Volta ao passado na mansão de Basildon Park

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalMansão rural no interior da Inglaterra
Mansão rural no interior da Inglaterra. Muitas famílias inglesas curtindo as férias de fevereiro

Durante o recesso escolar em todo Reino Unido aproveitamos para curtir com a família um pouco do interior do país. E assim passamos um dia semana passada no parque de Basildon para visitar a belíssima mansão rural de mesmo nome, situada a 100km de Londres no condado de Berkshire, oeste da capital. Não importa a estação do ano, passear pelo interior da Inglaterra significa se deslumbrar com vilarejos encantadores, monumentos e tantos palácios rurais. Nesta semana ainda marcada pelo frio europeu, fomos descobrir mais um tesouro inglês. O valioso legado arquitetônico e passado riquíssimo do país está escrito justamente nas mansões construídas séculos atrás e que continuam a ostentar um pedaço da história do país. Por aqui, também, a história é respeitada e muito bem preservada. Nada se destroi e tudo se conserva! A Inglaterra vai muito além de Londres, por isso sempre recomendo aqueles que estão vindo visitar a capital para se aventurar pelo interior a fim de descobrir a essência britânica, deixando-se levar pelo charme e tranquilidade da vida rural.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalDecoração interior neoclássica no hall de entrada
Decoração interior neoclássica no hall de entrada

Basildon Park é um desses lugares, bem escondido, cercado por campos e simplesmente deslumbrante. Antes mesmo de chegar neste esplêndido palácio rural já estamos saboreando o ar campestre do interior, acolhidos por paisagens cativantes de campos repletos de ovelhinhas pastando e recortados por arroios de água límpida. A Inglaterra é conhecida por suas mansões, palácios e castelos históricos. Tudo começou há muito tempo! Algumas construções remetem a inúmeros séculos passados, antes mesmo de o Brasil ser descoberto. Durante os anos de 1700 e 1800 a nobreza britânica vivia o auge do grande império e aventuras a outros territórios em busca de inspiração artística e filosófica eram comuns entre os jovens aristocratas. Nesta época foram construídas muitas mansões requintadas, as famosas casas de campo, onde sociedade aristocrata e nobreza recebiam amigos e convidados ilustres para grandes banquetes e se deliciavam com passatempos típicos da época, entre cavalgadas, caça e pesca.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalAchei uma grança esses banquinhos espalhados pelas trilhas em torno da mansão
Achei uma grança esses banquinhos espalhados pelas trilhas em torno da mansão

Por todo canto do país encontram-se mansões construídas em estilo neoclássico que demonstravam poder na época, denotando ainda uma resposta arquitetônica antibarroca. Estes palácios rurais eram decorados de maneira tal a ostentar o conhecimento e riqueza adquiridos durante as viagens ao exterior. Objetos de arte raros, porcelanas, quadros, estátuas, tapeçarias e móveis eram trazidos de outros rincões para ornamentar as nobres residências e podem ser contemplados até hoje. Justamente entre 1776 e 1783 foi edificada a mansão de Basildon no meio do campo, num parque gigantesco de 162 hectares esboçando arquitetura georgiana com fachada palladiana.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalFachada frontal
Fachada frontal

A mansão tem história turbulenta e chegou a ser fechada durante um período devido ao alto custo de manutenção e falência dos proprietários. Projetada pelo arquiteto John Carr, inicialmente perteceu à família Sykes mas mais tarde com o declínio financeiro dos herdeiros foi adquirida por James Morrison. No começo de 1900 o magnífico palácio rural foi praticamente abandonado até 1950 quando retornou a seu estado de glória nas mãos da nobre família Iliffe. Ao longo dos anos a edificação sobreviveu às intempéries, com várias restaurações e mudanças, passando por vários proprietários e hoje em dia é administrada pela Fundação Nacional de Patrimônio Público (National Trust), organização britânica não governamental responsável pela conservação do patrimônio histórico do país.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalBiblioteca
Biblioteca

Desde 1976 a propriedade foi doada pela família lliffe à Fundação para restauração e conservação. E assim o parque e a mansão permanecem abertos ao público durante todo ano sob direção da Fundação e seus milhares de voluntários, na maioria aposentados que dedicam algumas horas por semana trabalhando gratuitamente como zeladores e guias de monumentos, mansões, palácios e castelos mantidos pela entidade. Este sistema de parceria entre a fundação National Trust e herdeiros de famílias aristocratas é muito comum aqui, preservando a história ao mesmo tempo que privilegiando o público em geral com a oportunidade de conhecer locais que definem a cultura britânica.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalMesa feita!
Mesa feita!

Ao entrar na mansão de Basildon somos acolhidos por duas simpáticas senhoras aposentadas e que prontamente nos contam um pouquinho da história de cada aposento. O teto alto e trabalhado em linhas curvas e delicadas logo no hall de entrada é uma pequena mostra da decoração interior rica de detalhes que está por vir nos outros cômodos. Pelas paredes ornamentadas por quadros de pintura a óleo e espelhos reluzentes vamos nos perdendo na imensidão histórica que cada aposento retrata. A impressão é de estar caminhando num cenário de filme de época transpirando o ar de grandeza e opulência desta gloriosa mansão.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalSalao octogonal
Salao octogonal

Por falar em cinema, a mansão de Basildon já foi cenário de muitos filmes de época, entre eles Orgulho e Preconceito (2005), Marie-Antoniette (2006) e Dorian Gray (2009). As filmagens mais famosas, no entanto, ficam por conta da série Downton Abbey que conquistou milhões de fãs pelo mundo e faturou vários prêmios, onde o interior da mansão Basildon serviu de cenário como residência londrina da família Grantham. Para os fãs de Downton Abbey (e eu, com certeza engrosso a lista!) a visita à mansão de Basildon é ainda mais fascinante pois é como se estivesse assistindo à saga da família ao vivo e a cores, como um personagem da série.

Da biblioteca recheada de enciclopédias e clássicos da literatura britânica ao maravilhoso salão de jantar com a mesa pronta, impecável, à espera dos ilustres convidados somos absorvidos pela decoração esplendorosa de cada cômodo. E o deslumbre continua na sala de estar octogonal, toda revestida de papel de parede vermelho e decorada com móveis antiguíssimos reluzindo nos cristais do imenso lustre pendurado no teto de oito cantos e todo adornado.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalSalao verde
Salao verde

No segundo andar da mansão encontram-se os quartos decorados a rigor, com cores vibrantes e camas de dossel, tudo muito bem preservado. A paisagem natural em torno da mansão de Basildon é testemunha de seu passado rural e bucólico, marcada por campos pastoris e ao fundo o rio Tâmisa, convidando os visitantes a caminhar pelo parque enorme. E foi justamente isso que fizemos, ao lado de tantas outras famílias que também visitavam o local, explorando cada cantinho no meio do verde.

Foto: S S Beglin / arquivo pessoallonga caminhada nesta tarde de inverno europeu
longa caminhada nesta tarde de inverno europeu

Foto: S S Beglin / arquivo pessoalE o chimarrão sempre nos acompanhando, mundo afora!
E o chimarrão sempre nos acompanhando, mundo afora!