestre Antonio Frizzon, um gênio musical, com sua paciência para ensinar e sabedoria é uma pessoa iluminada e culta. Atualmente têm o Grupo de Lâminas de Porto Alegre. 

Mestre Paulino Pires (in memoriam), nos deixou há alguns dias atrás, era um sábio e grande conhecedor das parábolas da natureza. Exímio músico, compositor e poeta, quando tocava seu serrote parecia estar flutuando, o instrumento conversava com que estava assistindo. Ele sempre dizia: “a música do serrote depende muito do executante, do seu estado de alma, porque a música, a gente primeiro tem que sentir para depois poder transmitir”. Dentro da área regional de forma ativa só tinha ele, e hoje sou eu (até onde conheço). Uma pena não ter conseguido registar em CD um encontro com este mestre.

Se alguém se interessar pelo aprendizado, como deve proceder?Estou finalizando o projeto de oficinas de serrote para 2019, junto a Comissão Gaúcha de Folclore, mas penso que uma oficina itinerante pelo Rio Grande do Sul seria interessante. Aos interessados basta entrar em contato por email ou redes sociais que ficarei muito honrado em poder passar à frente o conhecimento desta arte.

Outras observações que julgas importantePara se tocar serrote, basta ter a ferramenta comum, porém quanto maior a lâmina melhor será para tirar o som, não há necessidade de tirar os dentes do serrote, pois toca-se na parte lisa. Usa-se o arco de violino para extrair o som da lâmina. O instrumentista deve ter muita paciência, alguma noção de ritmo e, posteriormente, buscar estudos de teoria musical.

Elemento essencial, é ter bom ouvido, pois o serrote “é uma corda só”, as notas são emitidas conforme a maneira de inflexão da lâmina sem um ponto totalmente específico. Na europa existem fabricas de lâmina sonora (sim, lâmina!), pois no momento que você retira os dentes do serrote, ele perde sua função de ferramenta e passa a ser uma lâmina comum.

Já toquei serrote “traçador” aqueles grandes e antigos, onde duas pessoas (os imigrantes) um de cada lado usavam para cortar toras de madeira. Também existem serrotistas e instrumentistas de lâminas sonoras pelo mundo assim como Orquestras de Lâminas.

 Mais detalhes da história, método, conceitos sobre o serrote musical podem ser apreciados no livro “A arte de tocar serrote musical” – Antonio Frizon.