Colégio interno na Inglaterra

 

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalLagos e jardins lindissimos no Colégio Stowe
Lagos e jardins lindissimos no Colégio Stowe

Enquanto no Brasil a criançada está voltando às aulas depois das férias de verão, por aqui os alunos já cursaram mais da metade do currículo, pois o ano letivo no continente europeu começa em setembro e vai até junho/julho. Em setembro de 2013 nossa filha mais velha, Victoria, iniciou no colégio interno de Stowe, da rede de ensino particular e situado no condado onde moramos aqui na Inglaterra. Ela tinha apenas 13 anos e estava embarcando numa experiência jamais vivida: estudar em regime de internato. A decisão de mandá-la para um colégio interno não foi simples principalmente para o coração da mãe aqui, que nunca imaginou largar os filhos para serem educados longe de casa. Depois de muita reflexão e conversas em família analisamos os pros e contras do sistema e fomos guiados pela própria vontade da Victoria, ávida e pronta para abraçar as novas oportunidades que a escola lhe ofereceria.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalConstruções históricas no Colégio Stowe
Construções históricas no Colégio Stowe

E agora em sua reta final frequentando os dois últimos anos de ensino médio não temos dúvidas da nossa decisão. Em setembro de 2015 foi a vez do nosso guri, Patrick, se unir à irmã mais velha começando igualmente seus estudos no Colégio Stowe. Ele também, aos 13 anos, estava pronto para iniciar uma nova etapa na carreira de estudante e entusiasmado em aproveitar todas oportunidades acadêmicas e esportivas que a escola proporcionaria. E assim meus filhos mais velhos seguem um modelo de educação tradicional (para não dizer tão diferente do brasileiro), passando boa parte da vida escolar longe da família.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalColégio Stowe abrigada meninos e meninas de 13 a 18 anos
Colégio Stowe abrigada meninos e meninas de 13 a 18 anos

O Colégio Stowe foi fundado em 1923, inicialmente uma escola só de meninos e mais tarde no final dos anos 60 passou a aceitar alunos do sexo feminino. Para quem está acostumado às escolas de arquitetura moderna no Brasil é quase um choque conhecer os colégios internos aqui na Inglaterra. São verdadeiros tesouros culturais. A arquitetura original de Stowe, por exemplo, remonta ao final do século XVII. Um colégio marcado por prédios históricos, que mais parece palácio real! Localizada no meio de um parque gigantesco, rodeada por lagos e jardins encantadores, a escola conta com cerca de 820 alunos (meninos e meninas) entre 13 e 18 anos que frequentam sete aulas por dia, de segunda-feira a sábado, em turmas niveladas de acordo com o desempenho de cada aluno. Os alunos permanecem na escola em regime de internato durante o ano acadêmico, podendo voltar para casa aos domingos e a cada três semanas quando passam de sexta-feira à domingo com família, além das férias que são bem mais longas do que o sistema de ensino do governo. No total são 19 semanas de férias durante o ano letivo! (8 semanas no verão em julho e agosto, duas em outubro, três no Natal, uma em fevereiro, quatro na Páscoa e um semana em maio). O campus do Colégio Stowe é praticamente uma minicidade, escondida entre árvores centenárias e campos de pastagem.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalArquitetura do prédio principal da escola remonta ao século XVII
Arquitetura do prédio principal da escola remonta ao século XVII

