Na edição de hoje, compartilhamos a história da dela, que está em tratamento contra o câncer, e do Vinícius de Mattos, que concluiu o tratamento em abril.

Tem se falado muito nos últimos meses sobre se reinventar para enfrentar os desafios impostos pelos dias de isolamento social e a mudança da rotina diante da pandemia que se vive. E sobre se reinventar, acreditar e superar os desafios, a estudante Júlia Braga Schuster, 14 anos, entende bem.

Ao mesmo tempo em que o Brasil inteiro se via de mãos atadas ao tentar combater um vírus silencioso que atingiu diferentes países, Júlia recebia a notícia da mudança de planos, de caminhos e perspectivas pelos próximos meses. Enquanto muitos jovens sofriam com o isolamento e com as dificuldades das aulas a distância, Júlia aceitava uma nova realidade, um diagnóstico que chegou no dia 27 de março.

Na edição de hoje, compartilhamos a história da dela, que está em tratamento contra o câncer, e do Vinícius de Mattos, que concluiu o tratamento em abril. Eles falam sobre o desafio de encarar a doença e das coisas que contribuem para aliviar o momento. O nosso desejo é de muita força!

Aprendizado e superação

Júlia tem 14 anos
Júlia tem 14 anos

Tudo começou no dia 14 de fevereiro, quando Júlia Braga Schuster, 14 anos, deixou cair uma mala em cima do joelho. Foi ao médico, tomou anti-inflamatórios por 10 dias, mas não obteve melhora e passou por mais exames. “Eu tinha muita dor. Foi aí que o médico suspeitou de um tumor, mas disse que não poderia confirmar nada e que iria me encaminhar para Porto Alegre”, conta.

No dia 23 de março, consultou com um médico da capital gaúcha e, no mesmo dia, quando voltava para Venâncio, recebeu uma ligação para que retornasse no dia seguinte para fazer uma biópsia. “Foi aí que tudo começou. No dia 27 de março descobri o Sarcoma de Ewing, no dia 6 de abril coloquei o cateter e no dia 8 iniciaram as quimioterapias”, relata.

O Sarcoma de Ewing é um câncer que atinge os ossos e é comum em crianças e adolescentes. “No início, eu não queria aceitar nada, não queria fazer nada, foi um susto para mim. Mas eu precisava ter forças para seguir em frente e não podia desistir”, afirma.

Júlia já fez cinco sessões de quimioterapia e, depois que realizar a sexta, o próximo passo será uma cirurgia para retirada do fêmur e colocação de uma prótese. Depois disso, serão mais oito sessões de quimioterapia. “É tudo bem complicado nesse tratamento e muito agressivo também”, afirma a garota, que está fazendo todo o tratamento em Porto Alegre. Depois de 13 dias internada no Hospital de Clínicas, sendo que em três ficou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ela teve alta ontem e retornou para casa.

Amigos e família

Júlia com os pais, Bianca e Marciano, e o irmão Bento (Foto: Arquivo Pessoal)
Júlia com os pais, Bianca e Marciano, e o irmão Bento (Foto: Arquivo Pessoal)

Além de todas as dificuldades da doença, Júlia conta que o difícil é lidar com a saudade dos familiares, amigos e principalmente do irmão, Bento, de 2 anos. “O momento mais difícil até agora com certeza foi descobrir tudo isso e os dias de hospital que eu preciso ficar longe do meu irmão”, lamenta.

A guria diz que o apoio da família e dos amigos é fundamental neste momento. Ela sugere que é legal que os amigos mais próximos perguntem sobre como está se sentindo, mas também deem um pouco de espaço. “Tem muita gente que se aproxima, se faz de amiguinho só para ficar perguntando coisas e isso é chato. Os amigos próximos têm que apoiar muito do início ao fim e não abandonar na metade”, desabafa.

Estudante do Colégio Gaspar da Silveira Martins, Júlia também participa do Interact Club há oito meses. No início das quimioterapias, quando raspou o cabelo, alguns amigos também rasparam em apoio a ela.

“Eu aprendi muita coisa com isso, vi as forças que eu tenho, aprendi a lidar melhor com as coisas e, principalmente, a dar mais valor para a minha vida.”

Júlia Braga Schuster – Estudante 

Instagram

Nas redes sociais, ela compartilha momentos do tratamento contra o câncer (Foto: Arquivo Pessoal)
Nas redes sociais, ela compartilha momentos do tratamento contra o câncer (Foto: Arquivo Pessoal)

Júlia usa o Instagram para interagir com as pessoas, falar sobre o tratamento e cada etapa que está passando. “Eu quis começar a usar as redes sociais para inspirar e dar forças para mais pessoas, não só pessoas que estão passando por isso, mas para todas as pessoas”, diz.

