Dedicamos a edição desta terça-feira, 8, para falar sobre um tema pouco conhecido, mas que precisa ser debatido: o capacitismo.

Dedicamos a edição desta terça-feira, 8, para falar sobre um tema pouco conhecido, mas que precisa ser debatido: o capacitismo. O termo se refere ao preconceito a pessoas com deficiência, ligado à ideia de que elas não são capazes de fazer determinadas atividades. Em muitas situações, essa ideia está tão enraizada na sociedade que sequer percebemos o preconceito por trás de comentários.

Afinal, existe uma única maneira correta de fazer alguma coisa? Qual a importância de valorizarmos e estimularmos a autonomia das pessoas com deficiência? Como devemos agir para reforçar a luta anticapacitista? Esses são alguns dos temas abordados nesta matéria.  Desejamos que essas reflexões e as histórias da Josi e do Bruno sejam um incentivo para você aprender mais sobre o assunto e reforçar a nossa corrente pela inclusão. Boa leitura!

Já ouviu falar em capacitismo?

É possível que você ainda não tenha ouvido falar sobre o termo capacitismo, mas, com certeza, você já presenciou ou soube de algum episódio capacitista. A terapeuta ocupacional Marina Severo Jantsch explica que capacitismo é a manifestação de preconceito ao supor que pessoas com deficiência sejam incapazes de realizar ocupações ou atividades que queiram ou precisam executar.

Terapeuta ocupacional, Marina reforça a luta contra o capacitismo (Foto: Divulgação)

Um exemplo de situação capacitista é quando solicitamos uma informação sobre a pessoa com deficiência e a pergunta é direcionada a um familiar, e não para a pessoa. Da mesma forma, quando se oferece ajuda para realização de uma tarefa sem saber se, de fato, a pessoa necessita de ajuda, ou quando se imagina que, por conta da deficiência, a pessoa é dependente de um familiar para realização de suas atividades de higiene, alimentação e lazer, por exemplo.

A terapeuta ocupacional esclarece que as habilidades são desenvolvidas ao longo da vida. Elas são resultado de um processo que envolve estímulo, treino e prática. Segundo Marina, é preciso entender que a deficiência não é incapacitante: a pessoa com deficiência pode desenvolver habilidades para uma vida funcional como qualquer outra. “Uma atividade pode ser executada de diversas maneiras e, mesmo assim, não deixar de ser efetiva”, esclarece.

Marina explica que, a todo momento, de forma natural, as pessoas recebem diversos estímulos: visual, auditivo, olfativo, gustativo, tátil, vestibular (relacionado ao equilíbrio) ou proprioceptivo (capacidade de reconhecer a localização espacial do corpo). “Ao contrário do que muitas pessoas pensam, não temos apenas cinco sentidos”, salienta.

Dessa forma, na medida em que não há o funcionamento de um sistema sensorial, os outros se desenvolvem mais. “No caso de pessoas que já nasceram com a deficiência visual completa, esse processo de adaptação se dá com mais facilidade. Já no caso de pessoas que adquiriram a deficiência ao longo da vida, principalmente após a infância, talvez sejam necessárias adaptações instrumentais, ambientais e de rotina para uma melhor execução das suas atividades de vida diária.”

“A deficiência não é incapacitante. Uma atividade pode ser executada de diversas maneiras e, mesmo assim, não deixar de ser efetiva.”
MARINA SEVERO JANTSCH – Terapeuta ocupacional

 

Protagonismo

Para as professoras de educação especial da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) Cirlane Regina da Rosa e Andrea Inês Müller, o termo capacitismo é novo. Porém, o fato de ter um conceito para falar de preconceito social contra pessoas com deficiências já é um avanço.

Elas lembram que, antigamente, era comum que pessoas com deficiência fossem ‘escondidas’ pelas famílias. Mas, agora, com todo trabalho que vem sendo feito para quebrar esse preconceito e com a ajuda da tecnologia para disseminar novos pensamentos, a inclusão tem avançado.  “Não podemos achar que, porque está em uma cadeira de rodas é um coitadinho, não vai conseguir fazer algo. Assim como qualquer pessoa tem habilidades em algumas coisas e outras não, os deficientes também”, ressalta Andrea.

Andrea e Cirlane reforçam a importância de a sociedade não vitimizar os deficientes (Foto: Eduarda Wenzel/Folha do Mate)

Vitimizar os deficientes é uma atitude negativa, segundo as professoras. “O jeito que se refere aos deficientes precisa ser cuidado. Eles não são coitadinhos ou vítimas, são pessoas protagonistas de suas vidas, que podem estudar, trabalhar, namorar e casar. Isso todos precisam entender”, destaca Cirlane.

As professores comentam que, na escola, nem todos seguem o mesmo cronograma de atividades, pois, enquanto uns conseguem escrever, outros sabem pintar ou fazer contas. O foco sempre é na habilidade que eles já estão adaptados. “Se alguém está com dificuldade de escrever, nós vamos primeiro deixar ele se sentir bem, fazer o que ele sabe, incentivar as habilidades que ele já tem, para depois tentar, aos poucos, inserir algo novo”, conta Andrea.

Cirlane e Andrea, além de serem professoras de educação especial, também são mães de deficientes e, por isso, sabem o que é sofrer com olhares de julgamentos. “Preparamos eles antes de sair de casa para os olhares. Muitas vezes, eles não percebem, mas os familiares sofrem”, comenta Andrea.

“Os deficientes têm autonomia, habilidades, conhecimentos, vontades e podem estudar, trabalhar e namorar. Eles devem ser os protagonistas da vida deles e mostrar para a sociedade que são capazes de tudo, assim como alguém não deficiente.”

