Fumacê

Abro a janela do consultório em busca de um artigo raro, o sol, e logo me vejo cercado por um mini enxame de mosquitos. São forasteiros, não se criaram no meu pátio de cimento. Fico pensando que está faltando “um frio bem rigoroso para matar os mosquitos”, como diziam os antigos. O inverno faz as pessoas esquecerem esses incômodos insetos.

No entanto, os ovos das “mosquitas” podem resistir na natureza até 450 dias. E essas espertas senhoras os depositam em lugares onde, um dia, pode haver acúmulo de água, elemento essencial para se desenvolverem. Nesse afã de preservar a espécie, cada fêmea aproveita seus efêmeros trinta dias de vida e põe cerca de três mil ovos. E contam com a colaboração de muitas pessoas – mas muitas pessoas mesmo – que entulham os fundos de suas casas com todos os tipos de lixo que possam acumular água. Assim funciona com o pernilongo comum e com o aedes aegypti, aquele tipo de mosquito que, antes, só existia no centro do país e que, agora, estamos deixando se criar por aqui como se isso fosse uma fatalidade inevitável. É o aedes que transmite o vírus da dengue, zika e chicungunya, essas pragas que só persistem graças ao desleixo humano que pode começar no quintal de cada família e terminar nos incompetentes escalões governamentais. A dengue não é uma “doencinha”: depois que começa, pode tomar rumos que a medicina não consegue deter. Só em 2019, ela já matou 86 brasileiros.

Autoridades de saúde costumam usar os meios de comunicação para pedir ao povo que não deposite lixo nos seus terrenos ou nas vias públicas. Ora, é preciso um exercício de muita boa vontade para acreditar que só isso seja suficiente para conter a proliferação de mosquitos. Pessoas não aprendem de uma hora para outra a serem caprichosas, elas precisam ser educadas para isso, o que levaria, no mínimo, uma geração. Isso, se os currículos escolares apresentassem de forma permanente uma disciplina que englobasse higiene e prevenção de doenças, o que por sua vez demandaria a formação de professores com os conhecimentos adequados para a matéria.

A atual proliferação nacional de mosquitos necessita de ações enérgicas e imediatas em nível federal, estadual e municipal. Há inseticidas biológicos que matam as larvas de mosquitos. A Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – os produz, mas parece que não encontra muitos fregueses. Esses produtos já foram usados com sucesso no começo deste século aqui mesmo em Venâncio. Há também o popular “fumacê”, a pulverização de um inseticida chamado malation que extermina os mosquitos adultos. Ouvem-se muitos palpites condenando esse método, mas as razões são inconsistentes. O que se sabe é que, em 2016, o Ministério da Saúde comprou um gigantesco lote de um milhão de litros de malation, ao custo de 204 milhões de reais, que foi estocado e nunca distribuído aos Estados. Depois de meses, percebeu-se que ficou impróprio para o uso nas bombas pulverizadoras. O governo reclamou do fabricante, a Bayer, pela suposta má qualidade do produto. Esta, por sua vez, culpou o governo pelo armazenamento inadequado do inseticida. A pendenga está longe de terminar, os mosquitos aplaudem e fazem sexo adoidadamente, enquanto os 204 milhões fazem a festa de muita gente e a incidência da dengue aumentou em mais de 450 por cento. E o aedes vem para ficar no nosso Rio Grande.

Ninguém se engane com o frio do inverno que se aproxima. Se as autoridades sanitárias não fizerem a sua parte, a próxima estação quente tem tudo para ser o “Verão da Dengue” aqui entre nós.

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