A vida real

A manchete de capa deste jornal destacou, no último dia 26, que a vigilância sanitária interditou uma casa clandestina para idosos. Segundo as autoridades, o local “não tem mínimas condições para atender a legislação”. Irregularidades apontadas: falta de plano de prevenção de incêndio (PCCI), falta de acessibilidade, falta de portas de tamanhos apropriados, ausência de controle de roedores e insetos e inexistência de lavanderia. Era apenas uma casa de moradia que abrigava quatro idosos. Estava em desacordo com as leis e, por isso, foi fechada. Até aí, tudo certo.

Mas…

Alguém já disse que tem pouco valor tudo o que vem antes de um “mas”. Vejamos se essa pequena conjunção adversativa tem todo esse poder.

Você, meu caro leitor, mora numa casa acessível? Pense bem, porque se houver um único degrau na sua casa, sem rampa, ela já não tem acessibilidade. Sua casa tem PCCI? Todas as portas são largas o suficiente para passar uma cadeira de rodas? Você tem um certificado de algum serviço de controle de insetos e ratos? Eu já vou dizendo que não tenho nada disso em casa. Casas normais não possuem esses itens, no entanto lá vive todo tipo de gente nova e velha, sadia e doente. Para onde foram levados os quatro hóspedes do local interditado? Ora, um pequeno raciocínio lógico aponta que, se estavam naquele local, é porque seus familiares não tinham condições de cuidá-los. Daí se deduz que tenham sido levados, agora, para algum lugar onde não também há nada do que estava faltando na casa interditada. Talvez até esteja faltando, agora, aquilo que é fundamental: o cuidado. Será que melhorou ou piorou a situação dos idosos? Supõe-se que o serviço social da prefeitura esteja verificando isso.

O próprio delegado que interditou o “asilo” fez o melhor resumo da situação: Disse ele: “A legislação prevê uma demanda enorme de profissionais, como médicos, nutricionistas, psicólogos, enfermeiros, fonoaudiólogos, entre outros, sendo que alguns devem atuar durante as 24 horas. Não é fácil atender toda essa legislação”. Nessa declaração, o delegado acerta nos reais motivos de não haver casas de acolhimento de idosos que atendam a uma demanda crescente a cada dia. É muito caro, é muito burocrático, é inviável alguém investir nesse tipo de estabelecimento. É quase como montar um hospital! Os possíveis clientes não têm como pagar os custos.

Aliás, será que todos os idosos necessitam de todos esses serviços complementares? Eu afirmo que não. Vejo todos os dias no meu consultório pessoas que necessitam de apenas uma coisa: cuidados. Comida, banho, hora do remédio, cama, talvez um auxílio para caminhar, enfim, aquilo que qualquer casa normal pode ter. Muitos contam apenas com a ajuda dos familiares. Alguns conseguem pagar uma cuidadora. Raros, raríssimos, teriam condições de pagar o custo mensal de um asilo que preencha todas as exigências legais.

Essas leis podem ser muito boas para garantir mercado de trabalho para diversos profissionais, porém acabam prejudicando exatamente o público alvo para a qual foram criadas. Ou seja, no intuito de “proteger”, ditas leis prejudicam os idosos porque impedem a abertura de estabelecimentos simples, limpos, confortáveis, econômicos, que deem a eles os cuidados simples que deveriam ter no próprio lar ou na casa de parentes.

Senhores legisladores e autoridades sanitárias. Querem resolver a situação dos idosos que necessitam de cuidados corriqueiros? Só há um caminho: menos leis, mais vida real. Abracem essa causa.

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