Neste enorme conjunto arquitetônico encontram-se blocos de estudos, salas de aulas, laboratórios de ciências, arte e design, teatro, auditório, clínica médica, igreja, lojinha de conveniência, residência dos alunos e professores, complexo esportivo com ginásio e piscina térmica, centro equestre e muitas quadras esportivas. Os estudantes caminham alguns quilômetros todos os dias para chegar à sala de aula e locais de atividades diversas. A acomodação dos alunos se dá através de casas espalhadas pelo grande parque, treze no total e divididas por sexo. Em cada casa moram entre 60 e 65 alunos, em grupos por idade, de acordo com o ano que frequentam. A cada ano, quando o grupo mais velho se forma e deixa a escola, outro, de 15/16 novatos, inicia a rotina na casa aos 13 anos, seguindo regras rígidas, tantas regras! Existe uma hierarquia muito grande no sistema interno das casas, por exemplo quando meu filho iniciou no primeiro ano, o uso de celulares e tablets era controlado, somente algumas horas à noite. Agora já frequentando o segundo ano, conhecedores das inúmeras regras internas, e escalando na hierarquia da casa, é dada mais autonomia ao grupo com a concessão de privilégios, entre eles uso prolongado de eletrônicos e saídas com ônibus da escola ao fim de semana. Cada casa possui um(a) diretor(a) e um(a) assistente que moram juntos com os alunos e uma governanta que praticamente faz o papel de mãe, cuidando de cada aluno, principalmente os mais novos. Um fator peculiar aos internatos é a competição acirrada entre as casas. Durante todo ano acontecem competições acadêmicas e esportivas entre as casas, fora do currículo de ensino, mas que são tão importantes quanto as notas dos exames em sala de aula pois no final do ano uma casa de cada sexo é coroada com o cobiçado troféu de melhor casa!

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalEducação em colégio interno faz parte da cultura britânica
Educação em colégio interno faz parte da cultura britânica
Foto: S S Beglin / arquivo pessoalVictoria com as colegas de aula e casa, Kira e Georgia
Victoria com as colegas de aula e casa, Kira e Georgia

Ao caminhar pelo colégio a impressão é de estar num campus universitário, com edifícios muito bem estruturados abrigando cada departamento de ensino. A maioria dos professores é especialista na matéria que ensina e residente no complexo escolar. O regime de internato como forma de ensino sempre me pareceu assustador. A ideia de “entregar” os filhos a uma instituição para que fossem educados e moldados nunca teve grande apelo ao meu coração de mãe. No entanto, depois de visitar vários estabelecimentos e me informar sobre este tipo de ensino, percebi que o sistema não condizia com meus conceitos equivocados. Que os métodos difundidos nada tinham a ver com o regime militar que eu imaginava. Que a prisão ideológica pressuposta em filmes e seriados de antigamente não se materializava na realidade do século XXI. E que de fato, a educação em colégio interno britânico é um privilégio.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalColégio Stowe foi fundado em 1923
Colégio Stowe foi fundado em 1923
Foto: S S Beglin / arquivo pessoalPatrick prestará exames de GCSE em 2018
Patrick prestará exames de GCSE em 2018

De manhã cedinho, caminhando nas trilhas entre árvores centenárias entre uma casa de estudante e outra, grupos de alunos iniciam mais um dia no Colégio Stowe. Vestinho uniforme completo, ou seja traje obrigatório que consiste de terno e gravata para os meninos e tailler (saia ou calça) para as meninas, eles se espalham pelo conjunto arquitetônico do colégio interno, carregando fichários e livros didáticos, em direção às salas de aula e laboratórios. De maneira geral, a rotina nos colégios internos é praticamente a mesma em todo país, dividida entre atividades acadêmicas, esportivas e pastorais. Já nos primeiros dias de aula, os jovens de 13 anos, muitas vezes apreensivos por ser talvez a primeira vez a morar longe de casa, aprendem rapidamente as regras do regime de internato e quando se formam aos 18 anos, são adultos independentes com aprendizado e bagagem cultural que vão muito além do conteúdo estudado em sala de aula. Disciplina é a palavra chave nos colégios internos.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalAlunos estudam em regime de internato, morando em casas espalhadas em torno da escola
Alunos estudam em regime de internato, morando em casas espalhadas em torno da escola
Foto: S S Beglin / arquivo pessoalChatham House abriga cerca de 60 meninos
Chatham House abriga cerca de 60 meninos

