Nesta semana, sinceramente, fiquei em dúvida se acordava para cozinhar… Estava meio sem forças e desmotivado pelo impacto desta pandemia. Mas quando levantei para tomar café olhei meu cutelo e lembrei “dela”, minha inspiração, e pensava no meu objetivo. Quando percebi já estava escolhendo os ingredientes certos para um frango a xadrez e lembrando da “vó”: com o cutelo na mão entrando no galinheiro e garantido os 2 kg de galinha que precisava para a receita, sem pestanejar, com a força incrível de uma mulher que precisava alimentar vários e não recuaria em nenhum momento… nem sendo a própria que estaria em risco, por sua faixa etária. Quando me preparava para cozinhar o frango exatamente às 7h da manhã, fazia tal qual a minha avó e seus muitos temperos: peguei 1 xícara (chá) de farinha de trigo com amor, sabe, como gosto mesmo… peneirando com delicadeza. Imaginando o que ela teria dito ou pensado nesses momento de crise e desconfianças, em frente ao seu fogão. O seu jeito Italiano de ser faria ela ir direto na horta colher os melhores pimentões coloridos e pegar as duas melhores cebolas penduradas na sua porta da dispensa, e com uma precisão “cirúrgica” cortaria tudo em cubos assimétricos. Que saudade! Eu fui tomado de um susto quando a imagem do prato me vinha à cabeça, pois jamais imaginaria naquela época, que ela me “ensinava” a fazer. Eu estava ali com minha professora e não sabia, mas olhando aqueles copinhos de vidro que ela separava na sua frente fazendo um mise en place sem ter noção do que seria… em um copo molho de soja mais um de água (sim os dois com as mesmas medidas!); em uma xícara de metal (aquelas de tomar cafezinho) tinha 2 colheres de amido de milho; aquele a amendoim torrado com casca, é claro, saindo do forno e exalando na cozinha aquele cheiro! Eu ajudava a descascar, metade já comia ali, e que sujeira eu fazia! E ela, sorrindo, sabia e já colocava sempre a mais para torrar. Fui mimando e agradeço. Eu e minha mãe por motivos da vida fomos morar com meus avós e tios, eu não fui à creche tão cedo, eu tinha tempo com eles, viva mais com eles, entre a cozinha e a alfaiataria do meu avô. Hoje, nesses dias de quarentena, gostaria de me transportar para aquela época. Vivíamos mais, tínhamos mais tempo, e essa lição que estamos vivenciando agora nos faz pensarmos mais. “Não temos estrutura para o amor que se foi.” Pensando e cozinhando, entre ferver a água do arroz para servir junto com o frango, desacreditando desse mundo um pouco. Mas me mantive concentrado e com o tempero certo, sem exageros no sal, mas com muitos legumes colorindo o prato ao som de Cintia Luz (uma batida que poucos entendem), segui o Modo de Preparo sem mudar nada. Passei o frango já cortado na farinha de trigo. Na frigideira, dourei o frango cortado em cubinhos com azeite de oliva. Quando separava o frango e deixava o azeite na frigideira para ali colocar os legumes no mesmo óleo, escutava sobre a Itália no rádio, mais 320 mortos no dia. Fiquei pensando naquele povo que fez muito por nós, por mim e por você, para a cozinha, para minha família, e nos sentimos fracos sem poder fazer nada. Dourando a cebola e os pimentões, comecei a pensar naquele país pequeno, raíz de +ou- 70% do patrimônio artístico e cultural do mundo. Eles foram isolados praticamente sem ajuda nenhuma, por quê? Temos medo de ajudar… se nos atinge, nos escondemos. Em uma tigela, misturei água, o molho de soja e o amido de milho e joguei o frango com tudo dentro. Antes de colocar o amendoim para finalizar, fui à geladeira buscar um pedaço de queijo para ralar, e com aquela notícia ao fundo pensando na história do povo, me vi com um queijo mussarela na mão, presunto… olhei para baixo e enxerguei os raviólis prontos pra serem feitos, a lasanha e pensei: tudo criação deles! O que mais gosto da cozinha foi feito na Itália, criado lá. Um dos chefes que mais admiro é italiano Massimo. Olhem no Netflix procurem por ele. Além de salvar os produtores de queijo em um terremoto na Itália, ainda tem uma causa social gigantesca em sua vida, entre outras grandezas. Aquilo me trouxe uma angústia muito grande e fiquei pensando que alguém tem que ajudar, esse povo não pode sofrer, fizeram muito por nós. Se alguém acha pouco, peça uma pizza. Hoje, com o dia mais frio pela manhã vi a notícia que a China foi agora ajudar e fiquei mais aliviado, mas torço muito para que sobrevivam a isso, pois não conseguir dar adeus aos seus e ver serem carregados como algo descartável é muito dolorido para quem tem fé. Eles têm esse direito de respirar a sua arte a sua cozinha e nos inspirar por mais algumas gerações. Neste mesmo dia, chego em casa muito abalado com o declínio da minhas vendas, digo pra minha esposa que não sei como será… Ela me olha e diz: “Temos que pensar em quem vamos ajudar”. Fiquei em silêncio e aquilo me jogou para outro mundo. Admiro as mulheres da minha vida, as que Deus colocou no meu caminho e agradeço por isso. E minha mãe mandando mensagem e me encorajando mesmo em momentos difíceis. Fiz o que faço de melhor, fui para as panelas em meu quiosque e fiz uma massa com uma fondata de queijo Rediano Parmediano que ganhei de uma amiga. Fiz o prato como uma singela homenagem ao povo italiano. Eu cozinho para alegria, cozinhar pra mim é isso: transformar alimento em felicidade. Temperei com pimenta, ervas, fritei alho, fiz ao meu gosto e pensando como o Massimo faria, montei o prato e dei para meu filho. Comeu até com as mãos para ajudar o garfo, com vontade, com aquela vontade que eu tinha quando comia a comida de minha avó. “Aqui a saudade se transformou em felicidade.” Encerrei o meu dia com o melhor que um pai pode receber nesses momentos de calamidades e incertezas: amor de um filho. É hora de começar a reparar nas coisas belas que temos em todo canto. Parar de achar que o que fazemos é pouco, não é um simples prato com massa. Vamos parar de nos diminuir. Parar de aceitar as dificuldades e buscar algo de bom sempre. Não é simples o momento e nem de fácil digestão. Mas é possível viver e ser feliz, sim. Temos muitos sabores por aí. E até mesmo na massa do seu filho, ali já podemos criar algo novo algo que representa o oposto dessa pandemia. Talvez a mudança esteja na mistura que fazemos com aquilo que nos servem. Não vamos ficar com a televisão ligada, alimentado nossas mentes com as mesmas coisas sempre. Hoje a coluna foi diferente, a receita está em negrito, mas é diferente porque precisamos estar diferentes. Tudo mudou, tudo vai mudar. Depende de nós, da empatia, da solidariedade e de sermos mais humanos. Deixo aqui para ti esse poema italiano, que representa muito minha avó e as nonas que se foram com essa triste doença.

MARIA

Maria, una donna bella
vai a cozinha, pega a panela
acende o fogo, ferve a água
avisa ao moço, vai ter tortellini
para o almoço
e fala com as mão, gesticula os braços
quase alça voo pela janela,
mesa posta e Maria, tagarela, tagarela
mostra a padella
é o tortellini? Indaga o moço
pappardelle com mozzarella.

“Penha Boina”

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