Nos livros, uma oportunidade para recomeçar

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Todo o ‘santo dia’ Éderson Luis da Silveira, 33 anos, marcava presença depois do expediente na Biblioteca Pública Municipal Caá Yari. Depois de sair da indústria metalúrgica em que trabalhava, ele pegava a bicicleta e ia até o local, para ter a companhia dos livros.
Naquela época, o venâncio-airense, teve que interromper o curso de Letras pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), pois continuar os estudos era inviável. Ele precisava cuidar da sobrinha, não podia ‘bancar’ uma faculdade particular e, além disso, se achava despreparado para ingressar em uma universidade federal.

Motivado pela bibliotecária Rosaria da Costa, ele percebeu que havia uma oportunidade para recomeçar os estudos. “Na região, não havia muitas livrarias e eu considerava o local um reduto para sair do contexto em que eu estava”, afirma o venâncio-airense, que na adolescência, sempre foi muito solitário.

Apesar das circunstâncias, Rosaria ofereceu a casa da irmã, Gorete, em Rio Grande para que ele pudesse dar continuidade aos estudos. “A Rosaria tinha uma irmã que morava no Cassino e disse que eu poderia ficar lá, já que, a região contava com duas universidades federais, em Pelotas e Rio Grande”, relembra. Ele ficou quatro anos em Rio Grande, local onde teve a oportunidade de fazer a graduação em Letras, pela Universidade Federal de Rio Grande (Furg).

Até hoje, Silveira é grato pela oportunidade e incentivo recebido pela amiga Rosaria. Depois de concluir a graduação, Silveira se mudou para Santa Catarina para fazer mestrado e doutorado em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), local onde atua como professor.

Toda vez que retorna a Venâncio Aires, ele visita a amiga Rosaria, na Biblioteca Pública Municipal Caá Yari, local que sempre frequentou na adolescência. “Moro fora há 10 anos e mesmo assim, não deixo de visitar a amiga que tanto me incentivou a estudar. Assim como as escolas públicas em que estudei”, afirma.

“Tenho muito orgulho em dizer que vim de uma escola pública. Por meio dos livros construí o meu caminho com ardor e conquistei a minha independência. Por meio da leitura aprendemos a ter mais paciência, tolerância e a desenvolver ideias diferentes.”

ÉDERSON LUIS DA SILVEIRA
Doutor em Linguística

 

Hábito de ler

A motivação pelos livros não surgiu através da família e sim, do incentivo das professoras da Escola Estadual de Ensino Fundamental Brígida do Nascimento e Escola Estadual de Ensino Médio Crescer, quando voltou de Arroio do Meio para concluir o Ensino Médio. “As professoras foram uma inspiração para mim, foi nesta época que desenvolvi o gosto pela leitura. Os profissionais não formavam máquinas para destruir leitores, pelo contrário, eles pediam para que escolhêssemos os livros que mais gostávamos e mostravam que a leitura não era uma obrigação e sim, algo prazeroso”, recorda o leitor, salientando que a escola pública ensinava os alunos a dialogar com aquilo que os estudantes mais gostavam.

Segundo ele, naquela época, os pais não tinham o hábito de ler em casa. “Minha família estranhava que eu gostava muito de ler. Recordo que uma vez eles trancaram a porta do meu quarto para que eu fosse jogar bola”, comenta o leitor que já colecionava gibis, desde os 7 anos.

Vindo de uma família de mais quatro irmãos, ele afirma que apesar de estar longe, sempre motivou os mais novos Leonardo e Nathan, de 15 e 17 anos, respectivamente, a ler. “Eles são da geração dos jogos e games, mas também desenvolveram o gosto pela literatura”, conta.

Silveira já teve em torno de 400 livros, mas teve que se desfazer de alguns em decorrência das mudanças que teve que fazer de Rio Grande para o estado vizinho de Santa Catarina, em que reside. “Na época, eu paguei uma mudança para carregar os meus livros comigo”, comenta o professor. Segundo ele, quando vem a Venâncio visitar a família, sempre carrega uma obra para ler durante a viagem. A família também vem adotando o gosto pela literatura, mesmo assim, ainda brinca com Silveira toda vez que ele carrega consigo um dos livros. “Minha mãe sempre comenta: ‘Você não está mais trabalhando, será que já não leu o bastante o ano inteiro!’”, conta o venâncio-airense.

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