 

 

 

 

 

Vencer o câncer com positividade

Encarar o câncer com positividade é o lema do técnico em Enfermagem Vinícius Alves Ferreira de Mattos, 21 anos. Prestes a ir para o Paraguai para cursar Medicina, em outubro do ano passado, ele descobriu que tinha câncer nos testículos e precisou cancelar a viagem para começar o tratamento. “Percebi que tinha algo diferente, mas não sentia dor, mesmo assim procurei um médico e tive o diagnóstico”, relembra. Naquele momento, precisou ser corajoso e positivo. “É muito difícil escutar que está com câncer, mas acho que encarei bem psicologicamente.”

Vinícius Mattos terminou o tratamento em abril (Foto: Eduarda Wenzel/Folha do Mate)
Vinícius Mattos terminou o tratamento em abril (Foto: Eduarda Wenzel/Folha do Mate)

Posteriormente, o jovem começou a fazer tratamento em Santa Cruz do Sul e passou por cirurgia. “Foram quatro ciclos de quimioterapia, fazia uma semana direto e folgava por 21 dias”, conta. Ele lembra que, durante a semana de tratamento, passava pelos piores momentos. “Não sei como descrever o que é a quimioterapia, porque é horrível, eu só queria descansar, nem era dormir, mas deitar e fechar os olhos.”

Com a ajuda da mãe e dos amigos, ele curtia os momentos em que se sentia melhor. “Meu amigos próximos acompanhavam minha situação, até fizeram uma festa antes de começar a quimioterapia.” Como tinha que evitar aglomeração, por causa do tratamento, ele saía, especialmente, em lugares ao ar livre. “Não via a hora de passar os sintomas da quimioterapia para poder sair com meus amigos. Íamos para lugares no interior e eu podia aproveitar a vida normalmente.”

Sobre a queda de cabelos, Vini lembra que esperou um pouco para ver como seria. “Fiz o primeiro ciclo de químio e um dia acordei com o travesseiro cheio de cabelos, daí comprei uma máquina e eu mesmo raspei em casa, foi mais tranquilo que imaginei.” Porém, quando a sobrancelha caiu, o jovem ficou mais abalado. “Sem sobrancelha parecia desfigurado, mas depois me acostumei.”

O guri observa que a família sofre tanto quanto a pessoa que está em tratamento. No caso dele, a mãe ficou bem abalada. “Ela ficou mais mexida que eu, via que ela estava sofrendo e fazendo tudo que era possível para me ajudar.”

Registro da última sessão de quimioterapia de Vinícius, acompanhado pelas enfermeiras Cátia Severo, Charlene Silveira e Jociele Morales (Foto: Divulgação)
Registro da última sessão de quimioterapia de Vinícius, acompanhado pelas enfermeiras Cátia Severo, Charlene Silveira e Jociele Morales (Foto: Divulgação)

Redes sociais

Vinícius preferiu não contar para muitas pessoas que estava passando por um câncer. Por isso, depois de algum tempo de tratamento contou em um vídeo no Instagram. “Muitas pessoas espiculavam sobre o assunto, então depois de alguns meses contei um pouco no Instagram, mas nunca me expus demais”, comenta.

Em abril, ele terminou o tratamento e, desde então, se sente melhor para falar sobre a doença. “Agora que tudo passou, eu postei um agradecimento e falo mais abertamente sobre isso.” Em uma publicação no Facebook, quando o tratamento acabou, ele divulgou uma foto com as enfermeiras e agradeceu algumas pessoas. “Tive um atendimento maravilhoso na clínica, eu precisava agradecer eles.”

ÁREA DA SAÚDE

Como Vinícius tem formação de técnico em Enfermagem, ele acredita que isso ajudou durante a doença. “Eu já sabia mais ou menos o que aconteceria no tratamento e também conseguia controlar o soro e outras coisas.”

No futuro, o jovem quer cursar Medicina e pensa em ajudar outras pessoas com câncer. “Durante as quimioterapias pensava que nunca poderia atuar nesta área, mas agora já penso um pouco diferente, porque seria uma relação com empatia, pois já sei o que é passar por isso.”

“O medo da morte é real, mas não podemos ver o diagnóstico de câncer como um diagnóstico de morte, temos que ter positividade.”

Vinícius Alves Ferreira de Mattos – Técnico em Enfermagem

Jovens com câncer

Conforme dados da Liga Feminina do Combate ao Câncer de Venâncio Aires, no momento, cinco jovens entre 11 e 21 anos estão cadastrados na entidade e fazem tratamento contra o câncer. Destes, quatro têm leucemia e um câncer nos ossos.

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