A disseminação de fake news se tornou um tema comum nos últimos tempos. Em meio a uma enxurrada de informações na internet, cair em uma notícia falsa virou uma armadilha. Sem querer, podemos ser enganados e, de quebra, levar adiante informações que podem até mesmo prejudicar alguém. De que forma podemos evitar isso?

A equipe do Na Pilha!, que integra um veículo de comunicação de quase 48 anos, e é formada por jornalistas e estudante de Jornalismo, acredita que falar sobre fake news e dar dicas de como identificar informações falsas estão entre as principais formas de reforçar a luta contra as notícias falsas. Aproveitamos que setembro é o mês de conscientização, orientação e combate às fake news em Venâncio Aires, conforme lei aprovada pela Câmara de Vereadores, em junho deste ano, para destacar este tema tão importante. Que esta matéria ajude você a se tornar, também, um agente no combate às fake news.

Afinal de contas, o que são fake news?

Um termo tão presente no nosso dia a dia, atualmente, fake news são todas as notícias inverídicas – um conteúdo criado em forma de notícia e que foi potencializado com a internet. A professora do curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), jornalista Cristiane Lindemann, explica que os conteúdos são tratados com ‘roupagem’ de uma notícia verdadeira – seja em áudio, vídeo ou texto – que faz com que as pessoas acreditem que se trata de algo real.

“Pode ser algo que em algum momento foi notícia e é retomado e repassado como algo factual, ou então alguma notícia que passa com algum recorte, no qual parte da história vem à tona, passando para o público essa ideia limitada ou distorcida”, afirma. Além disso, a professora lembra que há, também, um segundo tipo de notícias falsas: aquelas criadas com más intenções, que visam a favorecer algum grupo, indivíduo ou instituição.

Cristiane observa que são diferentes os motivos que levam a criar uma fake news. “Pode ser pelo retorno financeiro do clique, mas é muito comum que haja um propósito ideológico, tanto para denegrir como para criar uma imagem positiva de alguma pessoa. Pode ter caráter financeiro, mas na maioria das vezes é ideológico”, acredita.

É mais frequente que ocorram fake news com notícias de tom mais negativo, que logo despertam a atenção e as pessoas passam adiante. “As fake news se valem muito disso, para denegrir a imagem de alguém. Ao mesmo tempo, podem se criar notícias falsas para vender um produto, para ganhar votos. Estamos em ano eleitoral, temos que ficar muito atentos a isso”, completa.

Cristiane reforça que a disseminação de notícias falsas foi potencializada em 2016, durante a campanha eleitoral de Donald Trump, nos Estados Unidos. Usuários recebiam informações disparadas por robôs, na medida que demonstrassem mais ou menos interesse no candidato. “Foi uma pauta mundial e aqui no Brasil foi escolhida como a expressão do ano em 2017. Todo indivíduo que utiliza redes é potencial disseminador de notícias falsas”, alerta. A pessoa que passa adiante pode não ter um propósito, mas quem criou a notícia tem, por isso, é tão importante a checagem antes de compartilhar sem ter certeza da veracidade.

A jornalista explica que a proporção de notícias falsas está tão grande que redações estão trabalhando exclusivamente para isso. “Acho importante lembrar que notícia falsa é diferente de notícia errada. Os jornalistas podem errar, mas é obrigação do profissional se retratar, avisar que houve uma falha na apuração da informação, que ocorre sem intenção e pode ser corrigido, é diferente de notícia falsa.”

Recebi uma notícia suspeita. O que eu faço?

  1. Não passar adiante a informação sem ter a certeza que é verdadeira é o primeiro passo para não disseminar uma possível fake news.
  2. Sempre que receber uma informação solta, sem autor, é preciso desconfiar.
  3. É importante checar se o conteúdo é atual e se outros veículos publicaram a informação.
  4. Também é fundamental observar quais as fontes citadas no conteúdo.
  5. Existem sites específicos para checagem de notícias, como Agência Lupa e Aos Fatos.
  6. É possível entrar em contato com essas empresas e pedir a checagem das informações.

“Antes de compartilhar, precisamos desconfiar e ponderar, pensar que esse gesto pode prejudicar alguém. Nas próximas semanas, vamos ver publicações tentando favorecer ou denegrir candidatos e precisamos ter essa consciência de pensar que a gente pode prejudicar alguém repassando essas informações.”

Cristiane Lindemann

Professora do curso de Comunicação Social da Unisc

Cristiane Lindemann
Cristiane Lindemann (Foto: Arquivo pessoal)

Projeto de lei contra fake news

Um Projeto de Lei de Combate ao Fake News, que já foi aprovado pelo Senado, e segue para a Câmara dos Deputados, cria a lei de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, com normas para as redes sociais e serviço de mensagem como WhatsApp e Telegram. A intenção do PL 2.630/2020 é evitar notícias falsas que possam causar danos individuais ou coletivos e à democracia.

Entre as principais mudanças previstas estão regras para coibir contas falsas e robôs, facilitar o rastreamento do envio de mensagens em massa e garantir a exclusão imediata de conteúdos racistas ou que ameacem crianças e adolescentes, por exemplo. O projeto também cria regras para as contas institucionais de autoridades, como o presidente da República, e prevê punições para as plataformas que descumprirem as novas normas.