O ensino na escola secundária é dividido em dois ciclos. Dos 13 aos 16 anos os alunos seguem currículo em preparação para os exames nacionais de GCSE (Certificado de Ensino Médio) que são obrigatórios para os alunos do 11º ano, em todo país. Os GCSEs abrangem as matérias básicas e obrigatórias, ou seja inglês, matemática, biologia, física e química além de outras disciplinas que o próprio aluno escolhe aos 13 anos, entre elas história, geografia, língua estrangeira, artes, tecnologia e design, ensino religioso, e tantas outras de acordo com o programa da escola frequentada. Minha filha Victoria prestou provas de GCSE em junho passado e no ano que vem será a vez do meu filho Patrick realizar os exames finais. Depois de prestar as provas nacionais e de acordo com os resultados obtidos, os alunos seguem os estudos no ciclo avançado (A level), dos 16 aos 18 anos, equivalente aos últimos dois anos do ensino médio no Brasil. No final do curso de A Level os alunos prestam exames nacionais que são determinantes para seguir no ensino universitário.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalPatrick iniciou no Colégio Stowe em 2015
Patrick iniciou no Colégio Stowe em 2015
Foto: S S Beglin / arquivo pessoalVictoria no seu quarto
Victoria no seu quarto

Os estudos são intensificados no curso de A level, com aulas aprofundadas e escolha de apenas quatro ou cinco matérias, de acordo com a preferência do estudante e carreira que pretende seguir. Nos colégios internos as classes são pequenas, no máximo dez alunos, e niveladas de acordo com o desempenho, incentivando assim o desenvolvimento acadêmico do aluno. Desde setembro a Victoria está estudando química, biologia, matemática e espanhol com oito aulas semanais de cada disciplina e estudo fora do curriculo na área de pesquisa. O objetivo dela é seguir pesquisa científica a nível universitário e assim seu trabalho na escola é focado na pesquisa e muitos trabalhos fora da sala de aula. O dia a dia no colégio interno é pleno de trabalho, trabalho duro, com aulas de segunda-feira a sábado, atividades esportivas diárias e muito dever de casa. São pelo menos duas horas de tema para os alunos do curso de GCSE, a partir das 17h30min e três horas para os estudantes do ensino médio.

Dever de casa é considerado tão importante quanto os resultados das provas semanais, no final de cada tópico . E para aqueles que não entregam o tema em dia são estipuladas penalidades. Quem atrasa com a lição de casa tem que acordar uma hora mais cedo no outro dia para realizar exercício extra na matéria. E para aqueles que chegarem na aula atrasados vale a mesma multa! E assim os jovens estudantes aprendem rapidamente a serem pontuais e responsáveis, se esmerando no aprendizado. é verdade, entretanto, que depois do árduo trabalho, nas horas vagas, não faltam atividades de descontração para os jovens estudantes. Fora das aulas de educação física os alunos podem escolher entre modalidades esportivas, como basquete, pólo áquatico, canoagem, equitação, pingue-pongue entre tantas outras. Desde cedo os alunos aprendem a viver em comunidade, respeitando as diferenças. A vida na comunidade escolar continua com atividades nas repúblicas de estudantes.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalA caminho da sala de aula
a caminho da sala de aula …

As refeições dos alunos são realizadas no restaurante do colégio, construído no saguão da mansão principal, permeado pela decoração neoclássica do teto e paredes adornadas e com janelas enormes que se abrem para a natureza abundante lá fora. No cardápio, pratos para satisfazer gostos de todo mundo, entre cozinha tailandesa, mexicana, indiana e até mesmo inglesa, com o típico fish and chips (peixe empanado com batata frita)! Quando os alunos não estão estudando ou praticando algum esporte, o ponto de encontro nas sextas e aos sábados à noite (somente alunos do ensino médio) é no barzinho da escola ou na balada no salão do colégio, aos fins de semana . Diversão garantida! Afinal de contas, depois de tanto estudo eles merecem um pouco de descontração!

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalFamília reunida no encerramento do ano letivo em junho 2016
Família reunida no encerramento do ano letivo em junho 2016