A Associação Négo Football Club Acadêmicos do Samba completou 85 anos de muitas histórias e lutas por mais espaço para os afrodescendentes na sociedade
Isabel mostra orgulhosa as recordações do clube e do pai João Generoso (Foto: Leandro Osório/Divulgação)

Por Eduarda Wenzel e Taiane Kussler

Uma das entidades afrodescendente mais tradicionais do Rio Grande do Sul completou 85 anos de atuação. Em 29 de junho de 1935 foi criada a Associação Négo Football Club Acadêmicos do Samba com o objetivo de reunir a comunidade negra, que era proibida de frequentar clubes e festas tradicionais de Venâncio Aires. Nas últimas décadas, a sociedade é responsável por desempenhar um importante papel social e cultural no município.

A ideia do clube surgiu entre amigos e o funcionário público João Generoso dos Santos, já falecido, que fundou a sociedade na casa dele. Segundo a filha, Isabel Generosa Landim, a entidade foi criada por causa do racismo. “Meu pai se incomodava que no Guarani tinha um goleiro negro, o Ataliba e, quando o time perdia a torcida insultava ele com palavras como ‘nego sujo e macaco’, por isso ele resolveu criar um espaço para os negros”, relembra.

Inicialmente foi criada uma bailanta, um espaço para bailes. Com o tempo, muitas pessoas negras começaram a frequentar e foi criado o Négo. “Primeiro foi na casa dele, depois compraram um terreno na Emiliano de Macedo, onde ficou por 40 anos. Posteriormente a sede mudou para o atual prédio, na rua Engenheiro Henrique Vila Nova.”

João Generoso ficou no cargo de presidente por 20 anos, depois se afastou do clube. Por isso, durante infância, Isabel não conviveu muito no Négo. “Lembro que quando a sociedade fez 25 anos, meu pai pediu para assumir a presidência por seis meses para fazer a festa de aniversário. Foi um dia inteiro de comemoração e à noite ocorreu o baile. Foi muito lindo, mas foi a última participação dele como presidente”, recorda Isabel.

A filha também conta que quando ele ainda era presidente, ela assistia os bailes da cozinha da vizinha do clube, que cuidava de Isabel e dos irmãos. “Achava muito lindo ver os casais dançando juntinhos, pois não existia dançar sozinho como hoje.”

“Hoje, o Négo não é uma sociedade totalmente negra, é aberta para não negros que simpatizam com a cultura. Atualmente, é uma sociedade adorada por todos e isso é gratificante.”

ISABEL GENEROSA LANDIM – Filha do fundador e ex-presidente

A Associação Négo Football Club Acadêmicos do Samba completou 85 anos de muitas histórias e lutas por mais espaço para os afrodescendentes na sociedade
Foto de 1935, quando foi feito o primeiro baile do Négo. Ao fundo, aparece a casa que pertencia a João Generoso dos Santos (Foto: Arquivo Pessoal)

De pai para filha

Para dar continuidade ao trabalho do pai, em 2006 Isabel assumiu a direção da entidade e ficou no cargo por seis anos. “Só quando fui presidente do Négo aprendi o que é ser negra, pois participei de encontros nacionais de clubes afrodescendentes.” Foi nessa fase que ela percebeu que deveria resgatar novamente mais a essência do clube. “Reforcei as atividades de educação, lazer e desporto, que meu pai sempre enfatizava.”

Carnaval

Conforme Isabel, o pai dela contava que o Carnaval sempre foi uma atividade praticada pela entidade. “Na época era o cordão de Carnaval. Ele contava que saiam à tarde pelas ruas da cidade, cantando marchinha e recebiam refrigerante e doces dos moradores.” Depois foram se adaptando à cultura do Carnaval e começaram os desfiles.

Hoje em dia, a Acadêmicos do Samba, escola de samba vinculada à associação, é a mais antiga do município e, também conhecida como a mais tradicional. “Ela tem uma história e cultura que foi construída aos poucos, por isso é respeitada pelo povo”, diz Isabel. Os bailes e ensaios de Carnaval também são movimentados. “Desde a época dos cordões, os associados se juntavam para ensaiar as marchinhas. Sempre foram momentos alegres e isso se manteve.”

Legado que ultrapassa gerações

Lionor Pinheiro de Sá Lopes, 69 anos, é filha de José Ornélio de Sá (já falecido), que também participou da fundação da Sociedade Négo Football Club de Venâncio Aires.

