Você sente as bochechas esquentarem e o rosto avermelhar só de pensar que precisa falar em público. Sente as mãos suarem e os dedos tremerem. Abre a boca e a voz não vem. Passa dias querendo ver uma pessoa, mas, quando ela surge, tem vontade de se esconder.

Para quem é tímido, essas sensações fazem parte do dia a dia. Ainda mais na adolescência, a timidez acaba sendo um grande desafio. Por isso, na edição de hoje, o Na Pilha! aborda aspectos ligados a essa característica de algumas pessoas, dá dicas de como superar a timidez e de como auxiliar quem é tímido. Afinal, o importante é que, independentemente do nível da timidez, ela não seja um empecilho para a felicidade.

Timidez, um traço de personalidade

Conforme a psicóloga Joana Puglia, a timidez é a retração e dificuldade de se manifestar, que é comum em algumas pessoas. “Não existe problema em ser uma pessoa que se sente melhor sendo mais contida, mais quieta, porque ela tem menos necessidade de falar, ou não tem nada para falar sobre”, comenta a profissional. “Timidez nem sempre é algo ruim”, afirma.

Joana explica que a timidez pode ser apenas uma característica de personalidade da pessoa, que nasce com ela ou que ela cria por causa do ambiente que vive. “Uma pessoa que, em algum momento, se expôs e foi mal recebida, ou sofreu algum trauma ao se expressar, passa a evitar a exposição.”

Também pode ser porque a pessoa não quer falar sobre algum assunto, não se ‘encaixa’ ou não concorda com a opinião da família ou do ambiente que convive e quer ficar reservada. “É um traço de personalidade, ela gosta de ficar na dela, falar pouco e isso não a faz mal”, esclarece a psicóloga.

Contudo, quando alguém era menos tímido e tem uma mudança repentina, pode ser sinal de algum problema ou trauma. “Na escola, principalmente, quando alguém fala e é zoado, ou sofre sempre uma mesma zoação, pode ficar com traumas e não querer se expor, por se achar inferior”, observa a psicóloga.

Essa questão, segundo Joana, deve ser analisada pelos pais e professores. “Quando a pessoa está bem assim, gosta de estar assim, temos que respeitar, mas quando ela está assim por um motivo que a deixa triste, ou quando é tímida apenas em um ambiente, é preciso procurar ajuda”, alerta.

Psicóloga Joana Puglia esclarece que timidez nem sempre é algo ruim
Psicóloga Joana Puglia esclarece que timidez nem sempre é algo ruim (Foto: Eduarda Wenzel)

QUANDO FAZ MAL

A timidez pode ser um problema quando impede de realizar desejos e atrapalha no trabalho, nos estudos, nas amizades ou até mesmo na vida amorosa. “Quando alguém está quieto porque gosta, está tudo bem. Porém, quando está no quarto pensando que queria estar rodeado de amigos ou em um festa, mas não consegue ir por vergonha ou por se sentir inferior, daí preocupa e precisa ser trabalhado para não desenvolver outros problemas”, esclarece a psicóloga.

Outro exemplo que a profissional dá é a apresentação de trabalho na escola. “Se a pessoa não gosta de apresentar, mas faz, mesmo suando e com muita vergonha, está tudo bem. Entretanto, se ela se isola, tem ataque de pânico e deixa de realizar a atividade, é um grande problema.”

O esconderijo das redes sociais

Enquanto ‘ao vivo’, muitas vezes, é difícil se expressar, as redes sociais ajudam a esconder a timidez – atrás da tela do celular ou do computador, é bem mais fácil se expressar. A psicóloga Joana Puglia comenta que as redes sociais oferecem vantagens para as pessoas tímidas, pois, no ambiente virtual, elas não se relacionam diretamente com outras pessoas.

“Por ali, não precisam falar olhando nos olhos, podem expressar o que quiserem sem medo do julgamento direto. Às vezes, uma pessoa tem uma amizade virtual ou até um namoro e, quando se encontra pessoalmente, a química não rola tanto quanto no relacionamento virtual”, observa a psicóloga.

Também existe, em alguns casos, o anonimato, que é usado por pessoas tímidas para inventar uma pessoas com características que queria ter. “Nas redes sociais, podemos ser o que queremos, mudar o nosso perfil, e isso deixa as pessoas mais à vontade. No entanto, socialmente é errado, inclusive, pois existem crimes que são feitos por meio disso”, reforça.

Dicas para ajudar um tímido

  • Não repreender as crianças quando elas falam, pois isso pode fazer ela se achar criticada e trazer o medo de se expor.
  • Respeitar o tempo da pessoa falar e não ficar ‘cutucando’ a timidez.
  • Não fazer piadas sobre timidez com pessoas que são tímidas.

Dicas práticas para driblar a timidez

  • Respire fundo. Existem várias técnicas de respiração para aliviar a ansiedade. Elas ajudam a se preparar na hora de falar em público ou antes de conversar com alguém.
  • Quando for apresentar um trabalho, se estiver muito nervoso, não olhe para os colegas. Foque no horizonte, olhe para o fundo da sala e imagine que não tem ninguém te olhando.
  • Saiba que você é especial e confie em você.
  • Não se cobre tanto. Tente, a cada dia, avançar um pouquinho. Tente puxar conversa com alguém sobre algum hobby, pode ser uma forma de começar uma amizade.
  • Faça teatro, aula de dança e de música, ou alguma outra atividade artística e coletiva.
  • Filtre as críticas. Não leve a sério tudo o que os outros pensam ou falam. Lembre-se: cada pessoa tem um perfil diferente e não tem nada de errado com isso.

Teatro como possibilidade de se expressar

O teatro pode ser uma boa forma de trabalhar a expressão e vencer a timidez. As técnicas auxiliam a trabalhar o nervosismo para enfrentar as situações do dia a dia que geram insegurança, como falar em público, por exemplo.

A atriz e professora de teatro Rafaela Wenzel destaca que o teatro é uma boa alternativa para trabalhar a introspecção. “O teatro é um tipo de atividade social, temos inúmeras técnicas de desinibição, exercícios de improvisação, jogos dramáticos e teatrais”, afirma.

Ela ressalta que as técnicas exploram os cinco sentidos e cada pessoa tem a oportunidade de conhecer mais de si mesmo. “É importante tratar com tranquilidade, sem forçar as pessoas, mas explorar as técnicas com naturalidade”, destaca.

Rafaela enfatiza que as metodologias utilizadas no teatro são válidas independentemente se o participante quer se tornar ator ou não, pois trabalham o coletivo. “O teatro é rico justamente por seus processos, não pela necessidade de estar se apresentando para alguém”, completa.

A professora observa que a timidez é muito pessoal de cada um e é fundamental ter cuidado para não expor o estudante, por exemplo, e prejudicar em vez de ajudar. “O teatro estudantil é uma vertente maravilhosa e muitas vezes desconhecida, proporciona a busca de tornar natural o processo da expressão humana”, salienta.

Para quem sofre com a timidez, a professora sugere que busque atividades que instiguem a expressão corporal, seja teatro ou outra atividade do corpo. “Todas as atividades do corpo, tanto esportivas quanto de busca da sensibilidade, que é o foco do teatro, são fundamentais para se autoconhecer”, reforça.

Rafaela Wenzel
Rafaela Wenzel (Foto: Arquivo pessoal)

“Se o teatro faz perder a timidez? Sim. Com técnicas como jogos e atividades que visam a expressão e exploram os cinco sentidos.”

RAFAELA WENZEL

Atriz e professora de teatro

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