Estou escrevendo esta coluna na quarta-feira, bem na hora em que ocorreu uma pane no WhatsApp. Todos os sites de notícias dão destaque ao fato. Que será de todos nós se esse ‘terrível’ problema se arrastar para o resto do dia? Quantas novidades deixaremos de conhecer ou passar adiante? Quantas fofocas, quantos kkkkk teremos que represar? Se o defeito persistir, talvez tenhamos que usar até a nossa voz para nos comunicar com os outros. Que horror! Será o fim da civilização?

Quando eu comecei a trabalhar em Venâncio, uma ligação a Porto Alegre pelo telefone a manivela tinha que ser pedida à telefonista e podia demorar umas quatro horas para ser completada. Para quem viajava à Europa, há menos de trinta anos, a comunicação era por cartões postais. A gente ia postando no correio as paisagens dos países por onde se passava e, com isso, ia informando à família que estávamos bem. Uma ligação telefônica internacional era algo impensável e só ocorria em casos graves. Muitos cartões postais só eram entregues depois que a gente tinha voltado para casa.

Quero dizer com isso é que sempre se pode sobreviver sem a última invenção, a não ser que ela própria venha a nos matar. No caso dos celulares modernos, a tragédia pode acontecer no trânsito. Penso que o uso irregular desses aparelhos ao dirigir já esteja causando mais acidentes do que as bebidas alcoólicas. Está na hora de se quebrar o sigilo dos celulares dos motoristas envolvidos em acidentes para verificar se estavam sendo usados no momento do desastre.

Há duas semanas, estávamos passeando por Gramado e entrei numa loja de calçados. Ao ver uns cintos de couro, fui para examiná-los e pedi umas informações ao vendedor. Acabei não comprando. Três dias depois, começaram a aparecer na internet do meu celular propagandas de cintos de couro. Como é possível? Nunca fiz pesquisa sobre esse artigo, nunca tirei fotos de cintos, nunca sequer falei ao celular ou mandei mensagens sobre isso. Na hora da conversa com o vendedor, o meu celular estava ligado, porém guardado no bolso. Será que o aparelho ‘ouviu’ o meu diálogo com o vendedor? Terei no meu bolso uma miniatura do supercomputador HAL 9000 do filme “2001-Uma Odisseia no Espaço”, aquele que ficou sabendo pelas conversas e pela leitura labial dos astronautas que seria desligado e, por isso, sabotou a missão espacial?

Sim, sabemos que nossas mensagens, nossas pesquisas, nossas fotos postadas no celular formam um perfil que será vendido e entregue em tempo real para grandes patrocinadores que logo estarão nos enviando propagandas explícitas ou subliminares daquilo que nos serve. Também se desconfia de que uma simples conversa via operadora de celular pode ser ouvida por um banco de dados. Juntando tudo isso, uma grande central, não se sabe onde, monta a personalidade de cada usuário e começa oferecer-lhe coisas. Lembrando Steve Jobs, o pai da Apple Computer: “As pessoas não sabem bem as coisas que querem até nós as mostrarmos a elas.”

Já tinha ouvido falar que um celular ligado tem a capacidade de ‘ouvir’ tudo o que se fala ao redor mesmo sem estar sendo usado. Não acreditava. Porém, a partir do episódio dos cintos, passei a desconfiar ainda mais desse aparelhinho que se disfarça de parceiro, colaborador quebra-galho, enciclopédia e elo social, mas que, na verdade, parece ser o espião mais perfeito jamais inventado. E nós ainda o carregamos no bolso!

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