Um ano morando na Lituânia

Inverno lituano gelado (Foto: Solange Silberschlag)

Na última semana completamos doze meses vivendo no território lituano. Desde os primeiros dias por aqui, este pequeno país banhado pelo mar Báltico nos acolheu de braços abertos. Os lituanos são os latinos do norte da Europa – simpáticos, joviais e sempre prontos a ajudar. A maioria da população em Vilnius fala fluentemente inglês e com uma das universidades mais antigas da Europa bem no coração da capital, Vilnius esbanja jovialidade com uma comunidade estudantil muito ativa.

Morar num país que fez parte da União Soviética é uma experiência incrível de aprendizado. Morar na Lituânia é uma vivência que nos transporta no tempo pois a história do país é uma narrativa de luta e sofrimento, de ocupação e abnegação, de glória e determinação. Foram muitos os aprendizados neste primeiro ano imersa na cultura báltica. Entre fatos interessantes, pitorescos e chocantes relato aqui alguns deles:

1 – Aprendi que para realmente entender os costumes lituanos é preciso conhecer a história fascinante deste país. É preciso compreender seu passado sombrio de ocupações múltiplas. É preciso voltar no tempo lendo documentos históricos, tanto sobre os tempos de glória quanto a divisão política sempre presente na Lituânia. É preciso conversar com a geração mais velha para entender a nuance cultural dos tempos atuais. Durante os séculos passados o país foi dominado pelo Império Russo e mais tarde fez parte da União Soviética. A Lituânia é um país jovem pela sua liberdade (30 anos em 2020) e hoje em dia quer distância da cultura russa. Os lituanos se julgam norte-europeus e se identificam com a cultura escandinava. Aprendi que eles detestam serem comparados ao leste europeu!

Vilnius se transforma no verão (Foto: Solange Silberschlag)

2 – Aprendi que grande parte da cultura lituana é baseada na simbologia religiosa. A devoção religiosa dos lituanos permeia todas classes e idades, dos mais jovens aos idosos. Espalhadas pelo centro histórico de Vilnius encontram-se nada menos que 28 igrejas, 21 pregando a religião católica. Não obstante a repressão russa contra a religião durante mais de um século o que provocou o fechamento da maioria dos templos católicos durante o período de ocupação, os lituanos são católicos e praticantes, frequentando assiduamente as igrejas em todo país. Diariamente os sinos ressoam pelas ruelas antigas do centro histórico da capital anunciando missas e celebrações. Numa das igrejas aqui perto de casa são celebradas duas missas ao dia com a casa sempre cheia de devotos.

3 – Neste primeiro ano vivemos também nosso primeiro inverno lituano (e no momento iniciamos o segundo!). Aprendi que a estação é, além de congelante, uma das mais longass que já vivi na Europa. Descobri que o chimarrão é o melhor companheiro para as caminhadas pelos parques gelados me mantendo bem aquecida. Aqui faz muito frio e neva constantemente formando paisagens contrastantes. Aprendi que os flocos de neve além de criar cenários deslumbrantes servem também para cintilar o céu cinzento. A falta de sol deixa os dias pardos e infindáveis e acaba influenciando nosso ânimo. Aprendi que quando janeiro chega ao fim os lituanos já começam a sonhar com a primavera.

Delegação brasileira presente ao evento (Foto: Solange Silberschlag)

4 – Aprendi que quando a estação das flores chega oficialmente no calendário a neve continua a cobrir canteiros e gramados. A primavera por aqui é efêmera durante algumas semanas em abril com o desabrochar das plantas dormentes até chegar o mês de maio quando tudo se transforma no país! O sol aparece de repente e permanece incessante durante os cobiçados meses de verão. Aprendi que no verão no norte da Europa faz calor sim! E a mudança de estação conduz a uma sensação de euforia. Os lituanos aproveitam cada segundo dos dias mais longos de verão na simplicidade do campo, ou banhando-se nas centenas de lagos que recortam todo o território. Aprendi que as estações do ano definem a vida dos lituanos. Na próxima semana continuo sobre os aprendizados do último ano morando em Vilnius.

Vínculo cultural entre o Brasil e a Lituânia

Nesta semana tive o privilégio de participar da abertura de uma exposição inédita em Vilnius de um grande artista brasileiro: Lasar Segall, judeu de origem lituana , considerado um dos mestres do Expressionismo e do Movimento no Brasil em pintura a óleo, aquarela, escultura e gravura. Lasar Segall nasceu em Vilnius há 130 anos. Aos 16 anos transferiu-se para Berlim, onde frequentou a Academia Real de Artes entre 1906 e 1910. O primeiro contato de Segall com o Brasil se deu em 1912 quando viajou a São Paulo para visitar as irmãs que moravam na capital.

Já reconhecido no movimento expressionista europeu, o artista se mudou para o Brasil em 1923. É nas terras tupiniquins que sua arte se transforma pelo “milagre da luz e da cor”. Segall expressa com paixão e humanismo seu vínculo profundo com sua pátria adotiva, retratando o sofrimento da parcela mais pobre da população, a vida daqueles que moram em favelas, excluídos da sociedade, prostitutas, marinheiros e, é claro, paisagens marcadas pela luz dos trópicos. Em suas obras expostas em Vilnius Segall narra as tribulações de suas infância como menino judeu e a discriminação e o sofrimento de comunidades judaicas na Europa. Ele aborda os horrores da guerra e planos de emigração da Lituânia.

Sergio Toledo Segall, neto de Lasar Segall (Foto: Solange silberschlag)

A exposição é um marco cultural entre as duas nações trazendo à cidade natal de Segall sua trajetória do outro lado do oceano e que acontece graças ao trabalho de várias entidades culturais e o museu Lasar Segall de São Paulo. Uma grande delegação brasileira se fez presente ao evento, entre estes o ex-ministro do Exterior Celso Lafer e os três netos de Lasar Segall que pela primeira vez visitaram Vilnius. Tive o privilégio de conversar com Sérgio Toledo Segall, um dos netos, diretor de cinema e filho da falecida atriz Beatriz Segall.

Emocionado, ele nos contou sobre a visita à casa onde o avó nasceu a poucas quadras do Museu Estatal Judaico Gaon de Vilnius onde se realiza o evento. Uma exposição muito interessante e que sem dúvidas encantará aos lituanos mostrando um forte vínculo entre os dois países.

Exposição está aberta até março de 2020 (Foto: Solange Silberschlag)
Evento comemora 30º aniversário do Museu (Foto: Solange Silberschlag)
Segall se destaca na área de escultura (Foto: Solange Silberschlag)
Autorretrato do autor (Foto: Solange Silberschlag)

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