História impetuosa no museu da KGB em Vilnius

Museu está localizado no centro de Vilnius (Foto: Divulgação)

o último fim de semana voltamos a visitar o Museu das Vítimas dos Genocídios, ou Museu da KGB como é conhecido pelos visitantes. Localizado no centro da capital lituana é um passeio imperdível àqueles interessados em aprender sobre a história de sofrimento do povo local durante as ocupações nazistas e soviéticas no país. O imponente edifício construído no final do século XIX é parte integral da história funesta da cidade. Até 1914 a Lituânia era uma província do império russo e durante a Primeira Guerra Mundial foi ocupada pela Alemanha e em seguida pela Polônia até 1939. Se nesta época todos temiam pela própria vida poucos imaginavam que o pior estava ainda por vir. Em 1940-1941, sob o pacto Ribbentrop-Molotov, Vilnius é invadida pelas tropas soviéticas e inicia assim um novo capítulo sombrio na vida dos lituanos.

Situado numa das principais avenidas de Vilnius, o museu é um daqueles lugares que mexe com o estado emocional. É um local onde pode-se escutar o silêncio das vítimas e onde o público visitante sussura entre si como se tentando proteger as almas sofridas que por ali passaram. Com a invasão nazista, no verão de 1941, o majestoso prédio de arquitetura clássica se transformou na sede de Gestapo e seu esquadrão de extermínio. E assim iniciou a tenebrosa história de aniquilação da população judaica no país. Mais de 200 mil judeus da Lituânia foram mortos neste período. O viés padecedor do local perpetuou-se durante a longa ocupação soviética (1945-1991), quando tornou-se a sede da polícia política, a KGB. A fachada arquitetônica elegante e imponente escondia salas administrativas do alto escalão, salas de interrogatório, uma prisão enorme com celas de confinamento e tortura e uma câmara de execução.

Equipamento de espionagem da KGB (Foto: Divulgação)

Neste período, todos aqueles que resistiam à ocupação soviética eram presos, mortos ou deportados para a Sibéria. O museu retrata cada detalhe da história. Na fachada frontal do prédio estão esculpidos nomes de vários combatentes da resistência anti-soviética. O interior do museu é uma amostra fervorosa ainda que soturna, plena de detalhes trágicos de famílias e jovens combatentes. A maioria dos ambientes mantém seu formato tal e qual como em 1991, quando a KGB foi extinta. Pode-se inclusive ver os escritórios mobiliados da KGB com equipamentos secretos de espionagem.

Cela com isolamento acústico (Foto: Divulgação)

O local mais triste e ao mesmo tempo impressionante é a prisão no subsolo. Um longo corredor separa dezenas de celas sórdidas. São espaços minúsculos para uma pessoa, mas onde eram mantidos vários prisioneiros. Portas pesadas lacravam qualquer chance de fuga. Ao longo dos anos as celas foram aumentando e praticamente todo porão do imenso prédio foi transformado em prisão. Um ambiente sinistro – sem luz e sem água. Tomar banho era considerado luxo e somente na década de 60 que os prisioneiros tiveram direito a se lavar, uma vez por semana. A cela onde os combatentes contra o regime soviético eram torturados é algo difícil de descrever com palavras. A câmara é toda forrada com isolamento acústico para evitar que os gritos de sofrimento fossem percebidos do lado de fora. No centro da cela tem uma banqueta redonda minúscula e no chão um desnivelamento do piso de cimento era preenchido com água gelada. Enquanto eram torturados por horas os prisoneiros tinham que se equilibrar descalços no banquinho e ao cansar, caiam no poço gelado. E para aqueles que resistiam à tortura os agentes soviéticos usavam uma camisa de força. Entre os prisioneiros havia sacerdotes e mulheres, presos por publicar periódicos anti-soviéticos.

Escritório do esquadrão de extermínio (Foto: Divulgação)

A visita ao museu é permeada por um sentimento de descrença à humanidade pois aprendemos sobre o sofrimento e luta dos lituanos contra o genocídio. É difícil de entender, especialmente depois de ver a prisão assustadora, como as autoridades soviéticas podiam ser tão brutais, torturando e levando à morte pessoas inocentes, cujo único intuito era a luta pela liberdade de seu próprio país. O museu conta ainda com galerias de fotografias e documentos originais e muitos pertences pessoais. As imagens retratam a vida dos combatentes, em sua maioria jovens entre 18 e 25 anos, além de documentar a vida dura no campo onde as famílias trabalhavam nas fazendas coletivas sob o olhar fixo de guardas armados.

Longos corredores de celas no porão do prédio (Foto: Divulgação)

O último recinto da nossa visita foi o mais chocante de todos. Não muito distante da prisão no subsolo encontra-se a câmara de execução: o local mais macabro do museu. Ali foram executados centenas de prisioneiros. Num vídeo assistimos aos procedimentos da sentença à morte e ao tratamento desumano de cadáveres. O piso de vidro revela o chão batido com exposição de sapatos, botões, óculos e alianças das vítimas. De certa forma, saímos aliviados do museu ao deixar para trás toda aquela história dolorosa mas é impossível não se abater com tanta barbaridade humana. É impossível não pensar nas famílias e tantos prisioneiros que ali perderam suas vidas. O museu, no entanto, conta a história de pessoas que acreditavam na liberdade e que lutaram até o fim. Uma mostra real, ainda que triste, da vida durante o regime soviético.

Amostra com muitos pertences pessoais (Foto: Divulgação)

 

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