CIRLANE REGINA DA ROSA – Professora da Apae

Como combater o capacitismo

– Evite fazer piadas e memes com os deficientes. Por mais inofensiva que pareça, é uma forma de preconceito.
– Entenda que todas as pessoas são diferentes, não existe um padrão ou uma única forma certa
– Se tiver um familiar deficiente, garanta que a aceitação e inclusão comecem em casa, incluindo a pessoa nas tarefas domésticas de limpeza, por exemplo.
Acompanhe pessoas que vivenciam o capacitismo e aprenda com elas. A terapeuta ocupacional Marina Severo Jantsch sugere dois perfis para seguir no Instagram: @victordimarco e @soupassarinha.

Tocar violão e colecionar discos: alguns passatempos de Josi

Algumas complicações no nascimento fizeram com que Josiane Tiedrich desenvolvesse deficiência visual. Isso não impediu que a jovem de 25 anos tivesse diversas habilidades, como o domínio das cordas de violão.

Tocar violão é um dos passatempos de Josi (Foto: Taiane Kussler/Folha do Mate)

O contato com a música e os instrumentos já acompanhavam Josi, como é conhecida, desde a infância. “Sempre gostei de ouvir música e já tocava violão no tempo do colégio”, cita. Em 2014, quando estudava na Escola Estadual de Ensino Médio Monte das Tabocas, foi convidada a participar do projeto ‘O ensino de música a pessoas com deficiências visuais’, do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul).

Além de tocar violão, Josi tem uma rotina cheia de atividades. Em casa, ajuda a mãe a lavar a louça, fala com os amigos e familiares pelo WhatsApp (por meio de um programa de voz), faz exercícios na bicicleta ergométrica e passa a maior parte do tempo ouvindo discos de vinil, em um cantinho especial da casa onde mora com a família, em Linha Bem Feita.

O gosto pela música impulsionou a jovem a colecionar discos de vinil. No início, ela tinha cerca de dez discos e, hoje, conta com cerca de 1,5 mil. “Compro no Face Brick e alguns eu ganho de presente”, conta a jovem, que gosta de ouvir música gaúcha, sertaneja, bandinha, músicas antigas – da Jovem Guarda – e as mais modernas.

Josi tem cerca de 1,5 mil discos de vinil (Foto: Taiane Kussler/Folha do Mate)

Em algumas situações do dia a dia, ela percebe que as pessoas não sabem da capacidade dos portadores de deficiência visual. “Algumas vezes, perguntam para a minha mãe as coisas, em vez de perguntarem para mim”, compartilha. Apesar disso, ela garante que não se vitimiza. “Às vezes, as pessoas falam sem querer alguma coisa, mas percebo que é sem intenção. Frases como: ‘Você não viu tal coisa’ são bem comuns, mas eu sou bem de boa, não me ofendo com isso.”

Como sempre precisou de um auxílio para copiar o conteúdo da escola, ela lembra que os colegas sempre ajudavam nas tarefas. “As professoras faziam uma lista para os meus colegas se revesarem”, recorda.

Determinação para ingressar no mercado de trabalho

As limitações psicomotoras não impediram Bruno Jappe Câmara, 30 anos, de trabalhar e assumir novos desafios. Na infância, ele foi diagnosticado com Síndrome de Moebios, uma condição que causa atrofiamento dos nervos faciais, estrabismo e problemas neurológicos.
Aos 5 anos, Bruno ingressou na Apae, onde permaneceu por 20 anos. Segundo a mãe do jovem, a funcionária pública Elisabeth Jappe, 57 anos, antes do trabalho realizado pela equipe multiprofissional, ele não interagia com a família. “Por meio da estimulação e da música, ele foi evoluindo”, observa a mãe.

Em agosto de 2013, Bruno surpreendeu a mãe, quando disse que gostaria de trabalhar. Indicado pela Apae, ele realizou o Curso Capacitar e ingressou na CTA Continental Tobbacos Alliance SA, com mais 15 colegas com deficiência.

O rapaz atua no almoxarifado da empresa. “Gosto muito de trabalhar lá, todos são bons”, garante Bruno. Elisabeth destaca que o filho foi bem conduzido e aprendeu a trabalhar em equipe e se adaptar à rotina, no tempo dele. “Sirvo cafezinho, carrego coisas pesadas e sei ler os pedidos”, afirma o jovem.

A mãe percebeu a evolução de Bruno logo que começou a trabalhar. “Ele progrediu muito, está mais determinado e autoconfiante. Em algumas atividades do dia a dia, ele não encontra mais dificuldades”, observa Elisabeth.

Dedicamos a edição desta terça-feira, 8, para falar sobre um tema pouco conhecido, mas que precisa ser debatido: o capacitismo.
Bruno trabalha, desde 2013, na empresa CTA. Ele adora o convívio com os colegas (Foto: Taiane Kussler/Folha do Mate)

Música

A música sempre foi uma das paixões de Bruno. “A primeira coisa que ele aprendeu foi mexer no rádio”, recorda a mãe, salientando que a estimulação, por meio da música, também foi muito importante para o filho.

Durante o acompanhamento na Apae, Bruno desenvolveu habilidades nos instrumentos e assumiu a função de baterista da banda Estação Apae. Elisabeth recorda que foram várias tentativas, já que era algo diferente para ele. “Bruno aprendeu a tocar em uma caixa de sapatos e, depois das aulas, começou a dominar a bateria”, relembra.

Mesmo que a bateria não faça mais parte do seu dia a dia, o ex-integrante da banda ainda gosta de ouvir música. “Gosto de bandinha, gaúcha, italiana e pagode”, cita Bruno, entre outros estilos musicais.

LEIA MAIS: Dicas para encarar a timidez

Deixe um comentário

Digite seu comentário
Digite seu nome