Foto: Paula Carvalho / Tudo & TodasUm esmalte em meio aos brinquedos?
Um esmalte em meio aos brinquedos?

Nunca fui de muitas vaidades. Na verdade, as coisas mudaram muito nas últimas décadas. Não lembro de ter chegado perto de maquiagem até completar 15 anos, o que não é de se estranhar para uma garota que não brincava de bonecas e sim com bola de gude. Hoje, as meninas só não saem da maternidade de batom e rímel porque ainda não inventaram cosméticos seguros para recém nascidas. Na adolescência, usávamos camisetões e calças largas. éramos horríveis. Mas bem que comprei esmalte Rebú e tentei fazer as unhas algumas vezes. Fracasso total, nada que levasse menos de três horas para aprontar e mais de cinco minutos para remover, pois a  pintura havia ficado borrada ou amassada.

Posso dizer que evoluí bastante e até já consigo enganar com a maquiagem, mas as unhas… Não sei cortar, não sei lixar, não sei tirar as cutículas. Pintar, então, missão impossível, ainda mais depois da chegada dos filhos. Nem quando eu tento passar uma base fica direito. E nas vezes que ficou melhor, antes que secasse, alguém chamou:

– Manhê, preciso ir ao banheiro!

– Onde mesmo deixei a acetona?

Na última semana, o Tudo & Todas me deu um lindo esmalte rosa, como forma de marcar o início dos trabalhos da revista feminina digital. Mesmo preferindo azul, adorei o souvenir, que está enfeitando minha mesa, já que só vai para as unhas se alguma manicure se habilitar. Por sorte, tenho dois meninos, que não precisam de trança nem de coque de ballet. No máximo um gel para dar um ar mais divertido à produção. Sorte minha e deles. Gostaria muito de ser mais vaidosa. De ter agenda fixa num salão, de desfilar por aí de unha bem feita e cabelo escovado, mas acabo priorizando outras coisas e me perco no tempo envolvida com as crianças. Não me entendam mal, acho lindo quem se cuida, quem se produz, quem sabe ser naturalmente feminina. Posso até dizer que invejo uma unha bem feita, principalmente quando elogio e a pessoa responde:

– Fui eu mesma que fiz.

– Como assim?

E se ela tiver filhos, me encho de interrogações: O que ela fez com as crianças enquanto pintava as unhas? Onde as enfiou enquanto esperava secar? Ninguém pediu para ir ao banheiro enquanto isso? Ninguém pediu para ajudar, nem virou o esmalte? Nenhuma das crianças ficou com fome?

Mas vaidades a parte, a feminilidade se mostra também com outras faces. Mesmo preferindo o azul ao rosa, usando tênis ralado e caderno sem capa, sempre me senti muito mulher. Posso não dominar o uso do esmalte, mas adoro um salto alto, um vestido curto e o cabelo solto. Não tenho coleção de pulseiras, mas não ando sem brincos. Não tenho horário fixo em salão de beleza, mas me sinto ótima quando driblo a agenda e acho um tempinho. Jogava futebol, vôlei, basquete, mas me adorava mesmo era quando me produzia para a patinação.

Hoje sou uma mulher vivendo num mundo de meninos, cercada por carrinhos, bolas de futebol, monstros estranhos, gelecas e dinossauros. Não há fadas nem princesas na nossa casa. Não há vestidos cor de rosa, nem tiaras com flores. Mas é aí que ser mulher se torna ainda mais maravilhoso. é de mim que eles cuidam, é a mim que paparicam. E é para mim que um dia ainda vão trocar o pneu do carro. Pelo menos até que encontrem alguma mulher mais interessante. E, cheia de ciúmes, espero aproveitando o meu reinado.