A vida de estudante em colégio interno na Inglaterra

Colégio Stowe está situado no condado de Buckinghamshire (Foto: Divulgação)

O mês de setembro é muito movimentado para os estudantes europeus pois marca o início do ano letivo em todo continente. Depois de várias semanas de férias no verão, os alunos voltam à sala de aula recomeçando mais um percurso na estrada do aprendizado. Na Inglaterra, a maioria das escolas estaduais iniciou na primeira semana de setembro enquanto as universidades começam mais tarde, no final do mês. O sistema de educação inglês é bem diferente da estrutura de ensino no Brasil. O ano letivo nas escolas é dividido por trimestres (term, em inglês) e é marcado por um calendário de férias abundante. Os alunos ingleses têm férias em outubro (uma semana para escolas do Estado, duas para escolas particulares), em dezembro (duas ou três semanas), em fevereiro (uma semana), em março/abril, dependendo da Páscoa (duas ou três semanas), maio (uma semana) e finalmente em julho encerra o ano letivo para a longa pausa de verão. Para compensar tanta folga durante o ano os alunos passam, praticamente, o dia todo na escola, das 8.45 às 15.15 no sistema estadual. Nas escolas particulares o dia é ainda mais longo e intenso nos estabelecimentos que ensinam em regime de internato. No início de setembro nossa caçula, Sophia, iniciou sua vida escolar no Colégio Stowe, onde também estuda nosso filho Patrick e onde nossa filha Victoria completou seu curso no ano passado.

Estudar em colégio interno na Inglaterra é um privilégio. O sistema é formado por educandários históricos e renomados cuja arquitetura nos transporta a séculos atrás. São escolas que, olhando de de fora, parecem palácios ou mansões. São escolas que moldam os alunos não apenas no aspecto acadêmico mas principalmente no comportamento e caráter. O Colégio Stowe é um deles, com 830 alunos está situado no meio de um parque gigantesco a 100km de Londres e recheado de construções que remontam ao século XVII. De manhã cedinho, caminhando nas trilhas entre árvores centenárias, recortando a paisagem digna de cartão postal, pequenos grupos de estudantes iniciam mais um dia no Colégio Stowe. Em elegante uniform, terno e gravata para os meninos e tailler para as meninas, eles se espalham em cada canto do magnífico conjunto arquitetônico, carregando fichários e livros didáticos, em direção às salas de aula e laboratórios. De maneira geral, a rotina nos colégios internos é praticamente a mesma em todo país. Durante o ano letivo os alunos vivem na escola. Em alguns estabelecimentos os estudantes podem voltar para casa aos domingos. O colégio Stowe conta com clínica médica, igreja, teatro, mercadinho, correios, áreas de recreação e até ônibus para transportar os alunos às quadras esportivas, formando uma minicidade.

Sophia inicia um novo ciclo de estudos no colégio interno (Foto: Divulgação)

O ensino na maioria dos colégios internos inicia aos 13 e vai até os 18 anos. Já nos primeiros dias de aula, os jovens de 13 anos, muitas vezes apreensivos por ser talvez a primeira vez a morar longe de casa, aprendem rapidamente as regras do regime de internato e quando se formam aos 18 anos, são adultos independentes com aprendizado e bagagem cultural que vão muito além do conteúdo estudado em sala de aula. Disciplina é a palavra chave nos colégios internos. E nem sempre é fácil para os jovens adolescentes se acostumarem ao regime. Os primeiros dias para nossa filha Sophia foram difíceis, marcados por ansiedade e lágrimas de saudade de casa.

Salão de mármore é usado para eventos da comunidade escolar (Foto: Divulgação)

O ensino nas instituições particulares segue o sistema de educação nacional, dividido em dois ciclos. Dos 13 aos 16 anos os alunos seguem currículo em preparação para os exames nacionais de GCSE (Certificado de Ensino Médio) que são obrigatórios para os alunos do 11º ano, em todo país. Os GCSEs abrangem as matérias básicas, ou seja inglês, matemática, biologia, física e química. Além destas disciplinas compulsórias, o próprio aluno escolhe outras, entre elas história, geografia, língua estrangeira, artes, computação, tecnologia e design, ensino religioso, e tantas outras de acordo com o programa do educandário. Depois de prestar as provas nacionais e de acordo com os resultados obtidos, os alunos seguem os estudos no ciclo avançado (A level), dos 16 aos 18 anos, equivalente ao ensino médio no Brasil. Os estudos são intensificados no curso de A level, com aulas aprofundadas em apenas quatro ou cinco matérias, de acordo com a preferência do estudante e carreira que pretende seguir. As classes são pequenas, no máximo dez alunos para o ensino médio e 18 estudantes nas turmas inferiores, e niveladas de acordo com o desempenho, incentivando assim o desenvolvimento acadêmico do aluno.

Construção remonta ao século XVII (Foto: Divulgação)

O dia a dia no colégio interno é pleno de trabalho, trabalho duro, com aulas de segunda-feira a sábado, missa aos domingos, atividades esportivas diárias e muito dever de casa. São pelo menos duas horas de tema para os alunos do curso de GCSE, a partir das 17h30min e três horas para os estudantes do ensino médio. Dever de casa é considerado tão importante quanto os resultados das provas quinzenais. E para aqueles que não entregam o trabalho em dia são estipuladas penalidades. Quem atrasa com a lição de casa tem que acordar uma hora mais cedo no outro dia para completar trabalho extra na matéria. E para aqueles que chegarem na aula atrasados ou não estiverem vestindo o uniforme corretamente, vale a mesma multa! E assim os jovens estudantes aprendem rapidamente a serem pontuais e responsáveis, se esmerando no aprendizado.

É verdade, entretanto, que depois do árduo trabalho, nas horas vagas, não faltam atividades de descontração para os jovens estudantes. Os colégios internos focam muito no esporte com treinos diários e várias equipes divididas por categoria e abilidade. Além das aulas de desporto os alunos podem ainda escolher atividade esportiva extra-curricular entre várias modalidades, como basquete, squash, pólo áquatico, canoagem, equitação, pingue-pongue entre outras.

Educandário está cercado de verde (Foto: Divulgação)

Desde cedo os alunos no internato aprendem a viver em comunidade, respeitando as diferenças. A vida na comunidade escolar continua com atividades nas repúblicas de estudantes. No Colégio Stowe são 14 casas, divididas por sexo. Durante todo o ano existem várias competições entre as repúblicas envolvendo todos alunos com atividades acadêmicas, oratória, esporte, música e canto. O troféu anual de “melhor casa”(best House) é um dos mais cobiçados na comunidade escolar. Em cada casa moram geralmente entre 55 e 60 alunos em alojamento por idade em quartos conjuntos de até quatro alunos para os mais novos e quarto individual a partir dos 16 anos.

Cada república conta com governanta, diretora e assistente que moram com os alunos. As refeições são realizadas no restaurante do colégio, construído no saguão da mansão principal, permeado pela esplêndida decoração neoclássica e janelas enormes que se abrem para a natureza abundante lá fora. No cardápio, pratos para satisfazer gostos de todo mundo, entre cozinha tailandesa, mexicana, indiana e até mesmo inglesa, com o típico fish and chips (peixe empanado com batata frita)! Quando os alunos não estão estudando ou praticando algum esporte, o ponto de encontro nas sextas e aos sábados à noite (somente alunos do ensino médio) é no barzinho da escola ou balada no salão de mármore, uma vez por mês. Diversão também é necessária, afinal de contas, depois de tanto estudo eles merecem um pouco de descontração!

Ano letivo europeu inicia em setembro (Foto: Divulgação)

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