
Passo do Sobrado - O Recanto do Itacolomy nasceu de um sonho. Jerry Fabiano e Daiane Padilha Oliveira Haas enxergaram, no morro Itacolomi, situado na localidade de Potreiro Grande, interior de Passo do Sobrado, um potencial de visitação muito grande. E não tiveram dúvida. Os jovens agricultores apostaram em um sonho de transformar a morada em um ponto de referência ambiental na Região dos Vales, de conscientização e de turismo rural e ecológico.
Itacolomi, em tupi-guarani, significa ‘pedra menino’ ou ‘guri de pedra’. O nome do empreendimento com ‘y’, segundo Daiane, foi para diferenciar da denominação original do morro situado na divisa com Rio Pardo e também do morro homônimo mais famoso, o Pico Itacolomi, situado em Gravataí, na Região Metropolitana.
O projeto foi pensado, inicialmente em 2012, quando o casal adquiriu oito hectares de terras no entorno do morro, que pertenciam aos avós da Daiane. Aos poucos, foi comprando as propriedades lindeiras, somando 18 hectares de uma área que abriga pousadas, um pequeno balneário com piscinas, área de camping, lavouras, horta, pomar e mata nativa.
Antes de colocarem o projeto de vida em prática, Daiane e Jerry viveram suas experiências na cidade. Ela se formou bióloga na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e trabalhou por quase dez anos, na Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Venâncio Aires. Ele tentou a vida na Região Metropolitana. Aproveitou a estada em um tio que mora em Canoas, para fazer cursos profissionalizantes, como mecânica e vigilância. No mesmo dia que recebeu o certificado da última capacitação, pegou a moto e retornou para Potreiro Grande.
Em 2014, casados, os filhos dos agricultores da localidade – Alaíde e Eti José Haas e Elmindo e Vera Lúcia Padilha Oliveira – começaram a investir na propriedade, marcando, de certa forma, o retorno do casal às raízes. Hoje, continua plantando tabaco, soja, milho (que utilizam na produção de farinha) e várias outras culturas de subsistência, como feijão, frutas, batata doce, aipim, trigo, arroz e hortaliças, tudo de forma orgânica. Também criam gado, em mais 25 hectares de área arrendada, galinhas e peixes.
Em 2015, surgiu o Recanto Itacolomy, próximo à divisa de Passo do Sobrado com Rio Pardo, demarcada pelos trilhos do trem, a sete quilômetros do centro de Passo do Sobrado e a dois quilômetros do centro de Vale Verde.
Evolução
A visão inicial do casal era criar um lugar voltado ao ecoturismo, em vista do número de pessoas que iam ao morro para conhecer, contemplar a vista e a natureza e se aventurar em trilhas e rapéis. Aos poucos, as ideias foram mudando, evoluindo, até porque a atividade rural continuou sendo o carro-chefe da propriedade.

Mas, o que realmente mudou a vida do casal, foi a chegada dos filhos. Daiane aproveitou dois anos de licença interesse, para ficar mais próxima de João Pedro e do recém-nascido Pedro. Neste período, a bióloga se aprofundou nos estudos de agroecologia. Segundo ela, foi seu “caminho sem volta”. Nesse processo de ressignificação da vida, ela e o marido optaram pela preservação da saúde física e mental. A exoneração da Prefeitura de Venâncio Aires, em 2023, foi consequência.

Espaço para disseminar a educação ecológica
O Recanto Itacolomy oferece temporada de piscina e hospedagem. Mas, até dois anos atrás, o espaço era aproveitado no aprendizado de estudantes da educação fundamental, uma ideia que surgiu durante a licença de Daiane Haas.
Em parceria com a Japan Tobacco International (JTI) de Santa Cruz do Sul, oficinas de agrofloresta, recuperação de nascentes, plantio de árvores nativas, composteira, cultivo orgânico e bioconstrução eram oferecidas a alunos de duas escolas de ensino fundamental, uma de Passo do Sobrado e outra de Rio Pardo, cujas turmas se revezavam nas visitas. A bióloga calcula que mais de 200 crianças estiveram na propriedade entre 2022 e 2024.
É intenção do casal retomar a prática de educação ambiental em 2026. Para isso, procura parceiros na iniciativa privada ou no poder público.

Tabaco semi-orgânico
Uma das atividades rurais da família Haas é o fumicultura. Há dois anos, Jerry e Daiana iniciaram experimentos com tabaco semi-orgânico. O processo exige aplicação de agrotóxicos 30 dias antes do plantio, diretamente no solo. Durante o desenvolvimento da planta, se utiliza somente produtos biológicos.
Na primeira experiência, 70 mil pés foram cultivados, volume que atrapalhou o serviço do casal. Também, a prática não tem o rendimento financeiro que a forma convencional de plantio oferece. Mas, segundo Jerry, valeu pela experiência.
Hoje, na segunda safra, foram plantados 70 mil pés em oito hectares fora do Recanto Itacolomy. Mesmo voltando à forma convencional de cultivo, o casal continua aplicando técnicas de produção semi-orgânica, procurando evitar, ao máximo, o uso de herbicidas e substituindo-os por produtos biológicos.
Pousadas
Como a maioria das histórias e dos empreendimentos, o início não foi fácil para Jerry e Daiana Haas. O casal levou quase uma década para deixar o Recanto Itacolomy como está hoje: bonito, aconchegante e integrado ao meio rural e à natureza. Os dois participaram diretamente de todas as iniciativas e atividades que mudou o perfil da propriedade, desde o plantio de grama no entorno da piscina, até a construção das cabanas de pau a pique (bambu) e barro, que serviu de moradia por mais de três anos e hoje hospedam os visitantes.
A primeira bioconstrução foi concluída em 2017, ano em que nasceu João Pedro. Jerry explica que foi inspirada nas benfeitorias erguidas pelos antepassados, especialmente os avós, na Colônia dos Haas, vizinha à localidade de Potreiro Grande. Em 2020, quando chegou o Pedro, para complementar a família, a segunda cabana estava concluída. Apesar de rústicas, as hospedagens dispõem de energia elétrica e água encanada, além de uma bela vista para o Itacolomi. E podem ser locadas através da internet, pela plataforma Airbnb.