Informações falsas sobre a pandemia são enfrentadas com ajuda de voluntários

Ajudar no combate das fake news é uma tarefa diária da estudante venâncio-airenses Tainá Iraê da Luz Vieira, 18 anos. Desde abril, ela participa do projeto do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que selecionou voluntários, de forma on-line, para ajudar a diminuir a disseminação de notícias falsas durante a pandemia de Covid-19. Com isso, a adolescente participa de palestras, workshops e leituras sobre o assunto.

O projeto deve continuar enquanto a pandemia continuar. Conforme Tainá, as fake news sobre o coronavírus são frequentes nas redes sociais e “como as pessoas querem acreditar nessas notícias como a cura, acabam compartilhando e acreditando sem terem certeza.”

Nesses meses de trabalho, ela publicou nas suas redes sociais dicas de como analisar um conteúdo antes de compartilhar, observou o que os amigos divulgavam e, quando necessário, conversou com eles sobre estarem disseminando fake news. “Percebi que as pessoas mais jovens, principalmente estudantes, cuidam mais ao compartilhar. Poucas vezes tinha algo que era falso. Porém, as pessoas mais velhas, muitas vezes, acabam achando que tudo é verdade”, comenta Tainá.

A maioria das notícias falsas sobre a pandemia, segunda o que a estudante analisou, são sobre a cura, remédios milagrosos ou até mesmo dizando que o vírus é falso. “As fake news sempre são polêmicas, trazem esses assuntos e, infelizmente, algumas pessoas acreditam e acabam deixando de cuidar do isolamento social”, lamenta.

DICAS

Tainá reforça que é preciso cuidar com os títulos sensacionalistas, que são muito usados em notícias falsas. De acordo com ela, também é necessário analisar a fonte – se for um site, olhar os outros conteúdos que ele oferece e também procurar a notícia em mais locais.

Taína Iraê da Luz Vieira
Taína Iraê da Luz Vieira (Foto: Eduarda Wenzel)

“As pessoas devem desconfiar de notícias rasas, que falam apenas um assunto, sem ter entrevistados e sem muita explicação.”

 Taína Iraê Da Luz Vieira

Voluntária do Unicef no projeto de combate às fake news

 

3 dúvidas comuns sobre fake news:

  •  Quem repassa as fake news?

A jornalista e professora Cristiane Lindemann afirma que, como os adolescentes passam muito tempo em frente às telas e têm contato com muita informação, eles têm potencial grande de serem transmissores de fake news. Muito também por lerem apenas o título e repassar a notícia. Por outro lado, ela observa que um estudo recente feito na Rússia apontou que jovens não têm o hábito de compartilhar as notícias, porém, não sabem identificar o que é fake news.

Uma pesquisa feita por psicólogos da Universidade de Harvard aponta que as fake news são muito difundidas por pessoas idosas. Isso se dá por conta do declínio mental proveniente do envelhecimento, isolamento social e pouca intimidade com o mundo digital.

  •  Em qual rede circulam mais fake news?

Cristiane observa que, por mais que não existam estudos que comprovem especificamente, acredita-se que a transmissão de notícias falsas no WhatsApp tem uma proporção maior. “Tem pesquisas que mostram que grupos de família são os principais propagadores de notícias falsas do WhatsApp”, comenta. A própria rede social criou estratégias para combater as fake news, como limitar o número de pessoas para as quais é possível encaminhar uma mensagem e o recurso de mensagem encaminhada – assim, quem recebe, já vê que é algo que foi repassado.

  •  Qual a responsabilidade de quem cria e compartilha informações falsas?

A disseminação de notícias falsas pode trazer vários prejuízos, tanto para quem posta quanto para quem compartilha e para as vítimas. De acordo com professora da Unisc e doutora em Direito, Caroline Bittencourt, a pessoa que compartilha notícias falsas, nas redes sociais ou em aplicativos de mensagem, por exemplo, tem responsabilidade criminal, civil e administrativa pelos atos.

Ela esclarece que existem diferenciações. Alguns, cometem a divulgação sem saber que tais informações são falsas, assumindo, portanto, o risco de compartilhar sem verificar a fonte. Já outros, são considerados mais graves, quando a pessoa age com dolo (com intenção) de espalhar a informação falsa.

Segundo a especialista, estas pessoas que compartilham podem cometer crime contra a honra e, dependendo do caso, terão pena prevista no Código Penal. Além disso, Caroline acrescenta que, algumas situações podem se enquadrar em condutas como denunciação caluniosa e contravenção penal. Para além disso, podem tipificar crimes contra o consumidor e também das relações de consumo.

“Em situações que geram algum tipo de dano às vítimas da fake news, a pessoa pode ser obrigada a uma reparação por danos morais e materiais que vier a causar, que irão variar em conformidade aos casos concretos.”

Caroline Bittencourt

Professora de Direito da Unisc

 Caroline Bittencourt
Caroline Bittencourt (Foto: Arquivo pessoal)

O papel do jornal no combate às notícias falsas

A editora da Folha do Mate, jornalista Letícia Wacholz, explica que os meios de comunicação tradicionais têm uma trajetória de credibilidade junto às comunidades, e isso reforça sua atuação no combate às fake news. “Na internet, os sites e as páginas destes veículos (jornais, rádios e canais de televisão) são considerados os mais confiáveis e recomendados para se informar e atualizar. A segurança está atrelada à confiança que a empresa/veículo transmite.” Por isso, ela reforça a importância de as pessoas se informarem pelos veículos de comunicação. “O leitor precisa aprender a identificar o que é uma notícia falsa, precisa desconfiar, e na dúvida, não compartilhar. A alfabetização digital é um desafio.”

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