Seis pessoas de uma mesma família chegaram a ficar internadas pela Covid-19, ao mesmo tempo, no Hospital São Sebastião Mártir (HSSM).
À esquerda, registro do dia em que Carlos Vedoya deixou o hospital. À direita, Odete e Salvador, que faleceram (Foto: Arquivo Pessoal)

“Deus faz milagres, pois sou a prova disso. Agradeço primeiro a Ele, mas também aos médicos, às enfermeiras e a todas as outras pessoas que cuidaram de mim enquanto estive no hospital. Fizeram de tudo para salvar uma pessoa que eles nem conheciam”. A frase é do caminhoneiro e motorista Carlos Vedoya, popularmente conhecido como Carlinhos Canha, de 55 anos, uma das quase 300 pessoas que oficialmente foram infectadas pelo coronavírus na Capital Nacional do Chimarrão.

No dia 24 de junho, parte da família Vedoya reuniu as forças que restavam e foi à recepção

Seis pessoas de uma mesma família chegaram a ficar internadas pela Covid-19, ao mesmo tempo, no Hospital São Sebastião Mártir (HSSM).
Carlos está em casa, em recuperação (Foto: Arquivo Pessoal)

do Hospital São Sebastião Mártir (HSSM). Naquele dia, Carlinhos teria alta, após mais de 45 dias internado. Só na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) foram 33 dias de tratamento para vencer a Covid-19. Desse período, ele não tem lembranças. Só foi saber que outros cinco familiares seus estiveram internados na casa de saúde, ao mesmo tempo, quando voltou à sua casa, localizada no bairro Gressler.

Logo depois do momento de celebração pela recuperação de Carlinhos, veio a informação que o deixou em choque: poucos dias antes, os pais dele, Odete e Salvador Vedoya, de 75 e 83 anos, respectivamente, haviam falecido em decorrência de complicações do coronavírus. “Ele paralisou. Tivemos que contar no dia em que ele saiu do hospital, pois ele queria fazer visita para os pais dele. Foi muito triste”, recorda a costureira Maqueli Vedoya Martini, de 30 anos, filha de Carlinhos.

Seis pessoas de uma mesma família chegaram a ficar internadas pela Covid-19, ao mesmo tempo, no Hospital São Sebastião Mártir (HSSM).“Nossa família ficou quase dois meses em desespero. Perdemos duas pessoas que eram tudo para nós e rezamos muito para que os outros ficassem bem. Hoje, lamentamos as mortes dos meus avós e pedimos para que os demais familiares tenham sua saúde restabelecida.”

MAQUELI VEDOYA MARTINI – Costureira

Policial militar da reserva, Salvador morreu no dia 8 de maio. Odete faleceu 17 dias depois, no dia 25 de maio. Os dois foram sepultados no Cemitério Jardim Bela Vista. “Quando meus avós morreram, era época em que não estavam sendo permitidos os velórios. Não nos despedimos deles, foram só os cortejos. Não podíamos nem colocar as mãos sobre os caixões. Foi muito triste”, afirma Maqueli. Além de Carlinhos, Salvador e Odete, outros três filhos do casal foram positivados para coronavírus. Um ficou 20 dias na UTI, outros dois passaram pelo setor Covid-19 e se recuperaram.

Preconceito

  1. Segundo Maqueli, que tem outros dois irmãos, enquanto a família Vedoya viveu o drama de seis internações e duas mortes em decorrência do coronavírus, o preconceito foi algo que “machucou”.
  2. Ela cita que notou o afastamento de muitas pessoas – o que entende, em razão dos cuidados e da necessidade de isolamento social – e os “olhares feios”.
  3. O que mais incomodou a família, conforme a costureira, foram os comentários de que as pessoas “chamariam a Polícia se nos vissem nas ruas”.
  4. De acordo com Maqueli, os comentários surgiram tanto no bairro Gressler, onde ela reside com a família, nos fundos da casa do pai e da mãe, quanto no bairro Coronel Brito, onde residiam os avós Odete e Salvador.
  5. “Depois que meus avós faleceram e meu pais e meus tios se recuperaram, os comentários pararam. Mas, enquanto estávamos desesperados com tudo o que acontecia, também tivemos que conviver com isso”, frisa.
  6. “As pessoas julgam sem saber o que as outras estão passando. Ninguém quer este vírus, mas se pegou, tem que tratar e se cuidar. Foi o pior momento da minha vida e, acredito, de todos os meus familiares”, conclui Maqueli.

Informações

  • Durante o tempo em que os familiares estiveram internados no Hospital São Sebastião Mártir (HSSM), Maqueli e um tio foram os responsáveis por informar ao restante da família sobre o estado de saúde de cada um deles.
  • Ela ressalta que a comunicação era rápida e que todos ficavam sabendo das pioras e evoluções dos familiares rapidamente. “Foi um período de muita tensão. Não desejo isso a nenhuma família”, afirma ela.
  • A costureira diz que só tem a agradecer aos profissionais que cuidaram, dia após dia, dos seus familiares. “Fomos muito bem atendidos por todos. Sabemos que fizeram tudo que foi possível por cada um dos nossos familiares que estiveram internados”, afirma.

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