O infarto da rua principal

Todo mundo defende o seu mercado de trabalho e a manutenção de uma clientela fiel, mas existe uma categoria que parece fazer o contrário. Sãos os médicos. Calma, vou explicar. Digo isso aos meus clientes meio que brincando: veja só, o açougueiro não recomenda que você evite as carnes gordas, o padeiro não diz nada sobre os excessos de farinhas e açúcares, o dono do bar não adverte sobre os malefícios do álcool. Todos seguem a lei da oferta e da procura e não estão errados. Porém, veja só, eu, cardiologista, estou dizendo a você como evitar as doenças do coração. Isso quer dizer que, se você fizer tudo direitinho, não adoecerá nos próximos vinte ou trinta anos. E, portanto, não precisará dos meus serviços. Se muita gente seguir esses conselhos, o número de consultas, urgências e emergências cardiológicas vai cair. Então, veja você, eu estou trabalhando contra mim mesmo!

Na cardiologia, toda a prevenção tem o sentido de manter intacta a circulação do sangue. Precisamos evitar a formação das ‘placas ateromatosas’ no interior das artérias. Elas vão aumentando devagarinho, silenciosamente, até entupir uma artéria importante. Não pense, porém, que artérias importantes são as de maior calibre. As coronárias, por exemplo, são arterinhas de poucos milímetros de diâmetro que, se entupirem, causam o infarto agudo do miocárdio. Já as artérias cerebrais, de mesmo calibre, são os locais do AVC, popularmente conhecido como “derrame”. Enfim, o cardiologista e outros médicos se empenham a vida inteira na prevenção dessas doenças que vão se criando ao longo da vida. Quando ocorrem, vem o tratamento: remédios, ‘stents’ ou “molinhas” para abrir a artéria, pontes de safena.
Toda a vez que passo pelo calçadão da rua principal de Venâncio eu me lembro da cardiologia. Ali, ocorre uma estenose súbita, um estreitamento da circulação. Aquelas floreiras de concreto se desbeiçando são as placas ateromatosas, as lajes soltas nas calçadas são o epitélio vascular em desorganização, as raízes descontroladas das tipuanas são comparáveis a uma hipertrofia nociva do miocárdio. Naquele trecho que outrora nos orgulhava e agora é pura decadência, ocorrem diariamente crises de angina nas horas dos picos do trânsito. Quando chega a noite, o aspecto é desolador, comparável a uma região do músculo cardíaco quase sem vida, uma cicatriz sem força para pulsar. E, abaixo dessa zona inativa, há todo o resto da rua Osvaldo Aranha sofrendo de isquemia crônica.

Venâncio Aires tem um veículo para cada 1,5 habitante. É uma cifra impressionante. A montanha de dinheiro de IPVA, ICMS e impostos sobre combustíveis daí proveniente é mais impressionante ainda, mas o retorno para os motoristas é pequeno. E ainda temos as obras da Corsan revirando a cidade, cujos reparos finais são péssimos e ninguém cobra qualidade. Para um grande problema, temos que pensar grande. Quem se conforma com pouco nunca terá muito. Um planejamento geral e técnico do trânsito da cidade e seus acessos é necessário e urgente. Será que um dia veremos isso?

Vejo que começam a acontecer discordâncias sobre o projeto de revitalização do calçadão. Todos apresentam pontos defensáveis. Já vimos esse filme: se a polêmica ficar muito grande, melhor não mexer, deixar assim mesmo. Não vou aqui elencar sugestões arquitetônicas e viárias, assim como arquitetos e técnicos em trânsito não devem dar palpites na cardiologia. Mas essa obra não pode ficar para as calendas gregas ou para o dia de São Nunca.

2 comentários

  1. Discordo do nobre doutor. Está apenas mantendo uma clientela por mais tempo. Morto não consulta, não faz exames, não faz chek Up, não se interna, não chama em casa. Só quem ganha com a morte do seu paciente é a funerária e, a este o cliente não retorna nunca mais!
    Mas seu ponto de vista é interessante.

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