Segundo Lionor, a iniciativa tinha como objetivo proporcionar um espaço para os negros e jovens, que não eram inseridos na sociedade. Ela lembra que, no decorrer dos anos, foram surgindo outras pessoas interessadas em participar da associação e o Négo foi crescendo, com o apoio da comunidade.

De acordo com ela, os bailes mais badalados eram de Carnaval, adulto e infantil. “As crianças não frequentavam os bailes dos adultos”, destaca. Além disso, os integrantes da Sociedade Négo também participavam dos Carnavais de rua. Geralmente os homens tocavam os instrumentos e as mulheres dançavam.

Incentivada pelo pai e a mãe Honorina Pinheiro de Sá, já falecida, Lionor participou do bloco das crianças e dos adultos. Ela recorda que os pais sempre foram ativos no Négo e que, inclusive, José Ornélio foi presidente da associação por um período. “Meus pais deixaram um legado maravilhoso para todo o povo negro. Depois da criação da sociedade eles tiveram mais espaço e oportunidade de inclusão. Hoje, já não existe mais esta separação mas, naquela época, isso acontecia. A luta foi grande”, reforça.

Curiosidades

  1. Em meados de 1935, os negros não podiam entrar em clubes, festas e eventos de brancos, por isso, no início da história do Négo só entravam negros. Mais tarde foi criado o ‘reservado’, espaço para brancos olharem os bailes, mas sem dançar. Com o tempo, o povo se misturou.
  2. A Associação Négo conta com biblioteca, com mais de 300 livros. O espaço foi reinaugurado no ano passado e leva o nome do fundador da associação, João Generoso, que nasceu em 20 de agosto de 1884 e morreu aos 98 anos.
  3. João Generoso também foi um dos criadores do Carnaval e da Festa de São Sebastião Mártir, em Venâncio Aires.

Pela continuidade da associação

As eleições para a nova diretoria da associação deveriam ocorrer no mês passado, mas por conta da pandemia, foi prorrogado o mandato de Ubirajara Pereira, o Bira, como presidente do Négo. Há quatro anos, ele assumiu a responsabilidade e ‘vestiu a camiseta’ para ajudar a renovar a entidade.

Com ajuda dos outros integrantes da diretoria, Bira atualizou a identidade visual em 2018, tentou resgatar os tradicionais bailes e fez novos eventos. “Tentei fazer o Négo voltar a lotar, fazer os eventos para o povo.”

“O principal objetivo é não deixar morrer a história de nossas origens e conscientizar que somos todos iguais, uma só raça, que é a humana.”

UBIRAJARA PEREIRA – BIRA – Presidente do Négo

No próximo mandato ele não irá se candidatar, mas pretende entregar o cargo para alguém que tenha o mesmo objetivo. “Espero que venha alguém que tenha a mesma linha de pensamento, que continue com o trabalho que vínhamos desenvolvendo, tanto de projetos quanto de trazer as pessoas para dentro da associação, nem se for só para conhecer a história”, planeja.

O presidente conta que seu amor pelo Négo vem desde criança, porque costumava desfilar pela Acadêmicos do Samba – escola vinculada à associação – pois seu pai também frequentava. “Quando não desfilava, eu frequentava os ensaios de quadra e nos dias de desfiles, quando a escola passava, eu chegava a subir nas grades para estar mais próximo da escola”, lembra.

Comemoração

Para não deixar a data passar em branco, a sociedade promoveu, no dia 27, uma live com Marla Oliveira, Marioni Wendt, Sche Rodrigues e Darci Maravilha. O presidente explicou que essa foi uma maneira de comemorar do jeito que gostam com “música e dança, mas sem aglomeração.”

Clubes afrodescendentes

Os clubes sociais negros são entidades que surgiram a partir do final do século XIX, quando a abolição começou a ser vislumbrada como realidade, com a aprovação da Lei do Ventre Livre, em 1871. Conforme a historiadora Helen da Silva Silveira, no momento de construção da liberdade também ocorreu a construção do racismo e estabelecimentos começaram a proibir a entrada de negros. Na região existem outros clubes afrodescendentes, mas a maioria já foi desativada. “O Négo é um clube antigo e ainda muito ativo socialmente.”

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