Lá pelo ano de 1975, Rita Lee já cantava: “Um belo dia resolvi mudar. E fazer tudo o que eu queria fazer.” Quase quatro décadas depois, a roqueira Pitty regravou o sucesso, em 2014. Afinal, querer mudar nunca saiu de moda.

Independentemente do ano, a música ‘Agora só falta você’ continua fazendo todo sentido – especialmente, para quem está na adolescência. Afinal, mudar é um dos verbos mais colocados em prática na juventude.

Psicóloga Priscila explica que a mudança amplia o olhar diante de novas perspectivas (Foto: Divulgação)

A psicóloga Priscila Schonarth explica que as mudanças são tão comuns na adolescência por ser um período em que os jovens têm interesse por se conhecer mais e experimentar diferentes situações. “É através do processo de mudança que descobrimos quem somos, o que queremos e gostamos. Temos a oportunidade de descobrir quais são as nossas potencialidades e até mesmo as nossas dificuldades e limites”, observa.

A profissional ressalta que a adolescência é uma fase de descoberta e transformação, em que ocorrem muitas mudanças físicas e psicológicas. Dessa forma, há um desejo de se diferenciar da sua família de origem e de buscar o pertencimento em novos grupos. “As mudanças físicas são algumas das formas que o jovem tem de se experimentar e se encaixar ao novo corpo, as novas ideias, opiniões e grupos que pertence”, afirma.

Em alguns casos, a mudança pode ser considerada um ato de coragem e libertação. “A mudança auxilia nas relações interpessoais e na troca de experiências, como por exemplo, pedir ajuda a um amigo que passou por uma situação semelhante”, explica.

Dificuldade de mudar
Por mais que a mudança seja comum entre os jovens, alguns tratam com mais naturalidade a tomada de decisões e outras não. “Algumas pessoas são mais abertas à experimentação, outras resistem mais a mudança. Isso depende da característica individual de cada um e da flexibilidade psicológica para a mudança”, observa a psicóloga Priscila Schonarth.

Ela explica que as pessoas que são mais ansiosas e controladoras têm mais dificuldade para mudar, pois elas enxergam o desconhecido como uma ameaça. Esse medo de mudar vem do não saber o que pode acontecer.

As mudanças e o cérebro plástico
“O cérebro é plástico”, disse um dos pais da psicologia, William James, em 1890. De forma simplificada, o conceito usado por ele destaca a capacidade que o cérebro tem de mudar e se adaptar por meio de alterações fisiológicas resultantes da interação com o ambiente. É um processo que permite adaptação a diferentes experiências e que contribui para aprender (ou reaprender). Quando vivemos novas experiências, são criados novos ‘caminhos’ dos neurônios no cérebro. Com neurônios interligados e pela prática repetida, a comunicação entre eles é fortalecida e esse caminho possibilita o processo de adaptação e aprendizado.

Cabelo pink para mostrar a alegria

Quem vê Laísa Oestrae, 21 anos, com o cabelo cor-de-rosa, não imagina que ela levou meses até ter coragem de fazer a mudança no visual. A guria pintou os cabelos em junho, mas ficou meio ano pensando se mudaria ou não. “Fazia tempo que tinha vontade, mas tinha medo de descolorir os cabelos, porque nunca havia feito”, conta. Depois que pintou de rosa, ela adorou o resultado. “Ficou melhor do que eu imaginei.”

Laís pintou os cabelos de rosa em junho e, até o fim do ano, pretende ficar loira (Foto: Arquivo Pessoal)

A decisão da cor rosa é porque é a preferida da jovem. “Fazer isso é como me expor de verdade. Eu sendo eu, mostrando minha essência verdadeira, porque me sinto como a cor rosa, sendo uma pessoa extrovertida e alegre”, observa.

A experiência de Laísa foi boa para sua autoestima, pois mudança, para ela, é tentar algo novo, que é importante para se descobrir. “Um corte diferente ou uma coloração diferente transforma uma pessoa, ajuda ela a se sentir mais bonita”, comenta. A próxima mudança da guria já está sendo planejada e também será nos cabelos. “Vou fazer outra coisa que nunca fiz, quero ficar loira, viver uma nova experiência”, expõe.

”Pintar os cabelos de rosa foi uma forma de criar coragem de mostrar quem eu sou e de me aceitar. Foi incrível essa mudança.”
Laísa Oestrae

Veganismo, uma escolha e filosofia de vida

Ágata Mello Dettenborn tem 17 anos e é estudante do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) campus Venâncio Aires. Há cerca de sete meses, a menina fez uma escolha que considera ser a mudança mais radical de sua vida até agora: passou a ser vegana. Ou seja, deixou de comer todo e qualquer tipo de carne, bem como alimentos derivados do meio animal.

A estudante nutre o amor pelos animais desde criança e isso sempre foi confuso para ela, porque, por mais que amasse, sabia do abate. “Era como se eu soubesse que estava cooperando com um enorme problema, mas como comer carne é algo tão comum na nossa região, era estranho ir contra isso.”

Ágata com bolo de chocolate e bolinho de milho com goiabada veganos (Foto: Arquivo Pessoal)

A guria conta que, com o passar do tempo, o amadurecimento e aprendizado fizeram com que a mudança fizesse sentido. “Fui desenvolvendo minhas opiniões e posicionamentos. Exploração humana, degradação da natureza, racismo e machismo foram as coisas com que sempre fui contra”, declara.

A decisão de se tornar vegana chegou junto com o início da pandemia do coronavírus e o isolamento social. Ágata viu um mundo devastado no qual não queria viver. “A desigualdade subindo, um vírus devastando a população mais vulnerável e grandes empresas cada vez mais ricas. Nesse cenário, me lembrei da vontade de mudar de vida, de não agravar questões tão graves, de ser melhor para mim e toda sociedade, para os animais e o planeta”, afirma.

Moradora de Passo do Sobrado, Ágata comenta que a família e amigos demoraram um pouco para entender a escolha, mas, com muito cuidado e paciência, foram entendendo os motivos. “Quando vou na casa de parentes sempre levo minha própria comida”, explica.

A dica de Ágata para quem pensa em adotar essa mudança é a vontade de tentar, sem pensar no fracasso. “Depois da criação de consciência, o paladar fica no coração, se come com responsabilidade e afeto. Você sente que não está patrocinando a crueldade e se sente bem de estar comprando os alimentos de alguém perto de você, que produz com comprometimento”, enfatiza. Ela também afirma que é possível descobrir sabores incríveis e se come melhor, com menos dinheiro.

”O veganismo é sobre fazer o possível, o processo começou faz algum tempo, quando me familiarizei a comprar roupas de segunda mão, por exemplo. No início da quarentena, parei com todas as carnes, mas me sentia mal de estar me alimentando de seus derivados. Vi estudos não patrocinados pelas indústrias de derivados animais, onde via claramente algumas das desvantagens de consumo.”
Ágata Mello Dettenborn
Estudante

 

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