
Venâncio Aires - O impacto das enchentes de 2024 ainda ressoa em Vila Mariante e arredores. Mesmo quem prefere não comentar a respeito, não escapa, pelo menos, de ver o rastro de destruição ao transitar pela localidade. Mas, o domingo serviu de reencontro com o gigante que assombrou diversas vezes os moradores. E, como bem lembrou o padre Aldo José da Silveira, em referência ao texto ‘O lamento de um rio’, da professora Scheilla Lobato, o rio só queria passar, mas tentaram barrar o seu leito.
Nossa Senhora dos Navegantes tem o poder de aproximar e reaproximar a comunidade do rio. A imagem da padroeira da comunidade chegou em uma balsa transportada por um reboque, sob os cuidados de um grupo de marinheiros que repete o ritual há muitos anos. O percurso foi curto. Ao som de foguetes e buzina, a comitiva saiu por volta das 9h30min do depósito da empresa J. Viana, que atua no ramo de comércio de areia, e chegou à chamada ‘rampa da Santinha’. Ali, foi recepcionada pelas ministras da Paróquia, Terezinha Graef Martins e Estela Maris de Freitas, e um grupo de fiéis. A prefeita e exercício, Izaura Landim, acompanhou a chegada.

Os marinheiros seguiram em terra carregando o andor, até a primeira parada, para receber a bênção do padre Aldo. Na ocasião, ele destacou a resiliência da população, que, aos poucos, reconstroem suas vidas na localidade ou fora dela. Mesmo quem mudou com medo de outras enchentes, volta para homenagear a padroeira. Aos fiéis, o pároco lembrou que, ao contrário de Deus que perdoa, a natureza revida quando atacada. “Se não cuidarmos dela, cada vez mais será pior.”

A imagem ainda foi carregada até a capela de Nossa Senhora dos Navegantes, em um percurso mais curso se comparado ao ano passado, onde Aldo celebrou missa. Após, a parte festiva transcorreu no pavilhão ao lado, como almoço e muita música para alegrar o resto do domingo.
Fé na padroeira
Luiz e Marlena Hertz acompanharam toda a parte religiosa da programação. Agricultores da localidade de Santa Mônica, desde o casamento, há mais de 30 anos, acompanham a chegada da santa, a procissão e a missa. Segundo a esposa, é o momento de pedir graças e também de agradecer pelas graças alcançadas, que, segundo ela, não são poucas. Normalmente envolve questões de saúde, diz. O pedido é jogado no rio, em um bilhetinho, acompanhado de flores como oferenda à padroeira.

Quem também não perde a data religiosa é Paulo Ricardo dos Santos, um dos marinheiros que acompanharam o deslocamento da imagem de Nossa Senhora dos Navegantes pelo rio. Há, pelo menos, 20 anos participa desse ritual e garante que a grande maioria dos colegas são devotos. Ele e o irmão Cássio, que também fez todo o trajeto, são a segunda geração no ramo, seguindo os passos do pai e de tios. Além deles, seguiram na balsa, Ronaldo Viana, João Francisco dos Santos, Ricardo Esteves Perez e Jonas Viana.

Trecho do texto ‘Lamento de um Rio’
Me perdoem por toda esta “bagunça”… Eu só queria passar.
Eu não fui feito pra Destruir… Eu só queria passar.
Já fui Esperança para os Navegantes…
Rede cheia para Pescadores…
Refresco para os banhistas em dias de intenso calor.
Hoje sou sinônimo de Medo e Dor…
Mas, eu só queria passar…
(Autora: Scheilla Lobato)